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22 de março de 2026

All Metal Stars - Brasucas - Campinas/SP

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior


All Metal Stars - Brasucas - Campinas/SP - 12 de março de 2026


Por: Jair Cursiol Filho (@jcursiolf)

Fotos: Alfredo Dal'Ava Júnior (adalavajr)



Antes de tudo: se você está lendo isso, ainda dá tempo de ver esse show, pare de ler e compre o ingresso! Sério! Enquanto escrevo isso, tem shows entre 21e 29 de março no Rio de Janeiro, Vila Velha, Recife, Natal, Fortaleza e Teresina.

(Pausa dramática para você ir comprar o ingresso em https://allmetalstars.com/).

Comprou? Agora para o review:

Um timaço formado por Thiago Bianchi (vocal, Noturnall, ex-Shaman), Edu Ardanuy (guitarras, ex-Dr. Sin), Guilherme Torres (guitarra, Noturnall), Saulo Xakol (baixo, Noturnall), Aquiles Priester (bateria, ex-Angra, Hangar, ex-Edu Falaschi), Fábio Laguna (teclados, Edu Falaschi, Hangar, ex-Angra ao vivo) e ninguém menos que Daniel Matos (baixo, Viper) saiu em turnê com o nome All Metal Stars para homenagear o maestro Andre Matos. A turnê acabou surgindo da mente de Cristiano Poschi, vocalista da banda gaúcha Phornax e que é uma das bandas de abertura, e culminou em um DVD gravado em São Paulo em 15 de março. Este que vos escreve, por motivos alheios a esta coluna, fez a cobertura do show de Campinas/SP alguns dias antes.


Krakkenspit

Entrei no Brasucas, casa de show próxima à Unicamp junto com meu parceiro de crime Alfredo, responsável pelas fotos da noite às 20h02 e a banda de abertura Krakkenspit já estava terminando a terceira música, "They Won't" (a melhor do setlist, na opinião deste que vos escreve) - apesar do show estar anunciado para iniciar 20h. Acho que é a primeira vez que vejo uma banda ser tão pontual a ponto de começar antes da hora.

Apesar da história do Krakkenspit remontar à 1985 com o nome Terminator, o primeiro álbum veio apenas ano passado, com o excelente "Tides of Armageddon", que só consigo classificar como heavy metal. Aldo Guilherme (guitarra), Bruno Dias (bateria) e Julian Stella (baixo) refazer com competência ao vivo o que fizeram no estúdio. O mesmo pode ser dito do vocalista Márcio Cruvinel, que parece se divertir durante as músicas. 

Não conhecia antes e espero que não sumam do cenário.

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior


Setlist:

1. Tides of Armageddon

2. I'm Falling

3. They Won't

4. Love Forever Dead

5. Fear My Name

6. Get Your Feet Off

7. Long Wild Roads


Phornax

A banda Phornax é uma que tem uma história de idas e vindas. A formação atual surgiu em 2024 mantendo apenas o já citado Cristiano Poschi e o baterista Maurício Dariva de formações anteriores. Assim como no caso do Krakkenspit, a discografia do Phornax é pequena, com o EP Silent War do longínquo 2011 e três singles do vindouro álbum de estreia "Hellforge", previsto para maio de 2026.

Silent War serve de base para o setlist, sendo tocado quase na íntegra. O estilo me lembrou muito Judas Priest em alguns momentos. Confesso ter achado o EP um pouco repetitivo. Mas avaliar o Phornax por um registro de 15 anos atrás com 3 membros diferentes é quase sacrilégio. Para contexto, é quase como avaliar o Angra de Fábio Lione, Bruno Valverde e Marcelo Barbosa pelo disco Aqua. 

Então focamos no show. Os novos membros na verdade melhoraram as músicas antigas ao vivo e entregaram com bastante competência os 3 singles. Deivid Moraes (guitarra) foi uma grata surpresa, visto que era o único desconhecido (para mim). No baixo a banda conta com Sfinge Lima, figura carimbada do rock e metal gaúcho desde a década de 1980. E comandando as outras 6 cordas estava ninguém menos do que Eduardo Martinez (ex-Hangar).

O interessante do vocal nas músicas é que ele parece falsamente grave. Ele engana o ouvinte, pois as notas são altas se você for cantar junto. Ponto para Cristiano. Ao final, estou curioso com o que essa nova formação entregará no disco de estreia este ano.

