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30 de setembro de 2026

Helloween em São Paulo — A Batalha dos Sete Guerreiros

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


Helloween - Suhai Music Hall - São Paulo/SP - 19 de setembro de 2026 


Por: Léo Wacken 

Fotos: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


Três anos. 

Três longos anos haviam se passado desde a última aparição do Helloween em terras brasileiras, quando os alemães marcharam pelo Monsters of Rock. Mas naquela noite, em São Paulo, a história seria diferente. Não haveria festival. Não haveria campo aberto. Não haveria exércitos dividindo territórios. Haveria apenas uma fortaleza. O Suhai Music Hall. E dentro dela, mais de nove mil guerreiros vestidos de preto aguardavam a chegada de uma das maiores legiões que já empunharam as armas do heavy metal. 

Eu estava entre eles. 

Coração acelerado. 

Sangue fervendo nas veias. A sensação de que algo monumental estava prestes a acontecer. 

Ao atravessar os portões da arena, a visão parecia saída de uma antiga crônica de guerra: milhares de camisetas do Helloween, estandartes improvisados, punhos erguidos, cabelos balançando e símbolos da banda espalhados por todos os cantos. 

Não era simplesmente um público. 

Era um exército. 

E naquela noite, todos haviam vindo para lutar. Não por território. Não por ouro. Não por glória. Mas por música. 

As armas estavam desembainhadas na alma. Espadas imaginárias cortavam o ar. Machados eram erguidos a cada refrão. Lanças apontavam para o céu. Cada headbanger sabia que, quando as luzes se apagassem, não haveria mais volta. A guerra começaria. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


O EXÉRCITO DOS SETE 

Depois de anos de batalhas, mudanças, partidas e reencontros, sete guerreiros voltavam a marchar sob a mesma bandeira. Michael Kiske,  Andi Deris, Kai Hansen, Michael Weikath,  Sascha Gerstner, Markus Grosskopf, Daniel Löble. Sete homens. Sete armas. Sete histórias. Uma única bandeira. Helloween. 

Desde o retorno de Kiske e do lendário Kai Hansen, aquela formação havia transformado antigas cicatrizes em marcas de guerra. O antigo reino dividido havia encontrado uma nova forma de união. E naquela noite, não havia mais espaço para velhos conflitos. Havia apenas a batalha. E São Paulo estava pronta. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


O CAMPO DE BATALHA 

Naquela noite, o Helloween não enfrentava apenas São Paulo. Enfrentava a própria história. Era sua 14ª passagem pelo Brasil e seu 57º show em terras brasileiras. Três dias antes, os alemães haviam travado batalha em Porto Alegre. Agora era a vez da capital paulista. E os alemães sabiam que estavam diante de uma tropa que não aceitava misericórdia. 

Mais de nove mil almas. Nove mil guerreiros. Nove mil headbangers vestidos de preto, muitos deles usando orgulhosamente suas camisetas do Helloween como se fossem armaduras. Quando as luzes se apagaram, a fortaleza mergulhou na escuridão. E então veio o chamado. 

A introdução de “Let Me Entertain You”, de Robbie Williams, abriu os portões da batalha. Não era uma simples entrada. 

Era o toque dos tambores. 

E, logo depois, a primeira espada foi desembainhada. “March of Time”. Uma escolha que soou como um chamado ancestral. Uma música cultuada pelos guerreiros mais antigos da legião, raramente invocada nos campos de batalha. Mas naquela noite ela voltou. 

E veio primeiro. 

Michael Kiske tomou o campo. Sua voz parecia uma lâmina atravessando o céu. Era preciso ouvir para acreditar. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


O REI DOS MIL ANOS 

Então veio “The King for a 1000 Years”. E o campo de batalha se transformou. A música cresceu como uma marcha de milhares de soldados atravessando uma terra devastada. Andi Deris ergueu sua voz. 

Kiske respondeu. 

Duas antigas casas reais pareciam lutar lado a lado. 

Quando os vocais subiam, milhares de cabeças se moviam em uníssono. 

O chão parecia responder. 

O metal não era apenas ouvido. Era sentido.

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


FUTURE WORLD 

Então Kai Hansen avançou. “Future World”. E a fortaleza veio abaixo. Hansen assumiu parte dos vocais enquanto a multidão respondia como um exército que conhecia cada palavra daquele antigo juramento. Pouco importava que décadas tivessem passado. A memória permanecia intacta. 

Cada refrão era uma espada levantada. 

Cada punho, uma lança. 

Cada voz, um grito de guerra. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


A CHAMA DA BATALHA 

Vieram “This Is Tokyo”, “We Burn”, “Twilight of the Gods”, “Ride the Sky” e “Into the Sun”. Mas havia uma diferença naquela noite. O público não estava simplesmente assistindo. Estava participando da batalha. 

Quando Andi tomou “We Burn”, a arena parecia incendiar. Quando Kiske atacou “Twilight of the Gods”, milhares de guerreiros ergueram suas armas imaginárias. E quando Kai Hansen tomou para si “Ride the Sky”, era como se o velho comandante tivesse retornado ao campo de batalha depois de anos desaparecido. A multidão enlouqueceu. 


