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Por: João Zitti (@joaozitti.work)
Agradecimento: Disney
Quando falamos de grandes personalidades da história do rock, é muito difícil não pensar em um sobrenome específico: Gallagher. Os irmãos Noel e Liam, frutos da cidade de Manchester e originários da classe trabalhadora britânica, foram os principais símbolos da efervescência musical da Inglaterra nos anos 90, alcançando uma ascensão meteórica com os discos “Definitely Maybe” e “(What’s The Story) Morning Glory?”, seus dois primeiros trabalhos de estúdio. O sucesso foi tanto que o período contou com a famosa Oasismania, em referência ao estrondoso sucesso que os Beatles tiveram nos anos 60. Porém, tudo isso pareceu ter chegado ao fim no final dos anos 2000, quando os irmãos tiveram uma forte discussão e Noel decidiu sair permanentemente da banda poucas horas antes de uma apresentação. Mais de 15 anos se passaram até que os fãs receberam a notícia de que o Oasis iria enfim retornar aos palcos, atravessando o oceano com uma longa turnê mundial. Inicialmente, todos ficaram reticentes - afinal, quem garantiria que eles não brigariam novamente horas antes de uma das apresentações? Mas, após meses de excursão, a empreitada foi um sucesso, revivendo a Oasismania para uma nova geração recriando o vínculo familiar dos irmãos Gallagher. Para registrar na história o que foi esse momento, a Disney apresentou o documentário “Oasis - Don’t Look Back In Anger”, lançado no dia 10 de setembro e que, a convite da Disney, a Big Rock pôde conferir nos cinemas em uma sessão especial.
A obra, que conta com pouco mais de duas horas de duração, é dirigida pela dupla Dylan Southern e Will Lovelace, colaboradores de longa data e pessoas relativamente familiarizadas com o universo musical, tendo já dirigido projetos audiovisuais de Bjork e Arctic Monkeys, além de um documentário da banda Blur (por mais irônico que possa parecer, considerando o histórico dos grupos), chamado “Blur: No Distance Left to Run”. O longa teve sua estreia mundial no Festival de Veneza, um dos grandes eventos mundiais quando o assunto é cinema, sendo aplaudido por mais de 8 minutos pelo público.
Ainda que o filme seja descrito como um documentário, é injusto não dizer que a obra é um grande híbrido entre esse gênero e o estilo de filmes-concerto, muito por conta da grande quantidade de gravações dos shows da banda ao redor do mundo. Além disso, a obra foge (e muito) do modelo-padrão de “talking heads” que tanto conhecemos (isso é: série de depoimentos gravados com alguém sentado falando com um entrevistador, alternando eventualmente para outros enquadramentos da pessoa falando ou para detalhes variados), se utilizando de uma grande experimentação de imagens de arquivo estilizadas da banda nos anos 90 e indo eventualmente para uma experiência mais sensorial liderada pela música e grandes efeitos visuais. De certa forma, ele se assemelha ao documentário “Moonage Daydream”, de David Bowie, porém bem mais contido e menos alucinógeno.
A obra se divide em três partes: o Antes, o Durante, e o Depois da turnê. A escolha de uma maior linearidade em seu fio narrativo foi extremamente acertada, conseguindo evidenciar com clareza a efervescência do renascimento da Oasismania. A primeira parte (o Antes) é, talvez, um dos melhores blocos do filme: focado em mostrar os ensaios do grupo para a turnê, a equipe se utiliza de câmeras pré-posicionadas no estúdio e com uma interação praticamente nula com os músicos, reforçando o sentimento de cautela e estranheza ao adentrar naquele campo de guerra que era o relacionamento dos irmãos. E isso não se dá somente na linguagem do filme, mas também nos próprios acontecimentos mostrados, com um Noel constantemente preocupado com os detalhes da turnê enquanto Liam, sendo quem é, aparecia eventualmente, ensaiava o setlist e, quase como se estivesse em uma apresentação, saía do estúdio sem olhar para trás, com até alguns dos integrantes ironizando a situação. Com isso, o filme é extremamente honesto ao mostrar para o público de maneira direta que as coisas definitivamente não estavam bem no início, fugindo de um erro comum de obras musicais que apresentam uma história perfeita e que, como muitos gostam de chamar, é uma verdadeira “chapa branca”.
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| Liam e Noel Gallagher na estreia mundial do documentário, em Veneza Foto: Giulia Parmigiani |
O documentário então segue para uma grande alternância de gravações dos números musicais (extremamente bem captados, com uma qualidade sonora e imagética que justifica a experiência de conferir a obra nas telonas) e de depoimentos variados. Aqui, Liam e Noel mostram com sinceridade o que sentiram ao pisar novamente do palco juntos após tantos anos, refletindo de uma maneira muito bonita a admiração e a saudade que ambos tinham um do outro. Noel, inclusive, brinca com a icônica pose de Liam ao equilibrar seu pandeiro na cabeça, dizendo que ele era a única pessoa no mundo que conseguiria fazer aquilo parecer legal e que, se fosse ele fazendo isso, iria parecer um pateta. Juntamente disso, a obra coleta depoimentos e momentos do dia-a-dia de alguns dos fãs mais fiéis da banda ao redor do mundo (incluindo uma brasileira, cuja paixão pelo grupo é tanta que chamou seu cachorro de Bonehead), trazendo à luz o que realmente foi esse período de reunião do grupo e mostrando que a Oasismania foi muito mais do que uma simples “modinha” - mas sim um movimento cultural de fãs completamente apaixonados pelo que a banda e suas músicas simbolizam.
O filme, porém, peca ao não mostrar com detalhes os bastidores do Oasis durante a turnê, mais especificamente como o relacionamento dos irmãos foi evoluindo ao longo do tempo. Claro, a impressão é de que os Gallagher estão mais unidos do que nunca - seja pelas suas aparições públicas em partidas do Manchester City ou pelas suas próprias falas no bloco final da obra (inclusive revelando que eles enviam constantemente um ao outro vídeos no WhatsApp), porém a impressão que fica é que as coisas aconteceram de uma hora pra outra. Obviamente esse não foi o caso, mas a partir do momento em que o documentário responsável por abordar a reunião dos irmãos não mostra isso, fica difícil para o público conseguir visualizar como os momentos fora do palco foram essenciais ao longo desses meses.
De qualquer forma, o longa evidencia o futuro extremamente promissor que o Oasis voltou a ter (com uma recém-anunciada turnê mundial em 2027), abordando também a importância da cultura, do pertencimento de suas raízes e da habilidade de, mesmo após muita coisa ter acontecido, conseguir perdoar o próximo, algo que muitas vezes é difícil mas que, no fundo, serve mais para conseguirmos seguir em frente e vivermos nossas próprias vidas.
Em “Oasis - Don’t Look Back in Anger”, Liam e Noel deixam o passado para trás e abrem as portas para um futuro promissor, celebrando sua história, seus fãs e, acima de tudo, sua autenticidade — reafirmando o lugar dos Gallagher entre as figuras mais marcantes do rock moderno.


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