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24 de fevereiro de 2026

Enforcer e Creatures colocam a força atual do Heavy Metal Tradicional à prova

Foto: Rafael Procópio 


Enforcer - Burning House - São Paulo/SP - 7 de fevereiro de 2026


Por: Rafael Cunha Procópio

Fotos: Rafael Cunha Procópio (@rafaelcprocopio)




A combinação entre Caveira Velha Produções e Burning House tem se mostrado promissora nos últimos tempos. Poucas semanas após terem trazido Cynic e Imperial Triumphant, duas bandas que testam e expandem os limites das vertentes mais extremas do metal, infundindo jazz e som progressivo no death e black metal, na mesma casa, a produtora cuidou do retorno dos suecos do Enforcer ao solo brasileiro. No primeiro de dois shows promovendo o seu disco mais recente Nostalgia no Brasil, que também passou por Curitiba no dia seguinte, o quarteto sueco – nessa passagem, na verdade, um trio sueco e com a participação do italiano Fabio Alessandrini, substituindo o baterista original Jonas Wikstrand – reforçou os metálicos laços inquebrantáveis com o público brasileiro.

Antes de subirem ao palco, entretanto, o público teve a oportunidade – e o prazer, faço questão de acrescentar – de assistir ao show dos paranaenses do Creatures. Ali, lançaram o seu segundo disco de estúdio Creatures II, equilibrando o set de oito músicas com três faixas do Creatures, primeiro disco completo da banda. O Creatures é a personificação brasileira da faceta oitentista dos pilares do Heavy Metal, desde as vestimentas até – claro – a sonoridade, que mescla com maestria as guitarras cheias e pesadas do heavy metal altamente influenciado pelo Black Sabbath das fases Dio, Glenn Hughes e Tony Martin, Ozzy Osbourne, Rainbow e, evidentemente, Judas Priest e as melodias e refrões grandiosos tão característicos do Hard n’Heavy que dominou a cena metálica mainstream nos anos 1980.

Foto: Rafael Procópio 

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Mateus Cantaleäno, com sua jaqueta preta que remete à clássica jaqueta de couro com franjas e cruzes prateadas usada pelo pai de todos, Tony Iommi, no Live Aid, fez bonito no manejo das linhas de guitarra, fazendo lembrar tanto o fundador do Black Sabbath, quanto o seu conterrâneo Glenn Tipton e as contrapartes estadunidenses Jake E. Lee, Vivian Campbell e mesmo Randy Rhoads. O equilíbrio entre técnica, presença de palco e interação com o público e entre membros da banda é algo notável, especialmente considerando serem uma banda relativamente nova. E isso vale para os quatro integrantes – Mateus na guitarra, Marc nos vocais, CJ na bateria e Ricke no baixo. Não é demais reforçar que o espírito heavy metal setenta e oitentista, na sua forma mais crua e visceral, esteve presente durante os 55 minutos da apresentação. Uma considerável parte dessa impressão fica por conta da incrível performance vocal e presença de Marc Brito, que é muito claramente influenciado pelo deus do metal Rob Halford, a epítome do frontman no Heavy Metal Tradicional.

Foto: Rafael Procópio 

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As influências e referências aos bastiões do gênero não se confundem, de forma alguma, com mera cópia da fórmula e estilo de tempos passados. É, na verdade, uma retomada dos clássicos com muita personalidade e tempero brasileiro. A tríade de abertura representou as múltiplas facetas do novo trabalho do Creatures. O início de Devil in Disguise já deu o tom do show: potência pura, sem firulas. Foi seguida por Night of the Ritual, que tem um maravilhoso solo de guitarra e fez os olhos marejarem, e Beware the Creatures, com os segundos iniciais meio AC/DC, refrão marcante e mais Judas Priest impossível, que contou com presença de palco e controle vocal impressionantes de Marc, mostrando a sua veia halfordística de maneira inquestionável. Antes de voltarem ao segundo disco com a faixa mais hard rock Danger e a balada sutil Nothing Lasts Forever, apresentaram Children of the Moon, com um maravilhoso trabalho da cozinha de CJ Dubiella e Ricke Nunes e uma bela parte intermediária semiacústica, gerando um impacto ainda maior aos riffs à la Bark at the Moon.

Na reta final, uma dobradinha do primeiro disco com Lightning in My Eyes – clássica faixa com refrão grudento, riffs agudos entremeados com palhetadas mais cadenciadas e densas, bateria dançante e baixo marcante – e Dressed to Die, música mais rápida e dinâmica, com um senso de urgência ideal para terminar de eletrizar o público para o ato principal da noite.

Foto: Rafael Procópio 

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Marc dividiu o público em três grupos – aqueles que já os tinham assistido ao vivo, os que só conheciam a banda por audição dos discos e, por fim, os que não conheciam a banda. Estando, eu mesmo, no segundo grupo, não posso deixar de concordar com o comentário de alguém da plateia, que mandou um “ao vivo colocam para mamar”. Apesar de excelentes, os discos de estúdio não fazem jus à energia magnética deles ao vivo. Com um show marcante e digno de headliner, Creatures certamente é uma banda que merece ser acompanhada de perto pelos amantes do verdadeiro metal tradicional, pois carregam essa tocha com muita maestria.

