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13 de novembro de 2019

King Crimson - Espaço das Américas – São Paulo (SP) - 04/10/2019

Foto: Produção King Crimson

Lembro com certa clareza o dia em que recebi uma fita cassete muito mal gravada de um disco, que tempos depois, se tornaria alvo de verdadeira adoração por parte desse que vos escreve. Falo do álbum “In The Court Of The Crimson King” (1969) -  do combo inglês King Crimson, capitaneado pelo ‘difícil’, mas indiscutivelmente genial Robert Fripp - o álbum é referência para ‘dez em cada dez’ apreciadores de boa música. Com o passar do tempo, fui destrinchando os demais álbuns que ia “descobrindo”, mas mesmo assim, sempre enxerguei a banda como algo praticamente inacessível – tinha um desejo absurdo de vê-los ao vivo, mas era algo que jamais imaginava acontecer. Está certo que Fripp já esteve no Brasil em uma aparição um tanto surpreende com o G3 (que na ocasião contava com Joe Satriani e Steve Vai), mas o King Crimson “em carne e osso”-  era apenas um sonho muito distante. 
O coração começou a bater mais forte quando foi divulgado o anúncio de que a banda faria parte do cast do RIR. A partir daí, já sabia que seria questão de tempo anunciarem uma data em São Paulo -  e que previsivelmente foi confirmada tempos depois tendo como local - o suntuoso Espaço das Américas. O local  caiu como uma luva para a proposta da banda. Aliás, quem acompanha os passos de Fripp e Cia,  sabe que o King Crimson vem se apresentado com três bateristas em um formato que deixou os seguidores mais assíduos  ainda mais entusiasmados. 

E eis que chega o grande dia; - uma sexta-feira como muitas outras, onde o  espaço de eventos localizado na região da Barra Funda, seria palco de um momento marcante para os que compraram ingresso e contaram os dias para testemunhar, uma das mais belas manifestações artísticas que se tem notícia. Com o início agendado para as 21:30h, o espaço destinado ao público já estava praticamente todo ocupado horas antes do show começar . Uma curiosidade que vale registrar, é o fato que a banda proibiu a utilização de celulares durante o espetáculo (já adianto que a determinação foi rigorosamente aplicada). Essa foi mais uma do gênio Robert Fripp, que fez com que sua audiência absorvesse somente a música – Aliás, como deveria ser em qualquer espetáculo que se preze. 

Com um formato inusitado tendo à frente do palco três baterias, os músicos se posicionaram junto a seus instrumentos para dar vazão a música criada pelo King Crimson. A primeira delas foi “Drumsons” e deram sequência com “Larks’ Tong In Aspic – Part One”, com um detalhe importante e que devemos registrar – onde o ‘maestro soberano’ Tom Jobim foi reverenciado com a inclusão de “Garota de Ipanema” durante a execução de “Larks...” Os cinquenta anos de carreira do combo inglês deram um panorama preciso do que seria essa “Celebration Tour”. Nesse caso, os clássicos vieram de forma natural. 
O legado de Greg Lake e John Wetton - músicos que participaram da fase mais brilhante da banda, foi muito bem representado por Michael “Jakko” Jakszyk em clássicos como 
“Epitaph” e “Starless” – músicas que respectivamente garantiram aquele ‘nó’ na garganta. As músicas da fase mais experimental e não menos importante também fizeram parte do set para o deleite dos entusiastas dessa fase. “Neurótica” do álbum “Beat”(1982), “Indiscipline” do disco “Discipline”(1981) ambos que contam com participação dos músicos Adrian Belew e Tony Levin na formação -, personagens importantíssimos nessa fase da banda. Inclusive, Tony Levin integra a atual formação do grupo e estava no palco com sua classe habitual. 

Foto: Produção King Crimson

Para minha surpresa e alegria, o magistral “Lizzard”, álbum lançado em 1970 e único  a contar com uma formação que tinha Gordon Haskell no baixo e vocais e Andy McCulloch na bateria - “Cirkus” foi o um dos momentos mais brilhantes da noite (e quais momentos não foram?!). “Island” música do álbum de mesmo nome - e que não foi bem recebido na época de seu lançamento - mas que inevitavelmente também se tornou clássico, e tem seu espaço garantido na discografia do King Crimson. 

Diante de tantas divagações, fica complicado separar a realidade do que paralelamente se passava em minha cabeça. Talvez porque jamais presenciei algo tão primoroso em minha insignificante existência. Vale registrar que a apresentação foi dividida em “dois atos” -  com um intervalo de vinte minutos. 

Na ocasião meu lugar foi coincidentemente marcado ao lado do polêmico crítico musical Regis Tadeu, que ao final de “21st Century Schizoid Man”, comentou que seu cérebro estava literalmente derretido. Acredito que não foi só ele que teve essa sensação, e posso afirmar que jamais serei o mesmo depois do que foi apresentado no palco do Espaço das Américas. Volto a minha rotina estafante com a certeza de que vivi intensamente por um período de três horas de pura beleza visual e sonora. Louvado seja o King Crimson, amém! 



Setlist King Crimson: 

Set 1:

Drumsons
Larks' Tongues in Aspic, Part One (including Tom Jobim’s Garota de Ipanema)
Suitable Grounds for the Blues
Red
Epitaph
Drumzilla
Neurotica
Moonchild (Including Cadenzas)
Radical Action II
Level Five

Set 2:

Drumsons
Cirkus
Easy Money
Larks' Tongues in Aspic (Part IV)
Islands
Indiscipline
The Court of the Crimson King (With Coda)
Starless

Encore:

21st Century Schizoid Man


Por: Roberio Lima

Agradecimento pelo credenciamento: Denise Catto / Silvia Herrera - Catto Comunicação  /  Espaço das Américas

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