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28 de janeiro de 2026

Mr. Bungle traz o caos para São Paulo com um show energético e extremamente divertido no Cine Joia

Foto: Ian Rassari


Mr. Bungle – Cine Joia - São Paulo/SP - 26 de janeiro de 2026


Por João Zitti (@joaozitti.work)

Fotos gentilmente cedidas por Ian Rassari (@ianrassari) / 30e


O início do ano costuma ser um período relativamente parado quando se fala de música, sem muitos lançamentos ou turnês sendo realizadas. Porém, 2026 se mostrou particularmente diferente, com uma grande quantidade de shows agendados/tendo ocorrido na cena underground e mainstream. Para encerrar janeiro, o público brasileiro receberá a banda Avenged Sevenfold nos dias 28 e 31 para apresentações em Curitiba e São Paulo, sendo parte de uma extensa turnê pela América Latina. Além disso, o grupo está sendo acompanhado por A Day To Remember e, também, por Mr. Bungle, que realizou uma apresentação solo em São Paulo nessa segunda-feira, dia 26 de janeiro. 

Para quem não conhece, Mr. Bungle é uma banda americana formada por Mike Patton (vocalista e integrante do Faith No More), Scott Ian (guitarrista e integrante do Anthrax), Dave Lombardo (baterista e integrante do Slayer), Trey Spruance (guitarrista e integrante do Secret Chiefs 3, além de já ter passado pelo Faith No More), e Trevor Dunn (baixista e integrante do Tomahawk), podendo ser definido como um “super-grupo” por causa de seu elenco. Com uma sonoridade experimental e que mescla gêneros como o rock, ska e o thrash metal, o grupo possui 4 discos de estúdio, sendo eles: o self-titled “Mr. Bungle” (1991); “Disco Volante” (1995); “California” (1999); e “The Raging Wrath Of The Easter Bunny Demo” (2020), seu mais recente trabalho e que quebrou o hiato de quase 20 anos da banda. Agora, o grupo está em uma série de shows pela América Latina, tanto como banda de apoio para o Avenged Sevenfold quanto em apresentações solo. Mike Patton, inclusive, anunciou que esses serão os últimos shows da banda por um bom tempo, então existem fortes chances de essa ser a última oportunidade de assistir a banda no continente. 

A apresentação aconteceu no Cine Joia, casa de shows localizada na região da Liberdade e que já foi anfitriã de grandes artistas internacionais, como Poppy e Trivium. Apesar do horário e do dia em que o show foi marcado (9 da noite de uma segunda-feira), a casa estava extremamente lotada, chegando inclusive a alcançar o tão desejado sold-out algumas horas antes da apresentação. E o público se mostrou extremamente diverso, formado tanto por fãs assíduos da banda, quanto por fãs individuais dos artistas do grupo, com alguns deles até mesmo comentando que fizeram questão de chegar cedo para ver Mike Patton de perto. Quando o relógio marcou 21h14, a banda enfim subiu ao palco - sonorizada por uma versão, no mínimo, “diferente” de “Assim Falou Zaratustra” (que você provavelmente conhece por causa do filme “2001 - Uma Odisseia no Espaço”), o que serviu para mostrar que a experiência do show estaria longe de ser comum. 

Foto: Ian Rassari 

Foto: Ian Rassari 


E a palavra que certamente definiu o show foi “caos” (no seu sentido mais positivo): começando por um curto e calmo cover da música “Tuyo” (muito famosa pela abertura da série “Narcos” - protagonizada por Wagner Moura), o tom da noite mudou completamente logo em seguida para a adrenalina, ao mergulhar em um repertório extremamente veloz - algo que Dave Lombardo e Scott Ian dominam com excelência. O setlist da apresentação foi majoritariamente focado no seu último disco, o “The Raging Wrath Of The Easter Bunny Demo” (e que é um prato cheio para quem é fã de thrash metal, diga-se de passagem) - contando com músicas como “Anarchy Up Your Anus”, “Eracist” e “Raping Your Mind”. Consequentemente, os mosh pits foram vários, dominando o coração da pista ao longo de toda a apresentação. Além disso, o público foi presenteado tanto por clássicos da banda - como a icônica “Retrovertigo” (potencialmente o seu maior sucesso) - quanto por covers de grandes canções, obviamente adaptados e contando com todo o charme do grupo - como foi o caso de “I’m Not In Love” e “USA”. 

Tecnicamente falando, a banda como um todo foi impecável, dominando com maestria o seu caótico repertório e transicionando com perfeição entre a agressividade e a calmaria. Os destaques da noite, talvez, vão para Scott Ian - um verdadeiro mestre na guitarra e que toca com uma felicidade e energia que contagia quem assiste - e Mike Patton - extremamente carismático e com uma presença de palco que poderia ser definida como uma junção de todos os personagens dos Looney Tunes em um único corpo (especialmente o Taz). Mesmo com alguns pontuais problemas técnicos, a banda conseguiu contornar as situações com muito sucesso e bom-humor. E falando nisso, talvez esse tenha sido o grande ponto positivo da apresentação: o fato de eles não se levarem tão a sério. Utilizando-se da comédia do absurdo como parte essencial de sua linguagem (inclusive contando com o logo da Warner Bros ao contrário e de ponta-cabeça em vários dos seus materiais), os músicos brincam diversas vezes com trejeitos e sonoridades inusitadas, como no momento em que Mike Patton colocou um porquinho de borracha para assumir os vocais, e também nos momentos de interações entre os músicos e a plateia. 

Foto: Ian Rassari 

Foto: Ian Rassari 

Foto: Ian Rassari 


Além disso, outro ponto muito positivo do show foi a nítida preocupação dos músicos em se conectar com o público brasileiro: claro, o cover de “Refuse/Resist”, do Sepultura, foi ótimo, entregando o maior moshpit da apresentação, mas o que realmente surpreendeu foi Mike Patton falar português em quase todas as interações com o público. E não só ficar no básico, como o “olá” e o “obrigado”, mas sim formar frases completas com um sotaque quase que imperceptível, chegando também a alterar trechos de algumas das canções para prestigiar o público brasileiro, como em “Hypocrites/Habla español o muere” (que se tornou “Fala português ou morre”). A banda não tinha a menor obrigação de fazer isso - e provavelmente o público não iria se importar tanto caso fosse tocada a versão original da canção, mas o fato de os artistas se preocuparem em fazer essas alterações para proporcionar uma experiência única aos brasileiros é o que os diferencia da grande maioria das bandas que vem ao país, buscando criar uma conexão clara com a plateia e que, certamente, será muito lembrada com carinho pelos presentes. A noite, então, foi concluída da melhor maneira possível: um cover da clássica “All by Myself”, com os refrões carinhosamente alterados para “Tomar No Cu” enquanto Mike balançava seus braços exibindo o dedo do meio, um momento extremamente engraçado e que fechou com chave de ouro a performance. 

Foto: Ian Rassari 


Com um show frenético, caótico e muito bem-humorado, Mr. Bungle fez uma apresentação memorável para os novos e antigos fãs da banda nessa segunda-feira em São Paulo, abrindo sua passagem pelo país de forma espetacular e mostrando que vão muito além de ser somente um projeto paralelo, contando com um catálogo de peso e grande importância musical. 


Agradecimento a 30e pelo credenciamento e atenção 

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