Páginas

▼

10 de outubro de 2026

Left to Die, Flageladör e Cemitério unem forças para promover o doce e mortal som que ecoa do além-túmulo na Burning House

Foto: Rafael Procópio 


Por: Alexandre Veronesi e Rafael Cunha Procópio

Fotos do Cemitério por Alexandre Veronesi

Fotos do Flageladör e do Left to Die por Rafael Cunha Procópio


Este tem se mostrado um ano extraordinário para fã brasileiro de Death nenhum colocar defeito. O calendário de shows de 2026 no Brasil trouxe – ou ainda trará – concertos que possuem íntima relação com todas as fases musicais desse pilar fundamental do metal da morte estadunidense. Sem sombra de dúvida, ao menos um (senão todos) desses atos agradaram a vasta e variada legião de fãs do legado musical de Chuck Schuldiner. Iniciando o ano com a vinda da veia mais progressiva e reflexiva do Death, em janeiro, com o Cynic, do ex-membro Paul Masvidal (Human), e da fase mais técnica, bem representada no retorno da banda legado/tributo Death to All, composta por uma variedade de ex-membros – Steve DiGiorgio (Human e Individual Thought Patterns), Gene Hoglan (Individual Thought Patterns e Symbolic) e Bobby Koelble (Symbolic) –, a reta final de 2026 retrocedeu ainda mais no tempo e prestigia a fase inicial deliciosamente grotesca e podre do Mantas/Death. Em menos de dois meses, o público brasileiro terá a oportunidade de prestigiar ao vivo os outros dois membros fundadores do Mantas: Kam Lee virá como vocalista convidado do Benediction em outubro/novembro e, agora sim o motivo deste texto, Rick Rozz (Leprosy), que empunha o legado do Death no Left to Die ao lado do também ex-Death Terry Butler (Leprosy e Spiritual Healing).

Retornando à América do Sul cerca de um ano e meio após sua bem sucedida estreia em nosso continente (que ocorreu ainda no início de 2025), o Left to Die, tributo ao lendário Death formado pelos seus ex-integrantes Rick Rozz e Terry Butler, ao lado do vocalista / guitarrista Matt Harvey (Exhumed e Gruesome) e do baterista Gus Ríos (Gruesome) - que precisou se ausentar na ocasião por razões de saúde, sendo substituído por Vinicius Talamonte - está atualmente divulgando o recém-lançado álbum "Initium Mortis", que trata-se de uma compilação de regravações da fase embrionária do Death, quando o grupo ainda atendia pela alcunha de Mantas. Após um intenso giro pelo nordeste brasileiro, o quarteto finalmente desembarcou em São Paulo no último dia 09 de Setembro, a fim de encerrar em grande estilo a sua turnê na cidade de São Paulo, mais especificamente na já tradicional Burning House, casa de shows localizada na Zona Oeste da capital paulista.


Por volta das 19h10, subiu ao palco a primeira atração da noite, CEMITÉRIO. O 'power trio' Hugo Golon (voz e baixo), Douglas Gatuso (guitarra) e Guilherme Fructuoso (bateria) foi fundado por seu frontman em 2014, e pratica um Death Metal nos moldes da velha escola, com letras em português e temática totalmente voltada à filmes de horror cult, principalmente das décadas de 70 e 80. Iniciando a apresentação com o mais recente single lançado, "Massacre no Texas", a banda executou de forma crua e precisa, ao decorrer de aproximadamente 30 minutos, diversas canções do 'debut' autointitulado de 2014, mais alguns exemplares extraídos do EP "Oãxiac Odèz" (2016), tais quais "Tara Diabólica", "Sexta-Feira 13", "Holocausto Canibal", "A Volta dos Mortos Vivos", "Quadrilha de Sádicos" e "Pague para Entrar, Reze para Sair", que foi a responsável pelo encerramento. Um show brutal, afiado e altamente coeso, agradando em cheio ao público que ainda chegava aos poucos no local.

