Rádio Big Rock

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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

De papo com Sepultura

Hoje é difícil imaginar uma banda brasileira chegando ao patamar atingido pelo Sepultura. E isso não é por falta de grandes bandas no cenário nacional. Muitas vezes a falta de persistência e uma cena ainda muito underground seja a explicação que impeça outras formações de atingirem o apogeu artístico. O que não podemos negar, e está muito claro para os que acompanham a carreira do Sepultura, é que Paulo Xisto e Andreas Kisser, juntamente com Derick Green e Eloy Casagrande (o caçula do grupo), continuam lutando para manter o nome Sepultura em evidência. E mesmo depois de vários conflitos internos, os caras se mantêm firmes na cena, representando com soberania e dignidade o metal nacional. No momento o Sepultura está prestes a se apresentar novamente no Rock In Rio, festival que ajudou a banda a alçar voos mais altos. Para sabermos um pouco mais sobre a relação da banda com o festival e outros assuntos, falamos com Andreas Kisser, que parece se multiplicar por todos os lados, tamanha a variedade dos seus projetos. Vejam abaixo como foi essa conversa!




Desde a primeira participação no Rock in Rio, (quando o Sepultura tocou no estádio do Maracanã em janeiro de 1991), foram várias apresentações no festival – já contando as edições internacionais (Lisboa, Madri e Las Vegas). Conte sobre a sensação de participar novamente desse megaevento e quais são suas melhores lembranças sobre o que já rolou no festival?

Andreas: Bom, são muitas lembranças. Na verdade, o show no Estádio do Maracanã, foi um dos mais importantes da nossa carreira, pois o Sepultura já estava com uma boa exposição internacional, já tocávamos fora a algum tempo, mas no Brasil ainda éramos ignorados, principalmente por parte da grande mídia. Lógico que havia o pessoal do metal, que acompanhava o underground e sabiam o que estava acontecendo. Mas foi realmente depois do Rock in Rio, de tocar a céu aberto, por apenas trinta minutos, em um “puta calor”! O Lobão teve os problemas dele depois... e no mesmo dia, veio aquela “constelação” - Megadeth, Guns N´ Roses no auge, Judas Priest, Queensryche. Então para nós, foi muito importante ter tocado em um festival com essa exposição fantástica para a mídia inteira, aparecendo na televisão.  A Globo mostrou o Sepultura como sendo uma banda brasileira que já estava acontecendo fora do Brasil. Teve o backstage também... conhecer os ídolos, ver como os roadies trabalhavam e o profissionalismo de todo mundo, pois não estávamos acostumados ver isso. Apesar de já ter tocado fora do Brasil, o nosso circuito era muito underground ainda. Foi uma experiência fantástica em todos os aspectos. E depois as portas se abriram! A edição de Lisboa, em 2004, foi importante. Em Las Vegas - a primeira edição nos Estados Unidos, onde o Steve Vai foi o nosso convidado, a parceria com o Tambours Du Bronx, acompanhamos o surgimento do Palco Sunset em Lisboa,  nos sentimos em casa!  É um espaço que coloca as grandes bandas do mundo no palco e também sempre abriu espaço para coisas novas, e desde 85 é assim, com toda essa diversidade de estilos.



O Sepultura será a principal atração do palco Sunset e trará o aclamado “Machine Messiah”, mais novo trabalho a tira colo. Sabemos que haverá participações especiais de integrantes da Família Lima (Amon, Lucas e Moisés Lima). O que o público pode esperar dessa apresentação?

Andreas: Na Verdade, não faremos experiência nenhuma. Nós vamos apresentas o “Machine Messiah” como nunca apresentamos antes. Essa vai ser a primeira oportunidade de apresentarmos as músicas com a galera tocando no palco. Temos feito shows com samples, que acompanham nossas apresentações ao vivo. Mas dessa vez faremos com músicos no palco, e além do Amon, Lucas e Moisés Lima, teremos membros da orquestra do Renato Zanuto, que teve participação em nosso último disco (The Mediator Between Heads And Hands Must Be The Heart), e que fará, pela primeira vez ao vivo, solo de Hammond na música “Iceberg Dances”. Vamos aproveitar o Rock in Rio para apresentar um show único, que não foi apresentado em lugar nenhum ainda. Vamos tocar uma ou outra música da história do Sepultura, mas realmente vamos focar nas músicas do novo álbum. Inclusive vamos apresentar a música “Machine Messiah” pela primeira vez. Apresentaremos um palco novo, com novos elementos e participações de músicos, mas sem experiências, sem misturas – vamos apresentar o que fizemos no disco do Sepultura e tocar as músicas do álbum de uma forma única.




Você é aquele tipo de artista que ‘bate o escanteio e cabeceia para o gol’. Você é visivelmente o membro mais inquieto da banda. Já tocou em projetos como “Hail!”, “Brasil Rock Stars”, participou de uma infinidade de trabalhos nos mais variados gêneros e ainda mantém ativo o “Kisser Clan”, “De lá Tierra”, e ainda comanda o programa de rádio “Pegadas do Andreas Kisser” (junto com o Yohan Kisser, seu filho). De onde você tira tanta energia para encarar essa rotina? Existe algum projeto ou algo que você ainda não tenha conseguido colocar em prática?

Andreas: (Risos), para mim é um privilégio ter tanta oportunidade de trabalhar com tanta gente. Eu acho que a música realmente une as pessoas: de idades, estilos diferentes, culturas diferentes. O Sepultura através da música tocou em mais de setenta e seis países diferentes pelo mundo. São trinta e três anos de história. Então nós conhecemos muita gente diferente. Pessoas de cinema, televisão, outros músicos, do esporte, tivemos a oportunidade de conhecer nossos ídolos, gente da política, enfim... e com isso as  portas vão se abrindo. Eu gosto de aprender, de conversar com gente diferente, principalmente no ramo da música e as coisas vão aparecendo com organização, com a ajuda de todo mundo – a equipe, família. Além de tudo isso, eu fiz trilhas sonoras para Globo. Isso é muito legal, pois estou sempre crescendo, é uma energia muito boa e positiva. As pessoas podem achar que isso é muito cansativo, mas eu vejo o contrário, para mim isso é muito motivador, deixar a cabeça ativa, com ideias novas, falando com gente diferente, aprendendo outras línguas... isso é algo positivo e bem saudável. Também é importante se cuidar, procurar comer bem, dormir bem. É importante procurar crescer na profissão e eu procuro fazer as coisas que eu gosto. Eu procuro não ficar forçando barra ou situação se não for algo que eu realmente acredito e que eu vá curtir, ter prazer e crescer. Tudo isso é muito positivo para mim, eu curto muito.




Se levarmos em conta que a carreira do Sepultura possui uma obra de enorme impacto, e que teve (e ainda tem) grande influência na vida dos fãs, músicos e artistas do mundo inteiro. Como vocês encaram essa responsabilidade na hora de compor um novo álbum?                 

Andreas: Com muita naturalidade, sempre fizemos o que queríamos fazer no aspecto artístico – de tocar, fazer música, gritar e falar das coisas que falamos nas letras. Sempre lutamos muito para ter essa liberdade e independente de qual gravadora ou de qual situação nos encontrávamos na mídia. Nunca baixamos a cabeça ou mudamos nada por motivos assim. Sempre viajamos e conhecemos coisas novas e procuramos trazer influência daquilo que curtimos e achamos que funciona na nossa música. Então isso é natural – a pressão é positiva e no Sepultura sempre houve essa pressão, mas em cada disco que lançamos temos, pelo menos, dois ou três anos de turnê, vários projetos acontecendo e estamos sempre coletando ideias. Nesse percurso, estou sempre escrevendo alguma coisa. Hoje é muito fácil guardar ideias, em um telefone. E a partir do momento que paramos para gravar um novo disco do Sepultura, já temos um ponto de partida, e isso facilita muito no começo do processo, temos que curtir e não podemos ficar usando essa pressão de uma forma negativa, de ficar preocupado com o que os outros vão pensar. Vamos fazendo o que curtimos e nos preparamos para isso.




