Páginas

▼

4 de novembro de 2026

Iron Maiden celebra 50 anos em noite histórica no Nubank Parque

 

Foto: Stephan Solon

Iron Maiden - Nubank Parque - São Paulo/SP - 27 de outubro de 2026

 

Por Marcelo Gomes

Fotos: gentilmente cedidas por Stephan Solon (@stephansolon) / Move Concerts 



São Paulo viveu mais um capítulo especial de sua longa história com o Iron Maiden na terça-feira, 27 de outubro. Depois de uma apresentação com ingressos esgotados no dia 25, a banda retornou ao Nubank Parque para a segunda data na capital paulista da turnê Run For Your Lives, celebrando os 50 anos de uma das instituições mais importantes da história do heavy metal. Com o Alter Bridge responsável pela abertura, a noite foi dedicada à trajetória de uma banda que atravessou cinco décadas sem perder sua identidade, sua força e a capacidade de reunir diferentes gerações de fãs em torno de sua música.

Responsável por abrir a noite, o Alter Bridge teve a difícil missão de preparar o terreno para uma das maiores instituições do heavy metal. Formado por Myles Kennedy (vocais e guitarra), Mark Tremonti (guitarra e vocais), Brian Marshall (baixo) e Scott Phillips (bateria), o quarteto norte-americano entregou uma apresentação consistente, demonstrando competência técnica e bom entrosamento. A abertura com “Silent Divide” foi seguida por “Addicted to Pain”, “Cry of Achilles” e “Fortress”, evidenciando a força de seu repertório e a combinação de peso e melodia que caracteriza a banda. Entretanto, apesar da boa execução e de momentos de destaque, o grupo não conseguiu provocar uma empolgação mais intensa no estádio, algo compreensível diante da expectativa que envolvia a atração principal.

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon


Na sequência, “Ghost of Days Gone By”, “Metalingus” e “Blackbird”, esta última precedida por uma breve referência a “Blackbird”, dos Beatles, mantiveram o nível da apresentação, com destaque para a interpretação de Myles Kennedy e o trabalho de guitarra de Tremonti. “Rise Today” encerrou o set, deixando uma impressão positiva sobre o desempenho do quarteto. Longe de qualquer rejeição por parte do público, o Alter Bridge fez sua parte com profissionalismo e qualidade, embora a difícil tarefa de abrir para o Iron Maiden, em uma noite tão especial, tenha limitado o impacto de sua apresentação.


Alter Bridge setlist:

1) Silent Divide

2) Addicted to Pain

3) Cry of Achilles

4) Fortress

5) Ghost of Days Gone By

6) Metalingus

7) Blackbird 

8) Rise Today

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon


Assim que os primeiros acordes de “Doctor, Doctor”, clássico do UFO tradicionalmente utilizado pelo Iron Maiden antes da apresentação, começaram a ecoar pelo estádio, uma histeria tomou conta do público. Era o sinal de que a viagem pelo universo da Donzela de Ferro estava prestes a começar. A introdução “The Ides of March” preparou o terreno para uma abertura avassaladora com três petardos do álbum Killers (1981): “Murders in the Rue Morgue”, “Wrathchild” e a faixa-título. A escolha foi certeira para estabelecer o espírito comemorativo da turnê, resgatando composições da fase de Paul Di'Anno, ex-vocalista da banda, e mostrando que o setlist tem sua força independentemente do vocalista.

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon


Acompanhado por Steve Harris (baixo), Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Simon Dawson (bateria), o vocalista Bruce Dickinson demonstrou estar em excelente forma desde os primeiros minutos. Durante o solo de “Murders in the Rue Morgue”, o vocalista correu de uma extremidade à outra do palco, exibindo a energia e a presença cênica que se tornaram marcas registradas de suas apresentações. Ao longo da noite, entretanto, ficou perceptível que a banda adotou andamentos mais cadenciados em relação às versões originais, algo que chamou a atenção especialmente nas primeiras músicas. A decisão não diminuiu o brilho das canções, mas trouxe uma dinâmica diferente para clássicos que acompanham o público há décadas.

Em “Killers”, o espetáculo ganhou um elemento teatral com a entrada de Eddie, o lendário mascote do Iron Maiden, empunhando uma machadinha e protagonizando uma cena que remetia ao universo sombrio da música. Afinal, no Maiden, o palco nunca é apenas um espaço para a execução das canções: ele funciona como uma extensão das histórias contadas pelas letras. A cada faixa, imagens projetadas e cenários visuais ajudavam a transportar o público para diferentes épocas, personagens e atmosferas da discografia. Esse cuidado transformou a apresentação em uma experiência audiovisual na qual música, narrativa e espetáculo se complementavam.

Foto: Stephan Solon 


Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon


Antes de “Phantom of the Opera”, Dickinson cumprimentou o público com um entusiasmado “Oi, São Paulo! Olá, Brasil!”, lembrando que aquela era a segunda noite esgotada e prometendo uma apresentação longa, como merecia a celebração dos 50 anos. A composição, uma das demonstrações mais emblemáticas da complexidade musical dos primeiros anos da banda, ofereceu espaço para mudanças de andamento, passagens instrumentais e a interação característica entre os músicos. Em determinado momento, Bruce se empolgou, pulou e incentivou a plateia a bater palmas, mas acabou retornando um pouco atrasado para retomar os vocais. Foi um pequeno detalhe diante da dimensão do espetáculo, que logo seguiu com “The Number of the Beast”, um dos hinos definitivos do heavy metal.