Foto: Alexandre Veronesi 


Na sequência, às 20h em ponto, entrou em cena o FLAGELADÖR. A banda liderada pelo incansável Armando "Exekutor" Macedo (voz e guitarra) celebra agora em 2026 os 20 anos completos de seu disco de estreia, "A Noite do Ceifador", apresentando o material em questão na sua totalidade nos shows deste ano - e na ordem original do registro, vale mencionar. Dito isso, a dobradinha "Ultimatum" e "Flageladör" abriu alas, prontamente emendada com "Perseguir e Exterminar" e "Cruzada ao Lado de Satã" - talvez o som mais aclamado dos caras. Foi um verdadeiro deleite para os fãs (este que vos fala incluso) ter a oportunidade de conferir ao vivo músicas como "Expresso para o Inferno", "A Noite do Ceifador" e "Carnificina", que rareiam nos setlists da atualidade e do passado recente. Uma curiosidade é que, nos dias de hoje, Armando e sua trupe tocam boa parte do material antigo em velocidade consideravelmente acelerada, e o supracitado álbum aniversariante, que detém pouco mais de 36 minutos, foi 'resolvido' no palco em meia-hora, dando assim espaço à outros temas indispensáveis da história da banda, como "Assalto da Motosserra", "Obcecado por Sangue", "Queimando nas Chamas do Heavy Metal", "Nas Minhas Veias Corre Fogo", e a derradeira "Ao Vivo no Inferno". Completam o line-up do FLAGELADÖR: Junior Bezerra (guitarra), Alan Magno (baixo) e Vinicius Talamonte (bateria).

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 


Após as duas aulas de metal veloz e sanguinolento, o Left to Die subiu ao palco pontualmente às 21h30 para apresentar um setlist conciso e direto. Mesmo com as interações de Matt Harvey com o público, introduzindo as faixas que seriam tocadas, o show quase não atingiu a marca dos 60 minutos. Com os holofotes voltados às músicas que fizeram parte da primeira gestação sonora do Mantas/Death e limitando-se temporalmente até o material lançado no Leprosy, é digno de nota apontar que a banda não se apega exclusivamente ao aspecto emocional muito vinculado à persona de Chuck para fazer o show funcionar ao vivo. Claro que o mentor do Death foi lembrado em diversas passagens do show, com Matt puxando coros clamando por sua memória entre algumas faixas. No entanto, é perceptível que a intenção primeira da banda é reviver os primórdios mais crus do death metal da Flórida, com um setlist recheado de sons compostos no auge do tape trading por aqueles três adolescentes fãs de filmes de terror e amantes de som pesado.

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 


A dobradinha de Infernal Death e Mutilation, do álbum de estreia Scream Bloody Gore, abriu os caminhos para mostrar ao público que a tampa da cripta tinha sido aberta em um estouro e que já não haveria mais caminho de volta na trilha da morte. A similaridade da voz de Matt à de Chuck é assustadora e a sua energia no palco quase nos faz perder da mente que o foco do show deveria ser, na realidade, o exímio trabalho de guitarra de um dos fundadores de toda a cena Rick Rozz. Ali, meio acuado e com a touca enfiada na cabeça, no canto esquerdo do palco, Rick desfilou os seus riffs com precisão e sem grandes movimentos espalhafatosos. Parece ser essa a toada da dupla de “ex-Deaths”, já que Terry Butler também fincou as suas sólidas bases no lado direito do palco e apresentou as linhas de baixo com precisão cirúrgica entremeadas com batidas de cabeça um tanto contidas.

