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21 de abril de 2026

Ouroboros sobe o Nilo: quando a serpente do eterno retorno encontra os deuses egípcios

Foto: Rafael Procópio 


NILE - Burning House - São Paulo/SP - 22 de março de 2026


Por: Rafael Cunha Procópio

Fotos: Rafael Cunha Procópio (@rafaelcprocopio)


Os fãs de death metal foram mais um vez contemplados por uma dupla de shows do gênero - dessa vez, com um viés mais milenar e oculto, além da primazia técnica tão característica do estilo. Coincidência ou não, a escolha dos cariocas do Ereboros como banda de abertura para os estadunidenses do Nile se mostrou bastante acertada para muito além do nível musical. O Brasil tem, há muito, uma forte tradição de bandas de metal extremo, com inúmeras bandas de death metal técnico. No entanto, após uma reflexão mais detida, ainda que bastante nova na cena, de fato, nenhuma poderia ser mais adequada que o Ereboros. Como a própria banda explica, o seu nome deriva da conjunção de Erebos, o deus grego da escuridão, com morada no submundo, e Ouroboros, a serpente que consome a própria cauda, cujo formato circular representa o eterno retorno, o ciclo de evolução voltado ao “eu”. E eis aqui a “ironia” do encontro entre as duas bandas da noite: a aparição (conhecida) mais antiga dessa serpente está em escritos mortuários do Egito Antigo, encontramos na tumba do Rei Tutancâmon. O nome desses textos? Livro Enigmático do Mundo Inferior. Um eterno retorno que passa pelo submundo, sem dúvida. 

Finda a aula de história e voltando ao presente, o Ereboros tocou nove músicas em um set de 40 minutos. Com apenas um EP de cinco faixas oficialmente lançado, faixas inéditas também compuseram o setlist da noite. Após uma breve introdução, a banda tocou Corruptio Signum, que, sonoramente, lembra uma mistura profana entre Behemoth e Nile. Apesar de serem predominantemente uma banda de death metal, a influência do black e do blackened death é bastante clara na sonoridade e na presença de palco de Thiago Barbosa, que sabe conduzir a performance com maestria em meio ao atropelo sonoro de seus companheiros. Tendo ficado do lado esquerdo do palco - intencionalmente a espera de Karl Sanders, que sempre ocupa essa posição -, a habilidade de Victor Mendonça na bateria foi a que mais me impressionou. Ali no seu cantinho apertado do palco, Victor malhou o instrumento como um espartano em modo de guerra. Além da própria Corruptio, meus destaques pessoais de sua performance foram nas músicas Path of Solomon e Ereboros - que tem alguns acenos à sonoridade mais antiga do Septicflesh. 

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 


O blackened death dos cariocas ficou ainda mais evidente na segunda música, Dubium Sapientia Est. Com as guitarras de Juan Carlos e Thiago Barbosa em conjunto - por vezes dobradas, noutras passagens dialogando riffs -, o peso e o soturno ganham destaque especial, dando o tom ideal para o rosnado gutural constante de Thiago que me remeteu a Helmuth do Belphegor tunado. O tom mais grandioso e “cadenciado” da banda foi mantido na ótima Path of Solomon, que juntamente com a faixa seguinte - ainda não lançada oficialmente - Salute to Disorder, possuem algumas linhas de baixo bastante marcantes e inusitadas de Paulo Doc. 

Após tocarem mais uma do EP de estreia (Blasphemous Era, que começa veloz e caracteristicamente death metal), Thiago anunciou que tocariam Progenies of the Unseen, uma música nova que afirmou pretenderem lançar no segundo semestre. A sequência funcionou bem, pois as duas músicas possuem algumas nuances mais melódicas e com uma influência de heavy metal tradicional à la Iron Maiden muito presente; o que dá um toque especial aos momentos mais brutais da música do Ereboros. Encaminhando-se para o final, tocaram a auto-entitulada Ereboros, que parece uma aliança profana de Behemoth e Gojira do velho testamento. Por fim, parecendo estarem prontos para sair do palco, foram informados de que teriam tempo para tocar mais uma música. Tempo este que foi muito bem aproveitado, pois estrearam um novo som ao vivo (pelo que entendi, chamada Distorted Man), que, para mim, sintetizou bem a sonoridade da banda: metal da morte com cara própria, pitadas de blackened death, focada no alto padrão técnico e clareza dos instrumentos e vocais sem perder o vínculo mais profano com os bastiões da velha guarda do death metal. 

