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| Arte: Pedro Hansen |
Por: João Zitti
Com “Rádio Love Nacional”, Detonautas lança seu melhor trabalho de estúdio em décadas, explorando novas sonoridades e estilos de composição
A sexta-feira 13 dessa segunda semana de março, contrariando as superstições, foi marcada por muita boa sorte e positividade, contando com o lançamento do novo disco de estúdio do Detonautas, o “Rádio Love Nacional”. Com 40 minutos de duração e 11 faixas no total, o trabalho é fruto de uma nova parceria da banda com os produtores Pablo Bispo e Ruxell, que certamente trouxe novos ares para o grupo. Um dia antes do lançamento do disco, a Big Rock teve o prazer de marcar presença em um evento de divulgação do novo trabalho de estúdio, que contou com a exibição do videoclipe de “Rádio Love Nacional”, de todas as canções do álbum e com a presença da banda, trazendo mais detalhes e curiosidades sobre o projeto. A seguir, você pode conferir a nossa review completa do disco!
A faixa de abertura e título do disco, “Rádio Love Nacional”, é talvez a melhor canção do álbum. Com quase três minutos de duração, ela já serve para ditar completamente o mood do novo trabalho: animado, descontraído e ensolarado, uma música que por si só parece um grande dia de sol quando você escuta - algo que é reforçado ainda mais pelo seu videoclipe, uma grande roadtrip com todos os membros do grupo. Não à toa as imagens desse registro viriam a ser utilizadas em massa para fazer os visualizers das outras canções do disco. Mesclando o elétrico com o acústico, a faixa busca propor ao público uma maior leveza no dia-a-dia e nos relacionamentos, e, ainda que finalize com “sem blá-blá-blá comercial”, possui grandes chances de ser o grande hit do álbum. A banda, inclusive, revelou no evento que a música estará presente no repertório dos próximos shows, juntamente das duas faixas seguintes: “Potinho de Veneno” e “Vampira”.
Primeiro single do trabalho, “Potinho de Veneno” é a canção que motivou a criação do disco - algo revelado pela própria banda no evento, contando que originalmente planejavam regravar algumas de suas canções, mas que isso ficou de lado logo após mostrarem a música para algumas pessoas envolvidas no projeto. Assim como na faixa anterior, a temática de namoros se mantém, agora indo para o caminho contrário de, ao invés de ter leveza, devolver para o parceiro tudo que ele fez de mal após terminar o relacionamento. Mesmo com um assunto que poderia facilmente ter se tornado uma sofrência, a canção assume um papel muito leve, com um rock que flerta com pop e que pode facilmente se tornar o novo hino do “livramento”.
Seguimos, então, para o segundo single do disco, “Vampira”, lançado no início de fevereiro. Logo ao iniciar a música, já é possível ver os novos caminhos e referências que viriam a ser exploradas pela banda no restante do trabalho, iniciando com uma narração que quase que parodia a fala de Barry Clayton em “The Number Of The Beast” (grande clássico do Iron Maiden), transicionando logo em seguida para uma canção que brinca com o gótico (especialmente em sua letra), o pop e, até mesmo, o funk carioca dos anos 90 e 2000, encaixando muito bem com o lançamento do disco, apresentado ao público em uma sexta-feira 13.
As duas faixas seguintes, “Fim da Encruzilhada” e “Dor Fantasma”, abordam de maneira muito clara o sentimento de falta e desaparecimento, mas de maneiras diferentes: enquanto “Fim da Encruzilhada” traz uma maior ligação com o final de um relacionamento e as saudades deixadas por ele (com uma sonoridade que remete muito a primeira faixa do álbum), “Dor Fantasma” busca falar sobre as inseguranças e sentimentos mal resolvidos - mesmo quando certas situações já ficaram no passado, como pode ser visto em “se seus inimigos se foram, com quem está fingindo brigar?”. Isso se junta, também, ao desejo de querer que as coisas mudem, mas enfrentando a incapacidade de conseguir viver sem que existam obstáculos, como no trecho “junta a fome com a sede, mas dentro do prato só come se o diabo amassar”, trecho esse em que a letra explora, justamente, a contraposição de ideias. Inclusive, “Dor Fantasma” é o grande exemplo do maior enriquecimento nas letras trazido pelas participações dos dois produtores do álbum, Pablo Bispo e Ruxell, nas composições, algo muito elogiado por Tico e pelo restante da banda no evento.
