Por Giovanna Marques
Fotos gentilmente cedidas por Sigryd Bagon / A Ilha do Metal
Sábado, 27 de junho
O segundo dia de festival começou com um clima agradável e um belo dia ensolarado, animando ainda mais o público sedento por metal.
Depois de uma sexta-feira marcada pelo peso do thrash, do death metal e pelo retorno do Megadeth à Finlândia, o segundo dia do Tuska Festival 2026 apresentou uma proposta diferente. O sábado foi, talvez, o retrato mais fiel da identidade que o festival vem construindo nos últimos anos: um evento capaz de reunir diferentes gerações do Metal sem abrir mão da própria história.
Se tradicionalmente o sábado costuma registrar o maior fluxo de público, em 2026 isso voltou a se confirmar. Desde o início da tarde, o Suvilahti já recebia milhares de pessoas circulando entre os quatro palcos, áreas de alimentação, estandes de merchandising e espaços destinados aos patrocinadores. Musicalmente, a programação foi construída sobre uma combinação de Metalcore, Death Metal, Hardcore e Nu Metal, refletindo a transformação do gênero ao longo das últimas duas décadas. Se havia alguma dúvida sobre a disposição do Tuska em abraçar o metal contemporâneo, ela desapareceu logo nas primeiras horas da programação.
O sábado também evidenciou a convivência entre públicos bastante distintos. Enquanto veteranos aguardavam apresentações de bandas clássicas, uma parcela significativa da audiência era formada por jovens que cresceram acompanhando grupos surgidos nos anos 2000 e 2010. Em vez de criar divisões, essa diversidade ajudou a construir uma atmosfera curiosa, em que camisetas do Slayer dividiam espaço com fãs de Bad Omens, Lorna Shore e Bring Me The Horizon.
![]() |
| Foto: Tuska Festival / @petrisaraphotography |
Começamos o segundo dia de Tuska com a apresentação dos finlandeses do Swallow the Sun, no palco coberto Radio City Stage. A apresentação foi, como sempre, intimista e com poucas demonstrações de grandes emoções, e talvez seja exatamente isso que faça a musicalidade da banda se destacar tanto.
A banda de Death-Doom Metal, fundada no ano 2000, também flerta com o Gothic e o Black metal. Melancolia de sobra. A apresentação nos coloca em contato com os sentimentos mais profundos guardados no fundo do peito, aqueles que a gente tenta sempre empurrar para longe quando insistem em voltar à superfície. Na minha opinião, esse é justamente o grande diferencial da banda.
Vale lembrar que o Swallow the Sun se apresentará em São Paulo no dia 11 de agosto de 2026, no Hangar 110, uma ótima oportunidade para conhecer de perto toda a melancolia do metal finlandês.
Em seguida, permanecemos no mesmo palco para assistir ao Dogma, projeto que eu estava ansiosa para ver ao vivo. Porém, a decepção foi grande.
Não me entendam mal: as integrantes são simplesmente incríveis, talentosíssimas e, claro, lindíssimas dentro do padrão de beleza de quem mais consome Rock e Metal. Mas, como já aprendemos, o Dogma não é exatamente uma banda, e sim um projeto criado por três homens que produzem, gerenciam e escrevem as músicas, enquanto as integrantes são musicistas contratadas apenas para interpretá-las.
O projeto surgiu com a proposta de empoderamento feminino, mas, infelizmente, fica difícil enxergar qualquer empoderamento ali. Além de se concentrarem nas músicas que estão executando, as integrantes passam o tempo inteiro fazendo poses e gestos sensuais e provocantes enquanto parte do público masculino vai à loucura.
Ao mesmo tempo, dois homens circulam constantemente pelo palco filmando as integrantes, fazendo gestos e, dos bastidores, dando instruções sobre praticamente todos os seus movimentos. É uma sensação bastante estranha assisti-las ao vivo, pois a impressão que fica é a de que artistas extremamente talentosas possuem pouca ou nenhuma liberdade criativa.
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
O show em si é um espetáculo de heresias, mas com poucos destaques musicais. Ainda assim, a versão de "Like a Prayer", de Madonna, foi divertida e arrancou um belo coro do público.
Seguimos rumo ao palco principal para assistir ao P.O.D., que se apresentou pela primeira vez em solo finlandês e, por isso, era um dos shows mais aguardados do dia.
O retorno dos norte-americanos ao circuito europeu despertou curiosidade entre diferentes gerações, e era possível encontrar pessoas de todas as idades reunidas diante do palco.
A banda apostou em um repertório concentrado nos maiores sucessos da carreira, trazendo de volta a sonoridade que marcou o auge do Nu Metal no início dos anos 2000. O encerramento ficou por conta da aguardada "Alive", fazendo todos os presentes cantarem juntos — inclusive quem estava trabalhando no festival.
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
Seguindo em direção ao Nordic Energy Stage, percebemos que era simplesmente impossível chegar perto do palco. O Paleface Swiss transformou o festival em um verdadeiro caos controlado antes mesmo da primeira música começar.
Misturando Hardcore, Beatdown e Deathcore, o grupo suíço entregou uma apresentação insana que rapidamente se tornou uma das mais comentadas do dia. Bastaram os primeiros acordes para que enormes rodas se formassem enquanto o vocalista conduzia a plateia com uma intensidade praticamente ininterrupta.
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
Claro que minha ansiedade estava alta. Ver um baterista brasileiro sendo reconhecido mundialmente faz o coração ficar quentinho. O mais impressionante não foi apenas assistir Luigi Paraventi destruindo na bateria, mas perceber que ele parece estar em um nível técnico ainda acima do esperado para a própria banda.