EU ESTOU VIVO 

Então veio um momento histórico. “I’m Alive”. Pela primeira vez naquela turnê. A espada que havia permanecido guardada finalmente foi retirada da bainha. 

E a reação foi imediata. 

A arena explodiu. 

Nove mil pessoas entregaram a própria voz à música. I'M ALIVE. Não era apenas o título de uma canção. Era o grito daqueles que estavam ali. 

Depois de décadas, mudanças, conflitos, partidas e reencontros, aquela legião continuava viva. 


O EXÉRCITO DOS DOIS REIS 

Mas havia algo ainda mais poderoso naquela batalha. Kiske e Deris. 

Dois vocalistas. 

Duas eras. 

Duas vozes. 

Duas histórias. 

Agora, lado a lado. 

Eles cantavam juntos grande parte do repertório e, em vez de parecer uma disputa pelo trono, parecia uma aliança. Deris trouxe sua força para clássicos como “Future World” e “I Want Out”. Kiske elevou “The King for a 1000 Years” a outro patamar. E quando os dois dividiam o mesmo campo, era como assistir a dois reis antigos lutando pelo mesmo reino. 

Não havia disputa. Havia irmandade. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


A ESPADA DOS TRÊS GUITARRISTAS 

Nas laterais do campo de batalha, três guerreiros empunhavam suas próprias armas. Kai Hansen, Michael Weikath, Sascha Gerstner. Cada um carregava sua própria história.

Hansen assumia os solos das canções que ajudou a criar. 

Gerstner carregava a lâmina da era posterior. 

E Weikath permanecia como uma das figuras centrais daquele reino. 

Três guitarras. 

Três espadas. 

Uma parede de metal. 

Mas então, em determinado momento, a guerra silenciaria. Porque uma das cenas mais especiais da noite estava prestes a acontecer. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


DE ELVIS A BEATLES 

Por alguns instantes, as armas repousaram. 

A fortaleza silenciou. 

Os guerreiros diminuíram seus gritos. 

E Michael Kiske tomou o violão. 

O que veio a seguir parecia uma passagem secreta aberta dentro daquela grande batalha. Antes de se preparar para a versão parcialmente acústica de “A Tale That Wasn’t Right”, ao lado de Andi Deris, Kiske começou a cantar e tocar dois trechos completamente inesperados. Primeiro, “Suspicious Minds”, de Elvis Presley. 

Depois, “Yesterday”, dos Beatles. 

Elvis, seu ídolo máximo. 

Beatles, uma das maiores referências da música mundial. 

Por alguns minutos, o guerreiro conhecido por empunhar agudos como lâminas afiadas revelou uma arma completamente diferente. Delicadeza. Profundidade. Sensibilidade. 

Aquela voz, tantas vezes reconhecida pelos agudos impressionantes, mostrou que também podia caminhar por terrenos mais suaves, sem perder sua força. Era como se o grande guerreiro tivesse baixado a espada para revelar que também conhecia a arte de tocar sem ferir. De Elvis aos Beatles. 

Do rock clássico ao universo do Helloween. 

E então, ao lado de Andi Deris, veio “A Tale That Wasn’t Right”. 

O momento ganhou ainda mais força justamente por sua simplicidade. Dois antigos reis sentados diante de milhares de guerreiros. Sem muralhas de amplificadores. 

Sem avalanche sonora. 

Apenas vozes, violão e memória. 

Quando a banda retornou, Michael Weikath retomou sua guitarra. A espada voltou às mãos do guerreiro. E a batalha prosseguiu. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


A IRA DOS DEUSES 

O setlist avançava. 

“Hey Lord!” 

“Universe (Gravity for Hearts)” 

Então, o solo de bateria de Daniel Löble. 


Os tambores da guerra ecoaram pela fortaleza. E então... “I Want Out”. Aqui já não havia mais plateia. Havia uma multidão em transe. 

A música que tantas vezes incendiou gerações agora surgia no meio da batalha. E foi uma escolha devastadora. Nove mil guerreiros cantando. 

Nove mil vozes. 

Nove mil almas. 

O refrão atravessou a arena como uma tempestade. Era impossível permanecer parado. 


A LENDA RETORNA 

Depois vieram “A Little Is a Little Too Much” e “Heavy Metal (Is the Law)”. E, em “Heavy Metal (Is the Law)”, Kai Hansen voltou a assumir os vocais, como um antigo comandante retornando ao campo para conduzir suas tropas em mais uma investida. 

Mas o verdadeiro monstro ainda estava esperando. “Halloween”. Quando os primeiros sinais da música surgiram, parecia que as portas de uma antiga fortaleza haviam sido abertas. 

Era uma criatura ancestral. 

Uma daquelas músicas que não envelhecem.

Uma daquelas canções que carregam dentro de si o espírito de uma geração inteira. O público já estava completamente entregue. Sem escudos. Sem armaduras. Sem medo. 

Apenas alma. 


O ÚLTIMO ATAQUE 

Então as luzes se apagaram. 

O exército havia vencido? Ainda não. 

O Helloween guardava suas últimas armas. 