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| Foto: Jorge Daux |
A segunda metade do disco é iniciada pelas faixas “Antimonotonia” e “Capa Preta”, músicas essas que remetem muito a sonoridades e estilos explorados por Marcelo Falcão e O Rappa, tanto através do timbre mais grave de Tico Santa Cruz e das linhas de baixo mais marcadas (como acontece na reta final de “Antimonotonia”), quanto por suas letras, mais caracterizadas por explorar temas relacionados à fé, espiritualidade e aos desafios do cotidiano. O destaque, inclusive, vai para “Capa Preta”, música essa que possui todo o potencial para fazer parte de alguma trilha-sonora de filme ou série (algo que a banda mostrou ter muito desejo de que aconteça), e que, ainda que não esteja planejada para aparecer no setlist das apresentações do grupo, pode ser uma ótima adição ao seu repertório ao vivo.
Em seguida, temos “Coração Latino” e “Drama de Cinema”, duas faixas que, infelizmente, não são tão marcantes. Apesar de serem canções com muitas explorações sonoras, especialmente pelos efeitos utilizados e combinações de múltiplos instrumentos de corda, percussão e sopro, são faixas que acabam não vingando. E não só na discografia da banda como um todo, mas na própria tracklist do álbum, com letras que, mesmo com uma nítida dedicação de composição, são esquecíveis, e que no saldo final não são uma grande adição na carreira da banda.
A penúltima faixa, “Renda-Se”, pode ser tida como uma “prima” de “Potinho de Veneno”, especialmente pela temática de sua letra. Mas, ao contrário da faixa citada, essa canção traz para a mesma situação um maior confronto e responsabilização das ações, quase que em uma ideia de carma de que, como ele mesmo diz, “sua hora vai chegar e você vai lembrar das mentiras que um dia me contou”. Mesmo assim, sua sonoridade busca trazer uma maior leveza para a canção e a situação como um todo, quebrando algumas expectativas em suas progressões que, intuitivamente falando, poderiam ir para notas mais graves, mas foram propositalmente para notas mais agudas, o que traz mais um ar de “dedo do meio” de resistência do que de raiva propriamente dita.
Em seguida, temos “Espadachim” finalizando o álbum. Assim como havia escolhido a primeira faixa do disco como a melhor, a última faixa acabou se mostrando como a mais fraca: tentando trazer uma mistura de metal com trap, a música até começa bem, mas acaba se perdendo no meio do caminho, especialmente por conta de sua letra e pelo estilo que Tico abordou ao cantar. No evento, a banda contou que, ao compor a canção, buscou como exercício primeiro cantar a primeira coisa que viesse na cabeça, depois pegar o que surgiu e estruturar melhor a letra. Ainda que seja um exercício muito interessante, não acabou tendo o melhor resultado, com algumas partes que fazem muito sentido dentro de sua estrutura, e outras que, como diria o próprio refrão da música, ficaram “nada com nada”. E a grande questão não está em misturar esses estilos - visto que MC Lan fez isso muito bem em “V3NOM Vol. 1 - Eclipse”, com destaque para a faixa “ROBOCOP” (que contou com a participação de Criolo e John Dolmayan, baterista do System Of A Down) - mas sim na maneira como foi feita, fugindo das experimentações feitas ao longo do disco e, infelizmente, encerrando o álbum com uma nota destoante.
Apesar de alguns tropeços pontuais, “Rádio Love Nacional” é um dos melhores (senão o melhor) discos de estúdio do Detonautas desde seu self-titled, explorando novas sonoridades e caminhos com uma parceria que, certamente, mostrou que a banda ainda tem muita história pela frente.
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| Foto: Jorge Daux |
Detonautas - 'Radio Love Nacional'
Data de lançamento: 13/03/2026
Gravadora: Deck
Tracklist completa:
1. Rádio Love Nacional
2. Potinho de Veneno
3. Vampira
4. Fim da Encruzilhada
5. Dor Fantasma
6. Antimonotonia
7. Capa Preta
8. Coração Latino
9. Drama de Cinema
10. Renda-se
11. Espadachim
Ficha Técnica:
Tico Santta Cruz – Voz
Renato Rocha – Guitarra e Teclados
Fábio Brasil – Bateria
Phil Machado – Guitarra
Macca – Baixo



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