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8 de outubro de 2026

Bülent Ceylan em Essen: quando o comediante sobe ao palco e entrega um verdadeiro show de Metal

Foto: Nayara Sabino 


Bülent Ceylan - Weststadthalle - Essen/Alemanha - 24 de setembro de 2026



Por: Cintia Seide

Fotos: Nayara Sabino 


Existe uma pergunta que provavelmente acompanha Bülent Ceylan desde que ele decidiu levar sua paixão pelo Metal para muito além das camisetas de banda, das longas madeixas e das referências que sempre fizeram parte de sua carreira como comediante: afinal, o que acontece quando um dos comediantes mais conhecidos da Alemanha decide assumir também o posto de frontman de uma banda de Metal?

Na noite de 24 de setembro, na Weststadthalle, em Essen, a resposta ficou bastante clara: acontece um show de verdade. E um excelente show.

Bülent Ceylan & Band chegaram a Essen com a Clubtour 2026, pouco depois do lançamento de B.L.N.T., segundo álbum de estúdio do artista, lançado pela Napalm Records. O que poderia facilmente cair na categoria de “comédia com uma banda de apoio” está, na realidade, muito distante disso.

Desde os primeiros acordes de “Diktatürk”, passando por “Stumpf ist Trumpf”, “Leck mich Tag” e “Schmutzige Liebe”, uma coisa ficou evidente: Bülent não estava ali para brincar de músico.

Ele estava ali para cantar.

E canta.

Muito mais do que alguém que conheça seu trabalho exclusivamente pela comédia poderia imaginar.

Foto: Nayara Sabino


Uma banda que funciona


Um dos grandes méritos da noite está justamente na banda.

Julia Lange, Tobi Stulz, Hannes Merten e Marcel Vojvodic formam uma unidade extremamente competente, e a sintonia entre os músicos e Bülent é evidente. A banda não funciona como mero suporte para o protagonista. Ela tem presença própria e sustenta o show com muita segurança.

Guitarras pesadas, linhas de baixo muito presentes, bateria precisa e arranjos que ganham força no palco fazem com que várias das músicas soem ainda mais interessantes ao vivo do que nas gravações de estúdio.

E existe ainda um elemento que merece destaque especial: a iluminação.

O desenho de luz acompanhava as músicas com uma precisão impressionante, criando mudanças de atmosfera perfeitamente sincronizadas com os momentos mais pesados, melódicos ou emocionais do repertório. Não era apenas iluminação de palco. Era parte da narrativa do show.

A combinação entre músicos extremamente preparados, produção visual e a energia do protagonista faz a apresentação funcionar muito bem.


Bülent, o frontman

É claro que o humor está presente.

Seria impossível imaginar um show de Bülent Ceylan sem isso.

Entre uma música e outra, ele conversa com o público, brinca, conta histórias e aproveita seu enorme carisma para estabelecer uma relação extremamente próxima com a plateia. Sua experiência como comediante claramente ajuda nesse aspecto.

Mas existe uma diferença importante.

Em nenhum momento Bülent pareceu um comediante tentando convencer o público de que sabe fazer música.

Pelo contrário.

Ele se comportou como um músico que sabe exatamente o que está fazendo e que, por acaso, também é um excelente comediante.

Sua postura no palco, a maneira como conduz as músicas, a segurança vocal e a interação com a banda deixam claro que o Metal não é apenas um personagem criado para complementar sua carreira. É uma paixão que ganhou um espaço próprio.

E o fato de cantar em alemão torna tudo ainda mais interessante.

As letras ganham uma sonoridade muito particular dentro dos arranjos pesados, e Bülent consegue transitar entre humor, crítica social, melodias mais acessíveis e momentos genuinamente emocionais sem perder sua identidade.

Foto: Nayara Sabino

Foto: Nayara Sabino


Música com mensagem

A apresentação também não se limitou à música.

Em diferentes momentos, Bülent aproveitou a proximidade com o público para falar sobre tolerância, igualdade, respeito e convivência. Mensagens que fazem parte da identidade artística que ele vem construindo através de sua música.

Canções como “Habt euch endlich alle lieb”, “Anders gleich” e “Ich liebe Menschen” deixam isso especialmente evidente.

E a resposta da plateia foi imediata.

A Weststadthalle estava cheia e, durante boa parte da noite, era possível ouvir o público cantando junto com Bülent. Não havia aquela sensação de uma plateia simplesmente assistindo a um artista conhecido. Havia participação, identificação e muita diversão.