Não me entendam mal: o Paleface Swiss é uma banda incrível e seus números mostram claramente o tamanho do seu sucesso. Ainda assim, Luigi parece estar em outro patamar técnico. Não é à toa que recentemente foi convidado para substituir nada menos que Mario Duplantier, do Gojira, em alguns shows da última turnê norte-americana da banda francesa, após problemas de imigração impedirem o baterista original de chegar a tempo. Bravo, Luigi!
Ficou claro durante a apresentação que poucas bandas conseguem estabelecer uma conexão tão imediata com o público. O clima foi de absoluto caos: mosh pits gigantescos e crowd surfing acontecendo sem parar, apesar dos enormes avisos de "Proibido Crowdsurfing" pendurados ao redor do palco.
A segurança precisou agir em alguns momentos para retirar fãs que necessitavam de atendimento, mas todo o processo aconteceu de forma rápida e organizada, confirmando novamente a eficiência da equipe do Tuska em lidar com grandes concentrações de público.
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
Agora no palco principal, a banda Trivium preparava o que seria uma das melhores apresentações de todo o festival.
Poucas bandas conseguiram unir tanta precisão técnica com tamanha presença de palco. Desde o início da apresentação, Matt Heafy comandou o público com naturalidade, interagindo constantemente com a plateia e arriscando várias palavras em finlandês, para delírio dos fãs locais.
O setlist percorreu diferentes fases da carreira, equilibrando clássicos com músicas mais recentes sem que o ritmo da apresentação sofresse qualquer queda. Durante todo o show era possível ver rodas de mosh, crowd surfing e milhares de pessoas cantando os refrões em coro. Originária de Orlando, Flórida, a banda encerrou a apresentação com "In Waves", fechando o show em grande estilo e confirmando por que foi considerada por muitos uma das melhores performances de toda a edição de 2026.
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
![]() |
| Foto: Sigryd Bagon / A Ilha do Metal |
Ainda no palco principal, era hora de esperar pelo headliner da noite: Bad Omens.
Tenho que confessar que eu não esperava muito do show, apesar da incrível estrutura montada e da enorme expectativa presente na multidão de fãs. Para parte do público mais tradicional (e eu me incluo nessa), a banda ainda representa uma geração distante daquela que construiu a história do Tuska. Por outro lado, sua ascensão nos últimos anos transformou o grupo em um dos maiores fenômenos comerciais do Metal contemporâneo.
Sem querer me tornar a "tiazona chata" do Rock e Metal, fui de mente aberta para tentar entender por que a banda é praticamente uma religião para tanta gente, acumulando milhões de seguidores e encantando principalmente as gerações mais novas. (Sim, os caras têm mais de 1,4 milhão de seguidores só no Instagram.)
Assim que subiram ao palco, ficou evidente o tamanho da expectativa.
Visualmente, a produção foi uma das mais elaboradas de todo o festival. A iluminação, os painéis de LED e o trabalho de palco ajudaram a criar uma atmosfera cinematográfica que se encaixava perfeitamente com a proposta estética da banda. Nos telões, durante os intervalos entre as músicas, era exibido um filme de qualidade impressionante que fazia parte do espetáculo e ajudava a construir toda uma narrativa e experiência cinematográfica e artística.
![]() |
| Fotos: Bad Omens Facebook |
Musicalmente, o show também apresentou momentos muito fortes, principalmente nas músicas mais conhecidas, acompanhadas em coro por milhares de pessoas do início ao fim.
Ainda assim, a apresentação dividiu opiniões.
Enquanto uma parcela do público considerou o Bad Omens um headliner absolutamente compatente com a nova geração do Metal, outra sentiu falta de uma performance mais agressiva e espontânea, comparando inevitavelmente a banda com os headliners das edições anteriores.
Essa diferença de percepção apareceu também em boa parte da cobertura internacional. Alguns veículos destacaram a qualidade visual da produção e a força da banda junto ao público mais jovem, enquanto outros apontaram que, apesar do espetáculo impecável, o show nem sempre atingiu o impacto esperado para encerrar a principal noite do sábado.
Na minha opinião, isso chega a ser um absurdo. Você pode até não se conectar com o som da banda, mas é impossível negar a grandiosidade do Bad Omens. Tudo funciona em um nível altíssimo: produção, iluminação, qualidade sonora, presença de palco e execução musical.
E, para a surpresa de um total de zero pessoas... eu me apaixonei pelo espetáculo.
Que show, senhores!!!
![]() |
| Fotos: Bad Omens Facebook |
Em resumo, mais do que reunir grandes apresentações, o segundo dia do Tuska revelou uma mudança geracional que vem acontecendo de forma natural.
Bandas surgidas nas últimas duas décadas deixaram de ocupar posições secundárias para assumir o protagonismo da programação. Ao mesmo tempo, grupos como o Trivium demonstraram que já pertencem definitivamente ao grupo de atrações capazes de sustentar um festival inteiro, justamente por conseguirem reunir fãs de diferentes gerações diante do mesmo palco.
Foi uma programação construída menos sobre nostalgia e mais sobre o presente e o futuro do Metal. E eu acho isso insanamente positivo!
A velharia do Rock adora arrotar arrogância, dizendo que o Rock e o Metal morreram em epocas de TikTok. O que eles não te contam é que a maioria dos que mantêm esse discurso saudosista nunca foi a um unico show das bandas dessa nova geracao para entender o porquê da grandiosidade das mesmas.
O Metal não morreu, e está longe disso!
Ele só se modificou e implementou elementos para se adaptar aos novos tempos, às novas tecnologias e às novas gerações.
E, sinceramente, depois do que vi no palco do Tuska neste sábado, fica difícil defender qualquer argumento em contrário.












Nenhum comentário:
Postar um comentário