Um dos momentos mais especiais da noite veio com “Infinite Dreams”, composição de Seventh Son of a Seventh Son (1988) que ganhou um significado particular para os fãs brasileiros. Antes de executá-la, Bruce comentou que muitos dos presentes talvez nunca tivessem ouvido a banda tocar aquela música ao vivo e falou sobre a importância de sonhar. “Todos deveriam ter sonhos. Espero que o sonho de vocês seja infinito”, declarou o vocalista. O estádio respondeu com uma recepção calorosa, celebrando a oportunidade de ouvir uma faixa tão aguardada e que só em 2026 proporcionou essa experiência ao público brasileiro. Mais do que uma raridade no repertório, foi um daqueles instantes em que a relação entre banda e fãs se tornou especialmente evidente.

Foto: Stephan Solon

Foto: Stephan Solon


Sem dar tempo para que a emoção diminuísse, o Iron Maiden emendou “Powerslave” e “2 Minutes to Midnight”, duas peças fundamentais de Powerslave (1984). Na primeira, Dickinson surgiu com uma máscara, incorporando a atmosfera egípcia e ritualística que acompanha a composição. Na segunda, trouxe o lado mais visceral e metálico da banda. A ausência de longas introduções entre as faixas favoreceu a continuidade do espetáculo, mantendo a plateia envolvida em uma sequência que alternava momentos de impacto imediato com passagens mais elaboradas.

A apresentação ganhou contornos épicos com “Rime of the Ancient Mariner”, inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge. Antes da execução, Dickinson brincou com uma história sobre sua garrafa de cachaça: segundo ele, havia virado notícia que alguém teria substituído a bebida por água e sido demitido. O vocalista contou que decidiu dar outra chance ao novo assistente, apenas para descobrir que a água continuava na garrafa, o que teria resultado em outra demissão. Em seguida, fez uma referência à mensagem da canção, lembrando que devemos respeitar tudo o que Deus criou, antes de conduzir o público por uma das viagens musicais mais grandiosas do repertório. Vestindo um sobretudo rasgado e ocupando a parte mais alta do palco, Bruce reforçou o caráter dramático da composição, enquanto a banda construía suas longas passagens instrumentais.

“Run to the Hills” devolveu o estádio à celebração do heavy metal. Com Dickinson conduzindo os fãs nos vocais, a música transformou o Nubank Parque em um imenso coro, seguido por mais uma grande ovação aos músicos. Na sequência, “Seventh Son of a Seventh Son” reafirmou a versatilidade do Iron Maiden, combinando atmosfera, complexidade instrumental e a grandiosidade progressiva que caracteriza um dos álbuns mais celebrados de sua discografia. Depois do refrão, Bruce sustentou uma nota por um período impressionante, próximo de 30 segundos, arrancando aplausos imediatos do público e demonstrando um fôlego impressionante.

Se ainda havia dúvidas sobre a capacidade de transformar o estádio em uma comemoração ao legado, “The Trooper” tratou de eliminá-las. A faixa começou a levantar o público imediatamente, e a aparição de Dickinson com a bandeira do Brasil, somada à presença de Eddie, novamente no palco, agora caracterizado como um soldado, provocou uma grande explosão de entusiasmo. O vocalista incorporou mais uma vez o personagem militar associado à música, enquanto guitarras e baixo sustentavam um dos momentos mais reconhecíveis da identidade visual e sonora da banda. Em seguida, “Hallowed Be Thy Name” conduziu o espetáculo de volta à dramaticidade, com Bruce cantando os versos dentro de uma cela e construindo a narrativa que faz da composição um dos maiores clássicos dos ingleses, antes de “Iron Maiden” encerrar o set principal e preparar o caminho para o bis.

Foto: Stephan Solon 

Foto: Stephan Solon 

Foto: Stephan Solon 


A volta ao palco aconteceu ao som de “Aces High”, acompanhada por um mar de celulares iluminando o estádio. Com um capacete de aviador, Dickinson reforçou a ambientação da música e, ao final, dedicou a execução aos homens e às mulheres que lutaram contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. A apresentação manteve o caráter histórico da turnê ao associar a força musical do Maiden a uma narrativa marcada por referências históricas e imagens cuidadosamente escolhidas. Logo depois, “Fear of the Dark” criou outra cena memorável: Bruce surgiu com sobretudo, cartola e uma lamparina, enquanto milhares de vozes acompanharam a canção desde as primeiras notas. Poucas bandas conseguem transformar uma música de seu repertório em um ritual dessa dimensão, e o Iron Maiden demonstrou mais uma vez porque ocupa uma posição tão importante no heavy metal.

O encerramento com “Wasted Years” foi a conclusão perfeita para uma noite dedicada à memória, à emoção e à longevidade. O público cantou em uníssono, transformando o Nubank Parque em um gigantesco karaokê. Antes de se despedir, Dickinson agradeceu: “São Paulo, vocês foram demais!”, desejou a todos uma boa volta para casa, uma boa semana, um bom ano e uma boa vida, afirmando que o público merecia tudo isso e prometendo um reencontro. Era o ponto final de uma apresentação que celebrou cinco décadas de história com maestria: o repertório, a encenação, a interação e a personalidade de cada integrante mostraram a força de uma obra que continua atravessando gerações. 


Setlist Iron Maiden:

01) Murders in the Rue Morgue

02) Wrathchild

03) Killers

04) Phantom of the Opera

05) The Number of the Beast

06) Infinite Dreams

07) Powerslave

08) 2 Minutes to Midnight

09) Rime of the Ancient Mariner

10) Run to the Hills

11) Seventh Son of a Seventh Son

12) The Trooper

13) Hallowed Be Thy Name

14) Iron Maiden

15) Aces High

16) Fear of the Dark

17) Wasted Years


Agradecimento à Midiorama e Move Concerts pelo credenciamento e atenção. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário