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| Foto: João Zitti |
Tribulation - Burning House - São Paulo/SP - 14 de fevereiro de 2026
Por: Rafael Cunha Procópio
Fotos: João Zitti (@joaozitti.work)
Em meio à semana de carnaval, os vampiros suecos do Tribulation pareciam querer ter a certeza de que o sol do verão brasileiro já havia se posto para poderem iniciar a sua dança macabra na Burning House. Público ansioso, incensos acessos, a banda subiu ao palco às 20h10 – quase 40 minutos após o horário anunciado e, conversando após o show, motivado por um pedido da própria banda em virtude do cansaço da turnê, cuja última parada foi São Paulo.
Sem banda de abertura e com a casa injustamente vazia (o público aparecia ocupar cerca de apenas 1/3 da sua lotação), o Tribulation apresentou um set enxuto, mas intenso, de aproximadamente 70 minutos. Como já indicava o nome da turnê (Sub Rosa in Latin America), o foco absoluto foi o material da fase atual da banda. Das 12 músicas tocadas, 5 saíram do último disco completo, Sub Rosa in Æternum, e 1 do EP Hamartia, que o antecede e possui a mesma sonoridade gótica mais arraigada.
| Foto: João Zitti |
Um-a-um os membros subiram ao palco e The Unrelenting Choir introduziu o tom soturno da apresentação. Com um público em transe, Johannes Andersson deu início ao show tocando a compassada linha de baixo introdutória. Seguido de perto por Joseph Tholl e Adam Zaars, que já subiram tocando os seus arrastados riffs em conjunto com a máquina de death metal brasileira Luana Dametto, marcando o cortejo funéreo com bumbo e prato. Com sua voz teatral e profunda, Johannes anuncia que embarcaríamos no desconhecido, onde a lua está longe do mar e as estrelas já não brilham mais. A desaceleração final da bateria de abertura abriu os caminhos para os acordes mais occult rock e baixo gótico de Tainted Skies. Aqui, Johannes já presentou o público com as primeiras linhas vocais mais rasgadas, um “gutural” rouco, mas com clareza cristalina das letras cantadas. Joseph, em especial, cuidou dos coros que harmonizam os refrães, enquanto a dobra de guitarras trouxe um gosto de Ghost ao som.
| Foto: João Zitti |
| Foto: João Zitti |
Saindo da fase atual, emendaram Nightbound, do disco Down Below, seguindo a mistura do occult rock setentista com vocais roucos que quase chegam a ser qualificados como guturais. As linhas de guitarra aqui são mais limpas e etéreas, com alguns acenos à sonoridade acústica. Essa mistura da fase intermediária da discografia do Tribulation sempre me impressionou, justamente pela forma como a banda conseguiu encontrar um equilíbrio tão tênue entre o peso e a agressividade do death metal e a beleza (também) mortuária, mas mais soturna e contida do occult rock e gótico.
A música seguinte, Hamartia, apesar de mais recente, funcionou bem nessa seção intermediária do setlist, justamente por o baixo e as guitarras góticos virem acompanhados de uma bateria mais frenética e de um vocal mais agressivo, quase que sem inclinações limpas. Nela, as duas guitarras transitaram entre o gótico e o metal tradicional, só que com mais dissonância. Luana, que substituiu o baterista oficial Oscar Leander nessa turnê, tocava as músicas – com todas as suas variações de estilo – como se fosse membra da banda e estive estado em estúdio compondo-as com os suecos. Fazendo parecer simples e tranquilo linhas de bateria que certamente colocaria qualquer um suar frio para performar, essa nota é especialmente válida para a bela, arrastada e soturna Suspiria de profundis – som mais antigo do setlist, em que as guitarras de Adam acenam ao death metal, mas dão espaço para elementos de metal tradicional e rock transitarem com liberdade poética.
| Foto: João Zitti |
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| Foto: João Zitti |
O show seguiu com a excelente In Remembrance, contando com um maravilhoso dueto de guitarra entre Adam e Joseph, quase operático, as guitarras contrastaram lindamente com a cozinha mais groovada e os vocais roucos de Johannes. Então, mudando mais uma vez o ritmo da noite, Hungry Waters abriu a trilogia final do último disco, com sonoridade mais sintetizada e bastante marcada pelo baixo, as guitarras soavam quase como um desfile de riffs de rock clássico com pitadas de progressividade. Seguida por Saturn Coming Down e Murder in Red – um vampiresco e gótico blues misturado com um western regado de sintetizadores, se é possível –, o clima ficou mais sereno e contemplativo. Nelas, os vocais limpos prevaleceram, apesar de os guturais roucos antigos ainda darem o ar da graça em algumas passagens pontuais. Voltaram com força total na música seguinte, The Lament, que começa calma, mas logo assume sua faceta mais intensa e sombria, com teclados dignos de um gótico filme de horror.
Esse contraste sonoro também pôde ser notado na forma como os músicos se comportavam no palco. Chamou a atenção a presença de palco mais expansiva de Joseph, que pulava, batia o pé a reforçar as suas linhas de guitarra e se dobrava no palco, ao passo que Johannes e Adam sempre mantiveram uma postura mais austera e contida. Adam, em especial, parecia quase flutuar na sua movimentação pelo palco e olhar congelante sobre o público. Reforçando a sua energia, ao fim de The Lament, Joseph tirou a sua guitarra e a entregou ao público, para que cuidassem dela até a volta da banda para o bis poucos minutos depois.
| Foto: João Zitti |
| Foto: João Zitti |
| Foto: João Zitti |
| Foto: João Zitti |
O show foi, então, encerrado com duas faixas do disco Children of the Night, que marcou de forma mais profunda a evolução sonora da banda para fora do death metal e a caminhada pelos reinos do rock ocultista e do gótico. Melancholia trouxe uma sonoridade mais rock ’n’ roll e energética, com bateria e guitarras mais rápidas. Já o encerramento com Strange Gateways Beckon funcionou como a nota final perfeita da noite, equilibrando as diferentes facetas musicais do Tribulation. Passando pelo seu início mais calmo, as guitarras vão se somando aos poucos, preenchendo o espaço de forma cadenciada, mas persistente, juntamente com a bateria. Os vocais são melódicos sem perder a nuance inicial mais ríspida da banda enquanto cantam sobre portais e passagens que abrem os caminhos aos sonhos mais estranhos imagináveis.
Apesar do show curto, o Tribulation soube cativar o público paulista com maestria, apresentando a variedade sonora da sua carreira, ainda que reforce, mais uma vez, que a atenção da banda está voltada à sua empreitada sonora mais moderna. Confesso que, ao terem anunciado a Luana como convidada para essa turnê e que tocariam material antigo e que não tocavam há muito tempo, este que vos escreve alimentou a esperança de ver e ouvir músicas mais voltadas ao death metal sueco do disco de estreia The Horror. Infelizmente não foi dessa vez, mas que em nada afetou o ótimo show da banda. Quem sabe em um futuro não tão distante? Adam e Johannes, ao verem a minha fita cassete do álbum, se mostraram interessados, chegando a comentar sobre a vontade deles em voltarem a tocar algum material mais antigo...
Agradecimentos especiais à Tedesco Mídia, Xaninho Discos, Caveira Velha Produções e Solid Music Entertainment pelo credenciamento e à Burning House pelo acolhimento e ótima estrutura de show.

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