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21 de agosto de 2026

De Papo Com...Riviera Gaz

Foto: Divulgação 

Riviera Gaz mergulha no desconhecido em “Catacroma”: “Queríamos levar as músicas para um lugar que não conseguimos definir

Trio formado por Gustavo Riviera, Paulo Kishimoto e Steve Shelley transforma experimentação, referências dos anos 1970 e longas horas de edição em seu novo álbum


Por: Mayara Abreu 

Agradecimento: ForMusic 


A Riviera Gaz está prestes a abrir um novo capítulo de sua história. Formado por Gustavo Riviera, Paulo Kishimoto e Steve Shelley, o trio multinacional se prepara para lançar “Catacroma”, segundo álbum da banda, que chega às plataformas digitais em 20 de agosto pela ForMusic Records, em parceria com a Revolver, e também será lançado em vinil pela Vampire Blues.

Antecipado pelo single “Monomania”, o disco apresenta uma Riviera Gaz diferente daquela que surgiu com o EP Pere Ubu, de 2016, e o álbum Connection, de 2018. Se os primeiros trabalhos tinham uma abordagem mais crua, rítmica e direta, “Catacroma” mergulha em uma sonoridade mais experimental, psicodélica e expansiva.

Em entrevista à Big Rock, os integrantes contaram como o processo de criação levou o trio para um território que eles próprios tiveram dificuldade de definir.

Durante a mixagem, percebemos que estávamos indo para uma espécie de lugar não identificado, algo que não conseguíamos dizer ou nomear”, explica Gustavo. “Por isso as músicas são muito diferentes umas das outras. É algo muito universal.”

A transformação não aconteceu de maneira planejada desde o início. Segundo Paulo, foi o próprio processo de produção que revelou os caminhos do disco. E uma parte importante desse processo foi justamente a edição.

Foi um processo longo. Tudo teve seu próprio ritmo e não podíamos acelerá-lo. O que levou mais tempo, além da mixagem, foi a edição. As músicas eram mais longas e nós ficávamos ouvindo bastante, tentando deixá-las mais interessantes”, conta o músico.

A preocupação era encontrar o ponto certo entre experimentação e dinâmica. “O que mais tomou nosso tempo foi editar as músicas para chegar a um formato legal, que você consiga ouvir sem achar entediante”, completa Paulo.

Steve Shelley, conhecido por seu trabalho como baterista do Sonic Youth, também participou ativamente desse processo. Para ele, uma das referências importantes para pensar a dinâmica das músicas veio de um lugar inesperado: a música brasileira.

Foto: Divulgação 


Erasmo Carlos como inspiração

Durante a conversa, Shelley destacou Erasmo Carlos como uma das principais referências para o processo criativo de “Catacroma”. Mais especificamente, uma música que, segundo ele, apresenta constantemente novos elementos ao ouvinte. “Uma inspiração para mim foi ‘É Proibido Fumar’, do Erasmo Carlos. Há algo nessa música em que, a cada 20 segundos, alguma coisa bonita e nova está acontecendo”, explica.

A ideia passou a fazer parte das conversas entre os três integrantes durante a produção do disco: não adicionar elementos apenas para preencher espaço, mas fazer com que cada momento da música tivesse algo a oferecer.

Falávamos muito sobre isso. Não queríamos simplesmente ocupar espaço, mas oferecer alguma coisa dentro do tempo que tínhamos com cada música”, afirma Shelley.

O interesse pelo período também está relacionado à convivência dos três fora da Riviera Gaz. O trio apresenta semanalmente o programa The Aspirin Meme, na web rádio Veneno Live. A atração já ultrapassou a marca de 260 episódios e funciona como uma espécie de laboratório musical permanente para os integrantes.

Fazer o programa juntos toda semana nos força a entrar nesse universo da música”, explica Paulo. “E uma coisa que descobrimos é que os três sempre colocamos músicas dos anos 1970. Às vezes colocamos coisas mais antigas ou mais novas, mas em todos os programas temos muitas músicas dos anos 1970. Isso acaba sendo uma inspiração, mesmo que inconscientemente.”

Além de Erasmo Carlos, referências como David Bowie, The Kinks e The Stooges também aparecem na trajetória da Riviera Gaz. Shelley conta ainda que documentários sobre Bowie despertaram seu interesse pela maneira como diferentes camadas e espaços sonoros podem ser utilizados em uma gravação.

São coisas sobre as quais músicos conversam. E, quando você termina o disco, às vezes elas acabam afetando o resultado um pouco ou não afetam nada. Às vezes afetam”, comenta.


Uma banda que nasceu quase por acaso

A própria formação da Riviera Gaz também aconteceu de maneira pouco convencional. Gustavo começou o projeto trabalhando em algumas músicas próprias e gravando demos com Paulo. A dupla precisava então encontrar um baterista. Paulo já conhecia Steve de outras situações, incluindo apresentações relacionadas a Thurston Moore e outros projetos.

Foi como um tiro no escuro. Pensamos: ‘Vamos perguntar ao Steve se ele quer gravar com a gente. Temos quatro músicas, vamos tentar’”, relembra Gustavo.

Steve aceitou. Os quatro primeiros registros deram origem ao EP de estreia Pere Ubu, lançado em 2016, e aquela colaboração pontual acabou se transformando em uma banda que permanece ativa uma década depois.

Para Paulo, a relação anterior com Gustavo também foi fundamental. O músico passou cerca de 15 anos tocando com os Forgotten Boys e já tinha uma longa história de parceria musical com o guitarrista. “Ele me chamou para participar desse novo projeto, que deveria fazer coisas diferentes do que já estávamos fazendo nos Forgotten Boys. Desde o começo, eu encarei esse projeto tentando sempre ir além e fazer coisas diferentes”, explica.

A química entre os três parece justamente nascer desse desejo de experimentar.

É desafiador às vezes, mas é muito divertido. E é muito fácil trabalhar com esses caras”, resume Paulo.

Foto: Divulgação 


“Queremos que alguma coisa fique”

Se “Catacroma” representa uma mudança na sonoridade da Riviera Gaz, a intenção do trio não é necessariamente que o público consiga explicar exatamente o que ouviu.

Ao imaginar alguém descobrindo o álbum sem qualquer conhecimento prévio sobre a banda, Steve prefere pensar na sensação que permanece depois da experiência.

Espero que sintam a mesma coisa que uma pessoa sente depois do final de um bom filme.

Que você continue pensando sobre ele ou se lembre dele de alguma maneira. Talvez até se lembre de uma sensação que teve enquanto estava assistindo”, afirma.

Espero que alguma coisa fique. E talvez que a pessoa queira colocar o disco para tocar novamente. Ou tenha aquela reação de: ‘Espera, o que foi isso? O que foi aquilo?’

É justamente nesse território entre o familiar e o indefinível que a Riviera Gaz parece querer construir sua nova fase. Em “Catacroma”, o trio não abandona suas raízes no rock, mas permite que elas sejam atravessadas por psicodelia, experimentação, referências brasileiras e uma produção construída nos detalhes.

Depois de dez anos de história, a Riviera Gaz parece menos interessada em encontrar uma definição para sua música e mais disposta a descobrir até onde ela pode chegar.

Confira a entrevista na íntegra:

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