Isso não quer dizer que a movimentação mais reduzida no palco tenha diminuído o impacto sonoro das músicas. O seu peso foi sentido especialmente nas faixas do Leprosy, em que, inclusive, notei uma proeminência maior do baixo de Terry, para além de Rick ter parecido ainda mais à vontade ao tocá-las. A dobradinha inicial de Leprosy e Primitive Ways mostrou que a banda está afiada e que o reforço de última hora do tesouro nacional Vinícius Talamonte não deveu em nada em nível de entrega das marretadas na bateria – ainda mais considerando o trabalho dobrado logo após ter tocado com o Flageladör. Enquanto Leprosy foi um destaque pessoal meu para o trabalho de Rick nos riffs, que parecia tocar do fundo do coração, Primitive Ways mostrou que Vinícius está em dia tanto com a discografia do Death quanto com o cronograma de preparo físico, executando com maestria as linhas originais de Bill Andrews.

Voltando um pouco mais no passado, o Left to Die emendou uma sequência de sons originais das demos de garagem do Mantas, além da faixa-título do primeiro álbum completo Scream Bloody Gore do Death. A apresentação das primitivas Legion of Doom e Death by Metal foi especialmente marcante exatamente por fugir das faixas óbvias que se espera ver e ouvir em qualquer show que pretenda retomar o legado do Death. As duas foram recentemente regravadas pela banda e lançadas com produção de estúdio no álbum de estreia Initium Mortis e funcionaram muito bem ao vivo. Ainda que não se trate de material original dessa formação, diria que, na execução dessas faixas, pude notar uma sinergia mais pura e orgânica entre os membros. Tomara que essa seja a faísca inicial para atiçar a banda a produzir músicas novas, pois adoraria ouvir material inédito de Rick Rozz e companhia com essa sonoridade inicial do death metal.

A surpresa maior da noite, no entanto, certamente foi a execução de Corpse Grinder, originalmente composta sob o teto do Death, a música veria a luz do dia de forma profissional mesmo sob a alcunha do Massacre com Kam Lee nos vocais, Rick Rozz nas guitarras e Terry Butler no baixo. A fúria da música ao vivo foi impressionante e certamente um ponto fora da curva em nível de sonoridade, ainda que o vocal de Matt a tenha aproximado bastante da versão original das demo tapes oitentistas do Death. Pena mesmo foi o fato de o PA de Rick começar a falhar logo nessa faixa.

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 


O set regular foi encerrado com Left to Die, que muito bem nomeia a banda, por encapsular de forma precisa todo o peso primitivo do metal da morte que marca a primeira encarnação e fase do Death, e a indispensável Zombie Ritual – que também tem as suas raízes nas primeiras demos da banda e marca o peso de maneira ainda mais premente por conta do seu início mais compassado e guitarras com sonoridade mais cavernosa. Com o público querendo mais metal pútrido, a banda retornou ao palco após uma breve pausa para apresentar uma dobradinha de peso clássica: Pull the Plug e Evil Dead. Os dois sons foram os campeões no quesito público gritando os refrões a plenos pulmões – ainda que não tenha deixado a desejar no restante do show – e as dive bombs de Rick foram um espetáculo a parte. Viva o mais pútrido metal lamacento e mortal!

Tendo recebido tantos ex-membros do Death – basicamente todos que ainda estão ativos na cena –, certamente é hora de o público brasileiro começar a clamar com mais fervor pela vinda de Chris Reifert e seus asseclas do Autopsy. Afinal, já passou da hora de os fãs daqui pararem de se limitar a frequentar os shows das mesmas cinco bandas de death metal estadunidense e começarem a escavar as criptas em busca dos restos mortais do gênero pelo mundo. E, falando nisso, outubro já começará essa empreitada com o pé na porta com a vinda dos suecos do Grave, os estadunidenses do Gruesome e do Malevolent Creation e dos ingleses do Benediction. Mas esse é um tema para outro texto...


Agradecimentos especiais, mais uma vez, à Caveira Velha Produções e ao Alan Magno pelo credenciamento e parceria e à Burning House pelo acolhimento e ótima estrutura de show.

Nenhum comentário:

Postar um comentário