Foto: Rafael Procópio 


Meia hora depois, o Enforcer subiu ao palco pontualmente para apresentar a sua incessante artilharia metálica. Com poucas pausas para conversa, Olof Wikstrand e seus asseclas foram emendando um som no outro, mostrando – em vez de só falar – a intensidade do heavy metal em sua forma sonora mais pura, assim como ele deve ser. As poderosas e empolgantes Destroyer e Undying Evil, ambas do penúltimo disco From Beyond, abriram os trabalhos e já elevaram a temperatura da Burning House em uns bons graus celsius. Esse caminho era irreversível e o calor só aumentaria. Suor, sim. Lágrimas, só de alegria. Foram seguidas da rápida e cheia de teclados oitentistas Unshackle Me, com o marcante baixo de Garth Condit. A levada Iron Maiden dela seria em breve retomada com Live for the Night, aqui com um viés mais “inconsequente” e primordial. Antes, ainda coube outro som do From Beyond; dessa vez, a faixa-título. Aqui, o dueto de guitarra entre Olof e Jonathan Nordwall, uma mistura equilibrada entre as escolas do Accept e da donzela de ferro, deixara claro que, ao vivo, a química é até melhor que em estúdio.

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O assalto inicial deu espaço a um inesperado cover dos pais do heavy metal. Sem qualquer menção no setlist colado no chão do palco, Olof puxou uma versão excelente de Die Young. O público que já estava cativo, um coro uniforme cantando tudo em alto e bom som todas as músicas de forma bastante animada, respondeu à altura cantando o maravilhoso refrão de Ronnie James Dio. Esse foi o respiro necessário para que a banda voltasse aos riffs cavalares e às batidas velozes do segundo disco (Diamonds), agora com Roll the Dice, emendada – com uma pequena introdução – pela única representante do quinto álbum de estúdio Zenith; a grandiosa e potente Zenith of the Black Sun. Se alguém já estivesse entregando os pontos nesse momento, certamente as suas energias foram renovadas instantaneamente.

O pico de adrenalina se manteve com a ótima Coming Alive, encerrada com um breve, mas preciso, solo de bateria de Fabio, que, por sua vez, foi emendado pela maidenizada instrumental Diamonds, aqui em uma versão mais enxugada. Fôlego recuperado, o Enforcer voltou ainda mais no tempo. Scream of the Savage foi o único aceno ao disco de estreia Into the Night, mas com entrega total da banda, que já transpirava em bicas, mas não perdeu nem um mísero grama do mais puro aço. Desacelerando, veio a terceira – e, infelizmente, última – representante do disco mais recente, a belíssima balada Nostalgia. Com solos limpos, que enchem os ouvidos e fazem arrepiar o corpo inteiro, esse foi certamente um dos pontos altos do show. Não é qualquer frontman que consegue transitar com tanta mestria – fazendo parecer simples – entre o elétrico e veloz heavy/speed metal e a emotiva (mas não menos potente) balada metálica.

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Encaminhando para a parte final do set normal, tocaram mais quatro músicas. Duas do excelente Death by Fire – Mesmerized by Fire e Take me out of this Nightmare –, além de mais uma do Diamonds (Running in Menance) e outra do From Beyond (One with Fire). De fato, o público e a banda já estavam pegando fogo. Com o som a milhão, ninguém dava sinais de que desejava o fim do show. Os chamados aos coros e palmas, as estrepolias no palco, os malabarismos aproximando guitarras dos que encabeçavam as primeiras fileiras seguiam como se o espetáculo estivesse nos seus primeiros minutos. O público fez bonito, cantando todos os refrães a plenos pulmões.

Após uma brevíssima pausa, tocaram mais duas músicas do disco Diamonds (que dominou o set), as já clássicas Katana e Midnight Vice, que têm aquela pegada característica dos primórdios da NWOBHM, com baixo e baterias muito marcantes e duos de guitarra que “conversam” entre si ao acompanharem os gritos mais agudos de Olof.

Foto: Rafael Procópio 

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Toda a entrega e performance das bandas exalaram conexão com o público através de energia pura da música. Muito bom constatar que essa união e irmandade não é nada ensaiada, mas muito verdadeira. Poucos minutos depois do show, Enforcer e Creatures ficaram por ali conversando com o público presente. Entre fãs e músicos de outras bandas nacionais e gringas que compunham a plateia, entre fotos e autógrafos, a conversa, os abraços e a interação humana fluíram com naturalidade sem igual. Se a noite pudesse ser condensada em um único pensamento, seria: ao contrário do que dizem as más línguas, o underground transpira paixão e o heavy metal persiste tão forte como sempre.


Agradecimentos especiais à Caveira Velha Produções e ao Alan Magno pelo credenciamento e parceria e à Burning House pelo acolhimento e ótima estrutura de show.

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