O público paulista foi contemplado recentemente com o anúncio de uma apresentação do De La Tierra, em São Paulo no Tropical Butantã para divulgar o mais novo álbum da banda. Qual seria o grau de importância desse projeto para você?                                    

Andreas: O De La Tierra é um projeto que começou com todos os membros já muito ocupados com as suas respectivas bandas, e já sabíamos que o projeto seria assim, essa é uma situação da banda, ela foi criada dessa forma e sua manutenção segue dessa forma. O Sepultura está muito ocupado, o Maná no ano passado estava ocupado, e ainda está, fazendo alguns shows, mas o Alex (Alex González – baterista no Maná), está com um pouco mais de tempo, e ainda está lançando sua marca de tequila “Mala Vida”. Também trocamos o baixista (Sr. Flavio, “Los Fabulosos Cadillacs”), que optou por seguir com outros projetos e que estava afim de se dedicar a família e  filhos. Essa é uma situação que já sabíamos que seria um grande desafio, que é colocar a banda junta, achamos uma maneira de cada um compor as demos e depois fazer os arranjos juntos e gravar. Procuramos participar de festivais, para que possamos tocar para o maior número de pessoas possível em menos datas. E agora estamos lançando o segundo disco (De La Tierra II), e finalmente poderemos fazer uma turnê na América do Sul. Vamos tocar com o Harold Hopkins (baixista e fundador do Puya), que entrou na banda agora e que mora em Porto Rico. Serão os primeiros shows com ele e estamos muitos felizes de anunciar esse show em São Paulo. Tocar no Brasil é muito importante e estamos felizes por essas datas na América do Sul. Teremos shows no México e  algo para a Europa, mas vamos caminhando devagar. Afinal, não temos muito tempo e energia para dedicar ao De La Tierra da maneira que seria necessário, mas temos consciência que vamos ter que lidar com isso dessa forma. Temos o apoio da Sony Music, que é uma grande gravadora, um ótimo empresário, uma excelente equipe, e no final gostamos muito de tocar juntos e aos poucos vamos aproveitando as oportunidades que temos.




Você é reconhecidamente um ícone na música, mas demonstra uma humildade poucas vezes vista em um meio onde os egos passam o limite do aceitável. Qual a importância de “manter os pés no chão”, mesmo tendo um currículo como o seu?

Andreas: Sinceramente eu não sei, é difícil julgar outras pessoas. Eu sou do jeito que eu sou, faço o que eu faço e sigo de acordo com aquilo que eu acredito. Não sei... é difícil comparar ou achar que um é mais arrogante que outro ou mais humilde,  acho que no final o mais importante é fazer aquilo que gosta, sem pressão nociva, sem pressão que não traga coisas boas. Eu acredito que devemos manter o espirito leve e curtir o dia a dia e o “resto é resto”. Eu já vi tanta coisa acontecer com grandes ícones e sempre aprendi com eles. Todos os meus heróis, e posso mencionar o Hollywood Vampires (Andreas tocou com a banda no Rock In Rio de 2015), Alice Cooper e Joe Perry – parece que os caras começaram ontem, uma gana, uma vontade de estar no palco, uma energia de adolescente. Um clima muito respeitoso, muito tranquilo. Eu acredito que esse é o espirito, o fato de aprender com essa galera. Pois esses são os caras mais leves, sem tanta paranoia e problemas. Já é difícil o suficiente estar na estrada, longe da família, fazendo turnês pelo mundo, então vale a pena curtir e não ficar como escravo da situação.

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Por: Roberio Lima
Agradecimento: Adriana Baldin e Andreas Kisser
Foto: Divulgação

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