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior


Setlist:

1. Hell's Paradise

2. Dare of Destruction

3. Final Beat

4. A Matter of Time

5. Silent War

6. Ghosts from the Past

7. Between fear and Hope


All Metal Stars

Como eu disse no começo: se conseguir ir, vá! 

O setlist passa por quase toda a carreira de Andre Matos. Viper, Angra, Shaman e carreira solo são representadas com pelo menos uma música cada. Setlists de homenagens sempre são coisas complicadas. Dependem demais do que quem decide acha importante ou se identifica na carreira do homenageado. O que é mais importante? Os maiores sucessos ou apresentar coisas que poucos conhecem? É uma homenagem acústica, sinfônica ou elétrica? O que quem vai tocar gosta de tocar? Ficam de fora apenas Symfonia e o projeto Virgo, mas o Symfonia até Andre fingia que nunca existiu e o Virgo muitas vezes também ficava fora dos setlists solo do cantor. No meu caso em particular tinha opiniões fortes sobre o que colocar. Alguns anos atrás eu e alguns outros fãs tentamos tirar do papel não uma turnê, mas um CD em homenagem a Andre. Não deu certo, obviamente. Eu teria colocado uma de cada banda e trocado alguma do Ritual por Turn Away ou Innocence do Reason.

Isso não é uma crítica negativa, pelo contrário. Eu tenho total tenho certeza que cada um dos presentes ali tinha um setlist diferente na cabeça. Mas, uma vez que você entende que a homenagem é o que Cris Poschi junto com o restante dos músicos envolvidos acham importante e gostam de tocar, o que foi apresentado é fantástico. São 9 músicas do Angra, 3 do disco Ritual do Shaman, 1 do Viper e 1 da carreira solo. 

Obviamente que Thiago Bianchi deve querer cantar coisas que ele nunca cantou antes (eu faria o mesmo no lugar dele). E, senhores, que show. Já vi Bianchi duas vezes ao vivo cantando músicas próprias. Sempre muito competente e muito próximo do que gravou no estúdio. Mas cantar Andre Matos não é coisa simples. Edu Falaschi, Fábio Lione e Alírio Neto certamente concordam comigo. E já mandaram Carry On e Here I Am, duas pedradas com tons altíssimos. Quando passamos para pensar que Andre saiu do Angra aos 28 anos e Thiago já está com 45, conseguimos perceber o quão mais difícil deve ser agora.

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior


Carolina IV jamais deveria sair de um setlist do Angra. Não há música que mais simbolize a mistura de música brasileira com metal do que esta, na opinião deste que vos escreve. A esta altura, já havíamos notado que Edu Ardanuy não seria apenas alguém que executaria exatamente o que está no disco (acho que ninguém em sã consciência espera isso dele, para ser sincero). Sempre que pode, Ardanuy improvisa, o que dá às músicas um frescor, uma vida nova. Time, a quarta da noite, é uma música que eu nunca entendi muito bem, está fora das minhas favoritas do disco Angels Cry, mas ainda assim a execução foi primorosa. 

E aí veio a seção baladas, com a participação que eventualmente me fez chorar: Daniel Matos. Daniel é hoje baixista do Viper, banda original de Andre, e não é o cara acostumado a tocar o power metal que Angra, Shaman e a banda solo de Andre fizeram. Do pouco que conversei com ele na vida (ainda tentando levantar aquele CD), tenho certeza de que ele foi o primeiro a falar que faria só as baladas para deixar as mais rápidas para Xakol. Mas a hora que ele entrou no palco, pareceu que tudo aquilo estava validado. A família de Andre estava apoiando aquilo. O peso de Dani estar na turnê é absurdo. É triste que eles nunca gravaram nada juntos, mas é lindo ver ele fazendo essa homenagem para o irmão.

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior


E começaram justo com Wuthering Heights, que eu só vi Tarja Turunen fazer ao vivo e que o Angra só toca com mulheres como convidadas. E o Bianchi fez. Como diria Fausto Silva: "Quem sabe, faz ao vivo". Foi, talvez, a música mais impressionante da noite.

E aí eu chorei. Não com Wuthering Heights, mas com Living for the Night, clássico máximo do Viper. Eis que, nas palavras de Dani, o restante da equipe forçou ele a cantar uma música. Dani não tem nem de longe a técnica de Bianchi, mas ele tem uma coisa que só ele no universo tem: o timbre parecido com o irmão. O que escrevo agora é o melhor dos elogios, mesmo que não pareça: era fechar os olhos e parecia que Andre estava cantando num dia ruim. Não desafinado, só talvez não tão refinado quanto um vocalista profissional. E eu daria o mundo por mais um show do Andre Matos num dia ruim. Daniel me deu uma música, e eu chorei.

