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| Foto: João Zitti |
Moonspell - Carioca Club - São Paulo/SP - 22 de março de 2026
Por: Jair Cursiol Filho (@jcursiolf)
Fotos: João Zitti (@joaozitti.work)
Eu adoro shows no Carioca Club em São Paulo/SP. A casa é grande o suficiente para o som ser bom (supondo que o engenheiro de som do dia seja bom, é claro) e pequena o suficiente que de qualquer lugar você vê tudo sem dificuldade. Então quando o Moonspell, minha banda favorita de metal extremo, anunciou show lá, quis ir na hora. O único problema que ando encontrando com shows de metal são as datas. Show domingo à noite automaticamente é muito mais difícil de ir para quem já não more na grande São Paulo. Ao menos o show era relativamente cedo. Deu tempo de chegar em casa, no interior, pouco depois da meia noite.
Sinistro
Show pequeno raramente ocorre sem banda de abertura, e com o Moonspell não foi diferente. A minha surpresa foi que não era uma banda brasileira, mas sim o quarteto português Sinistro, que faz um som que o metal-archives define como Sludge/Doom/Post-Metal. São três definições que sinceramente não faço ideia de como avaliar. Me pareceu um doom com vocal feminino. Mas talvez o termo post-metal seja melhor, pois vejo ser usado (junto com o primo post-rock) para quase qualquer coisa que seja difícil de classificar.
Enfim, chega de divagar. Atualmente liderado no palco pela excelente vocalista Priscila da Costa, na banda desde o mais recente disco Vértice (2024), a banda tem ainda Rick Chain e Ricardo Matias nas guitarras absurdamente pesadas e atmosféricas, além do baterista Paulo Lafaia - estes dois últimos membros desde o primeiro disco, o autointitulado Sinistro (2012).
Doom metal está muito longe de ser algo que eu escuto, mas a combinação do instrumental sempre atmosférico, quase cinemático por si só, e a voz de Priscila com letras cantadas sempre em português tornou o show fantástico. Queria eu ter me tocado antes que eles estavam já na quarta apresentação no Brasil naquela semana e que fizeram três como ato principal – incluindo um ensaio aberto. Alguém tem uma máquina do tempo aí para eu ir neste ensaio?
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| Foto: João Zitti |
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| Foto: João Zitti |
Várias vezes conheço bandas interessantes dentro desta função de cobrir eventos. Mas raras são as vezes em que fico tão impactado que saio pensando na banda de abertura tanto quanto na principal. Mais raras ainda são as vezes que a banda de abertura me impacta tanto que eu compro algo deles. Voltei com o CD mais novo para casa, edição portuguesa mesmo, e tem sido uma das coisas que mais escuto nesta semana.
Grande parte deste impacto (e espero que os instrumentistas não fiquem bravos comigo) foi obra de Priscila da Costa, que elevou a qualidade do som pelo que ouvi do material de estúdio anterior da banda. Se ficou curioso, escute o já citado álbum Vértice (2024) - em especial as duas músicas deste tocadas na noite: "O Equivocado" e "Templo das Lágrimas".
Se eu pudesse deixar um pedido à banda, que está para lançar um álbum novo ainda em 2026, seria: que tal um ao vivo para pegar esta energia fantástica?
Setlist:
1. Partida
2. Abismo
3. O Equivocado
4. Relíquia
5. Templo das Lágrimas
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Moonspell
Meu álbum favorito de 2025 foi o fantástico Opus Diabolicum – The Orchestral Live Show gravado com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa e lançado em 31 de outubro de 2025. O show foi inclusive repetido no México alguns dias antes deste show no Brasil. Obviamente que não dá para esperar que coloquem uma orquestra no Carioca (e nem acho que o Moonspell tenha público suficiente para um show deste tamanho no Brasil), mas inicialmente esperava um setlist mais baseado no lançamento mais recente. Ao contrário, a banda trouxe uma turnê chamada "Wolfheart e outras histórias", tocando na íntegra o disco de estreia Wolfheart (1995) - apenas um pouco fora de ordem.
O show acabou sendo um presente aos fãs mais antigos, que seguem a banda desde o início. Das 10 primeiras músicas, nove foram de Wolfheart e ainda colocaram "Tenebraum Oratorium – Andamento I" do EP ainda mais antigo Under the Moonspell (1994).
A formação atual do Moonspell é composta dos membros originais Fernando Ribeiro (vocais) e Pedro Paixão (teclados), além do guitarrista de longa data Ricardo Amorim (que entrou logo depois do lançamento de Wolfheart), o baixista Aires Pereira (que está desde 2004) e o novato baterista Hugo Ribeiro – se é que podemos chamar de novato alguém que está desde 2020 na banda.
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"Wolfshade" é uma boa abertura, mas eu dificilmente colocaria ela para abrir um show que não fosse dedicado ao disco. Existem tantas outras naquele disco mais interessantes. Aí "Love Crimes" permitiu à vocalista de apoio Eduarda Soeiro (Glasya) mostrar à que veio. Curiosamente, olhando pelas estatísticas do setlist.fm, é muito menos tocada do que a anterior. Talvez eu não seja o fã normal da banda, então?