O bis começou com “Invitation”. E então... “Eagle Fly Free”. A águia levantou voo. E nove mil guerreiros voaram junto. 

Em determinado momento, Kiske chegou a se perder após o primeiro refrão e parou de cantar. Mas aquilo pouco importava. Porque a multidão assumiu a batalha. Milhares de vozes preencheram o espaço deixado pelo comandante. 

Naquele instante, não era mais o Helloween que estava cantando. Era o exército inteiro. 

Foto: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts


POWER 

Não houve descanso. 

“Power”. 

Mais uma investida. 

Mais uma avalanche. 

Mais uma chuva de punhos erguidos. 

A fortaleza parecia incapaz de suportar mais um golpe. Mas ainda havia uma última arma. 

O golpe final. 


DR. STEIN 

“Dr. Stein”. 

A última batalha. 

O último machado. 

A última espada. 

O último grito. 

E quando os acordes finais chegaram, o Helloween deixou o campo de batalha. Mas ninguém ali saiu derrotado. Porque aquela não havia sido uma guerra para destruir. Era uma guerra para celebrar. Uma guerra travada com guitarras em vez de espadas. 

Com bateria em vez de tambores de guerra. Com microfones em vez de estandartes. 

E com milhares de almas entregues à música. 


O REINO DOS SETE 

Se havia algo a lamentar naquela noite, era o som. Em determinados pontos das pistas premium e comum, esteve embolado e estridente durante boa parte do espetáculo. E isso é uma pena. Porque a produção visual estava à altura de uma verdadeira saga. 

As artes nos telões. 

Os interlúdios narrados pelo Keeper. 

As luzes acompanhando cada mudança de clima. Tudo parecia cuidadosamente construído para transformar aquele palco em um reino fantástico. Uma espécie de Terra-Média do heavy metal. 

E no centro dela estavam os sete guerreiros. Kiske, com sua voz capaz de atravessar muralhas. 

Deris, trazendo sua força e identidade para a história do Helloween. 

Hansen, carregando consigo a nostalgia dos primeiros tempos. 

Weikath, como uma das grandes figuras que sustentaram aquele reino. 

Gerstner, mantendo viva a chama das eras posteriores. 

Grosskopf, como o veterano segurando seu baixo como uma arma de guerra. 

E Löble, comandando os tambores como se conduzisse milhares de soldados para a batalha. 

Sete homens. 

Sete armas. 

Sete histórias. 

Um único exército. 


A BATALHA TERMINOU. A LENDA NÃO

No fim das contas, o Helloween mostrou mais uma vez que aquela formação deixou de ser simplesmente uma banda reunida para uma turnê. Existe algo diferente nessa união. Existe a sensação de que aqueles homens encontraram uma nova paz depois de décadas de batalhas.

Kiske e Deris cantando juntos. 

Hansen novamente ao lado de Weikath.

Gerstner assumindo sua posição. 

Grosskopf segurando o baixo como um guerreiro veterano. 

Löble comandando os tambores. 

E São Paulo diante deles. Mais de nove mil pessoas entraram naquela fortaleza. E entregaram tudo. 

A voz. 

O corpo. 

A alma. 

O sangue. 

Quando “Dr. Stein” terminou, as armas foram finalmente baixadas. Mas ninguém saiu realmente da guerra. Porque certas batalhas não terminam quando as luzes se apagam. Elas continuam vivendo dentro daqueles que tiveram coragem de lutar. 

E naquela noite, no Suhai Music Hall, nós lutamos. 

Nós gritamos. 

Nós cantamos. 

Nós sangramos. 

Nós entregamos nossas almas. 

E, por algumas horas, deixamos de ser apenas fãs. Fomos guerreiros do Helloween. A fortaleza pode ter silenciado. As luzes podem ter se apagado. Os amplificadores podem ter sido desligados. Mas a lenda continua marchando. Porque depois de quatro décadas, o Helloween ainda sabe transformar um palco em campo de batalha. 

E naquela noite, em São Paulo, nove mil guerreiros vestidos de preto testemunharam mais um capítulo dessa história. A batalha terminou. A lenda não. 


SETLIST — AS ARMAS DA BATALHA 

1. March of Time 

2. The King for a 1000 Years 

3. Future World 

4. This Is Tokyo 

5. We Burn 

6. Twilight of the Gods 

7. Ride the Sky 

8. Into the Sun 

9. I'm Alive (primeira vez nesta turnê) 

10. Hey Lord! 

11. Universe (Gravity for Hearts) 

12. Solo de bateria 

13. I Want Out 

14. A Tale That Wasn't Right (com trechos de “Suspicious Minds”, de Elvis Presley, e “Yesterday”, dos Beatles; início acústico com Michael Kiske e Andi Deris; banda entra depois) 

15. A Little Is a Little Too Much 

16. Heavy Metal (Is the Law) 

17. Halloween BIS 

18. Invitation + Eagle Fly Free 

19. Power 

20. Dr. Stein (com “outro” de “Keeper of the Seven Keys”) 


Agradecimento à Catto Comunicação e Mercury Concerts pelo credenciamento e atenção. 

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