Thiago voltou para Stand Away, coisa que alguns anos atrás ele mesmo me pediu que reservasse para ele cantar, caso o CD saísse. O mundo dá voltas! Wuthering Heights e Stand Away. Que performance!

Make Believe seguiu, ainda com Daniel Matos ao baixo. Já vi ela tantas vezes, com tantos vocais, que passei um pouco desapercebido por ela. Quem se destacou aqui, de novo, foi Edu Ardanuy.

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior


A sessão de baladas com Dani Matos terminou com Fairy Tale do Shaman. Essa eu espero do fundo do coração que Thiago já consiga cantar com o coração leve após os anos de Shaman. É sempre linda. E é triste que o Shaman tenha acabado, pois essas músicas vão se esquecendo. Enquanto Angra e Viper estão em atividade, mantendo os fãs.

Eis que a única música da carreira solo de Andre foi Letting Go, faixa de abertura do disco de estreia Time to be Free. Quem cantou foi Guy Antonioli do Tierramystica. Apenas piano e voz, só ele e Fábio Laguna. Senhoras e senhores, que versão. Era a releitura que eu não sabia que precisava. Foi agridoce. Amo a carreira solo de Andre. Queria mais músicas. Queria que mais gente ouvisse as músicas. Queria Letting Go pedrada. Mas a versão ficou fantástica.

Lisbon foi a única música do disco Fireworks. Outra que sinceramente estou cansado já. Mas Andre basicamente só compôs esta e Wings of Reality no disco. Então não sei se havia muito o que fazer. E deve ter sido a escolha de Cris, que entrou para cantá-la. Alguém pode culpá-lo de querer cantar na tour que ele mesmo montou? Também é a que melhor se encaixa na sua voz. Acho que a emoção deve tomar conta, visto que a voz esteve trêmula em alguns momentos. Sinceramente? Não o culpo. Eu no lugar dele estaria nervosíssimo de cantar algo para aquele que é talvez meu ídolo maior na música (empatado com Paul McCartney).

Aquiles saiu de trás da bateria para apresentar a banda. "É o metal invadindo mais uma casa de pagode pelo Brasil". Algumas piadas impublicáveis depois e a última do Shaman tocada na noite: For Tomorrow. Acostumei tanto com ela ao vivo apenas com Hugo Mariutti que ver uma rendição mais próxima do estúdio foi até estranho (positivamente). Cantei, já rouco, à plenos pulmões. Queria mais Shaman.

A banda sai do palco para voltar para o bis, que já é algo que nem funciona mais com a grande maioria do público, que fica quieto esperando. Nothing to Say, pedrada que abre o Holy Land (e que o Shaman da época de Thiago Bianchi fazia ao vivo por causa de Ricardo Confessori) foi a última das pauladas, antes da banda desacelerar e finalizar com Angels Cry.

Foto: Alfredo Dal'Ava Júnior


Ao final, saí com a curiosa sensação de ter sido um dos melhores shows do Angra que já fui, sem ter sido um show do Angra. Fiquei com inveja de quem pode ir à gravação do DVD alguns dias depois. Comprarei e ouvirei loucamente, com certeza.

Agora, o elogio mais curioso ao show veio do fotógrafo da noite, Alfredo, que nunca havia visto Bianchi ao vivo: "Acho que ele cantou mais que o Alírio". Que comece a próxima rivalidade do metal nacional! Brincadeira, não comecemos. Mas, sinceramente, concordo.


Setlist:

1. Unfinished Allegro / Carry On (Angra)

2. Here I Am (Shaman)

3. Carolina IV (Angra)

4. Time (Angra)

5. Wuthering Heights (Kate Bush, com Daniel Matos)

6. Living for the Night (Viper, Daniel Matos nos vocais)

7. Stand Away (Angra, com Daniel Matos)

8. Make Believe (Angra, com Daniel Matos)

9. Fairy Tale (Shaman, com Daniel Matos)

10. Letting Go (Andre Matos, Guy Antonioli do Tierramystica nos vocais; piano e voz)

11. Lisbon (Angra, Cristiano Poschi do Phornax nos vocais)

12. For Tomorrow (Shaman)


Bis

13. Crossing / Nothing to Say (Angra)

14. Angels Cry (Angra)


Agradecimento à TRM Press e Arena Produtora pelo credenciamento e atenção.

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