Quando chegamos até "Trebaruna", com seu fundo quase celta, tivemos o primeiro gosto de algo que adoro no Moonspell: músicas em português. Trebaruna é uma deidade da mitologia lusitana pré-cristianismo. De acordo com a Wikipedia, possui relação tanto com a mitologia celta (daí provavelmente o fundo instrumental) quanto com deuses do panteão romano. A mesma Wikipedia informa que ela voltou a ser adorada por neo-pagãos.
Seguimos com o tema "música celta cantada em português" com "Ataegina" - outra deidade na região ibérica ré-cristianismo. Esta tem uma história curiosa, com o vocalista Fernando explicando que foi removida da prensagem original do disco pela gravadora alemã que ficava em Dortmund por ser "alegre demais". Quando a banda estourou, a gravadora não teve opção a não ser devolver a música.
"Vampiria" é de longe minha favorita do disco, quiçá da discografia toda da banda – muito pelo clima instrumental e pelos vocais lidos quase que como uma poesia – ainda que não dê para dizer que as letras do Moonspell eram muito inspiradas nesta época. A seção do disco terminou com "An Erotic Alchemy" e "Alma Mater". Esta última é o que me confirma que não sou um fã normal da banda, visto o tamanho da resposta do público. É talvez o hino da banda, e contou com a participação de Jairo Guedz (Troops of Doom, ex-Sepultura). Foi quase uma surpresa ter alguém do Sepultura que não fosse Andres Kisser (não que eu fosse reclamar de ver Kisser).
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Quando terminamos Wolfheart iniciamos as "outras histórias". Para mim o melhor disco do Moonspell é o estupendo 1755 (2017), totalmente em português e focado no grande terremoto que destruiu Lisboa no Dia de Todos os Santos em 1755. Ainda é considerado um dos maiores terremotos da história da humanidade – na verdade foram três terremotos seguidos, com dois deles estimados por especialistas como estando entre 8.5 e 9 na escala Richter. Um dos terremotos causou um tsunami estimado de até 30 metros de altura em Lisboa. O mesmo tsunami chegou a atingir partes da Paraíba no Brasil no mesmo dia, embora muito menor.
A cidade teve pelo menos 100 incêndios em locais diferentes que demoraram cerca de uma semana para serem completamente apagados. O total de mortos dependendo da fonte varia entre 10 e 90 mil pessoas (também a depender de se conta-se apenas o primeiro dia ou toda a semana). As letras de 1755 comparadas com o que aparece em Wofheart são comoágua e vinho. E eles fecham o disco com um cover de "Lanterna dos Afogados" dos Paralamas do sucesso. Qual não foi a minha surpresa e deleite quando esta música foi a primeira das outras histórias, mesmo sendo raramente tocada pela banda? O disco também foi representado por "In Tremor Dei", que foca nos incêndios da cidade, minha favorita da bolacha, que mistura os vocais característicos de Fernando com o fado português.
| Foto: João Zitti |
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As outras histórias passaram por "Opium" e "Awake!" de Irreligious (1996), dois clássicos. A faixa-título do disco Extinct (2015) é outra das minhas favoritas, um pouco apocalíptica, onde uma pessoa pede apenas o sabor dos lábios de outra antes da extinção da humanidade.
Mas é em "Scorpion Flower" que Eduarda Soeiro mostra sua capacidade vocal de verdade, substituindo a gigante Anneke van Giersbergen (ex-The Gathering) do disco Night Eternal (2008). O show terminou com "Everything Invaded" de The Antidote (2003) e a obrigatória "Full Moon Madness" (ou "Fullmoon Madness", dependendo da prensagem) do já mencionado Irreligious. Ao final, o público brasileiro saiu agraciado com um ótimo show e esperando o retorno da banda após o lançamento de Far From God em julho de 2026. A pena é que a verdade econômica implica que bandas européias acabam deixando o Brasil e a América Latina em geral para o final de uma turnê, depois que já cobriram os mercados mais lucrativos de EUA/Canadá, Europa e Japão. Então, nos vemos em 2028, talvez?
| Foto: João Zitti |
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Setlist:
1. Setlist share setlist
2. Wolfshade (A Werewolf Masquerade)
3. Love Crimes
4. ...of Dream and Drama (Midnight Ride)
5. Tenebrarum Oratorium (Andamento I)
6. Lua d'Inverno
7. Trebaruna
8. Ataegina
9. Vampiria
10. An Erotic Alchemy
11. Alma Mater (com Jairo Guedz)
12. Lanterna dos Afogados (cover de Os Paralamas do Sucesso)
13. Opium
14. Awake!
15. In tremor dei
16. Extinct
17. Scorpion Flower
18. Everything Invaded
19. Full Moon Madness
Agradecimento à Tedesco Comunicação e Midia e Overload pelo credenciamento e atenção.






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