O momento de Julia Lange

Em determinado momento, Julia Lange assumiu o centro do palco e, munida apenas de seu violão, apresentou uma interpretação de “Yesterday”, dos Beatles.

A casa ficou em silêncio para ouvi-la.

A jovem guitarrista, que transita com naturalidade entre o violão clássico, a guitarra elétrica e diferentes linguagens musicais, mostrou ali uma faceta completamente diferente de seu talento. A interpretação foi delicada, precisa e hipnotizante.

Por alguns minutos, o Metal deu lugar à música em sua forma mais essencial.

E foi mágico.

Um repertório que atravessa estilos

A setlist percorreu praticamente todas as facetas de B.L.N.T., incluindo “Fünf vor Zwölf”, “Keiner kommt hier lebend raus”, “Am Ende gut”, “Rüstung aus Hass”, “Wir haben gelebt”, “Booom”, “Lange Haare” e “Randale und Radau”, além de músicas do primeiro álbum e momentos mais descontraídos.

E então chegou “Wolfsherz”.

Gravada originalmente por Bülent em parceria com Doro Pesch, a canção ganhou uma interpretação solo naquela noite. E, sinceramente, funcionou.

Sem a presença da Metal Queen para dividir os vocais, Bülent sustentou a música sozinho e conseguiu preservar sua força emocional. O resultado foi um dos momentos mais marcantes do bis.

Depois vieram “Brüder” e, finalmente, “Ein Hoch auf die beschissenen Zeiten”.

Antes de começar a última música, Bülent contou que ela está entre suas favoritas de B.L.N.T.. Não é difícil entender o motivo. A música fala sobre atravessar tempos difíceis e sobre como são justamente esses períodos que revelam quem realmente está ao nosso lado. Em entrevistas recentes, ele explicou que a ideia é olhar para esses momentos sem perder a esperança: depois da chuva e da tempestade, o sol ganha outro significado.

Em Essen, ele ainda acrescentou que a música representa muito do momento que estamos vivendo.

Quando a última música terminou, o público queria mais.

O pedido de bis não parecia apenas uma formalidade. Era a reação espontânea de uma plateia que havia acabado de receber muito mais do que esperava.

Foto: Nayara Sabino 

Foto: Nayara Sabino 

Foto: Nayara Sabino 

Foto: Nayara Sabino 


Uma visita especial no backstage

Depois do show, Bülent nos recebeu gentilmente no backstage, onde tivemos a oportunidade de conversar com ele, conhecer os músicos e registrar alguns momentos daquela noite.

Entre os convidados estava ninguém menos que Wolfgang Dziony, baterista fundador dos Scorpions, que havia viajado com sua esposa e seu filho especialmente para assistir ao show.

Segundo nos contaram, foram cerca de 400 quilômetros de viagem para estar ali.

Bülent ficou claramente emocionado ao receber os elogios de alguém com uma história tão importante dentro do Rock alemão. Por alguns instantes, o artista acostumado a estar diante de milhares de pessoas estava ali simplesmente como um músico recebendo o reconhecimento de outro músico que admira.

Foi uma validação simbólica perfeita para aquela noite.


Muito além da comédia

Bülent Ceylan não precisa escolher entre ser comediante ou músico.

Pode ser os dois.

Seu humor dá leveza ao espetáculo, seu carisma aproxima o público e sua experiência de palco faz com que a interação seja natural. Mas, quando as luzes diminuem e a banda começa a tocar, existe um artista que leva a música muito a sério.

E isso ficou evidente em Essen.

Foto: Nayara Sabino 

Foto: Nayara Sabino 


Bülent Ceylan & Band entregaram uma apresentação tecnicamente sólida, visualmente impecável, divertida, emocionante e, acima de tudo, extremamente musical. Em alguns momentos, ouso dizer que a banda conseguiu entregar as músicas ainda melhor ao vivo do que nas gravações de estúdio.

Ao final, fica a sensação de ter testemunhado algo maior do que simplesmente um show de um comediante que gosta de Metal.

Bülent Ceylan mostrou que seu talento não termina quando acaba a piada.

Ele encontrou no Metal outra forma de contar suas histórias, defender aquilo em que acredita e mostrar uma faceta de si mesmo que merece ser levada tão a sério quanto sua carreira na comédia.

E se depender do que vimos em Essen, está mais do que na hora de o mundo conhecer Bülent Ceylan não apenas como um grande comediante alemão, mas também como o frontman de Metal que ele provou ser.


Agradecimento à Napalm Records pelo credenciamento e atenção.

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