Menos de uma hora depois, o Nile iniciava o seu culto aos deuses antigos. Antes, porém, durante uma parte considerável do intervalo entre as bandas, o público já foi sendo inserido sob o véu místico egípcio enquanto o sistema de som da casa tocava músicas ambiente egípcias - algo já característico dos shows do Nile há algum tempo. Pelos próximos 65 minutos, Karl Sanders e seus pares teriam o público brasileiro sob total controle. O Nile é uma daquelas bandas consideradas fundamentais dentro do seu subgênero e, quando se fala de technical e brutal death metal, encabeça o estilo em pé de igualdade com bandas como Suffocation, Cryptosy e Origin. 

Foto: Rafael Procópio 


Além de ser conhecida pelos altos níveis técnico e brutalidade - personificados pelo fundador Karl Sanders, que assume os vocais e guitarras, e o segundo membro mais duradouro ainda na banda, o monstruoso baterista George Kollias -, é igualmente notável a alta rotatividade de artistas (sejam membros formais ou contratados para compor os casts ao vivo) que passam pela banda nos últimos anos. Fator esse que, por vezes, pode acabar afetando o resultado final dos shows. Não foi o que aconteceu dessa vez. Sendo essa a terceira vez que assisti a banda ao vivo - antes, em 2017 e em 2023 - afirmo com tranquilidade que não presenciei uma formação do Nile tão bem entrosada quanto a atual. Especialmente se considerarmos que o show de São Paulo foi o último da extensa e extenuante turnê pela América Latina, a sinergia e conexão entre os músicos era tão palpável que pôde ser notada até no rosto do faraó Sanders. O sorriso de orelha a orelha do momento de subiu ao palco para afinar suas guitarras até o fim do show e simpatia com os fãs ao jogar palhetas, setlist e assinar autógrafos não me deixa mentir.

Passando ao setlist da noite, outro fato notável é que o Nile tem se recusado - pelo menos por enquanto - a aderir à moda cada vez mais comum (inclusive nos nichos de metal extremo) de fazer turnês comemorativas ou focadas unicamente em discos clássicos. Para uma banda tematicamente calcada em glórias passadas (ainda que seja do Egito Antigo), esse olhar para o presente e o futuro da banda é digno de nota. Das treze músicas tocadas, quatro saíram diretamente do seu disco mais recente The Underworld Await Us All, que foi promovido nessa turnê. Duas delas - Stelae of Vultures e To Strike with Secret Fang - abriram a performance sem piedade. Pessoalmente, achei que as músicas funcionaram muito melhor ao vivo do que em estúdio. A intercalação dos vocais entre o segundo guitarrista Zach Jeter e o baixista Adam Roethlisberger adicionou maior dinamismo e peso às músicas. Os músicos não competiam entre si para mostrar quem teria mais espaço ou técnica vocal. Cada um pareceu focar naquelas nuances do grande espectro do gutural que eram o seu forte. Já Karl Sanders ficou responsável pelos guturais mais graves, quase crocodílicos, que são bastante característicos do Nile - especialmente nos discos mais antigos, que também se fizeram presentes. 

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 


Na sequência, os fãs foram presenteados com uma trinca de músicas da fase mais primordial da banda. Sacrifice Unto Sebek, do clássico absoluto Annihilation of the Wicked, foi seguida pela quase doom Black Flame, do também excelente e pesado Black Seeds of Vengance, e de Smashing the Antiu, do disco de estreia Amongst the Catacombs. Durante essa sequência, é impressionante notar o quanto Karl Sanders domina as técnicas vocal e de guitarra e consegue tocar e cantar em tão alta velocidade - especialmente em Sacrifice e Smashing - e com tanto peso. Após muitos pedidos do público, Sanders anunciou Kafir!, emendada por Hittite Dung Incantation, também do clássico moderno Those Whom the Gods Detest. Nelas, o destaque foi a combinação do gutural ainda mais cavernoso de Sanders com as suas palhetadas violentas e ágeis na flying V temática do álbum. Karl parece ter um apreço singular a esse disco mais “recente” da banda pelo cuidado especial que deu à execução dessas duas músicas.

Seguindo para outros três discos da carreira, tocaram a veloz In the Name of Amun, que além de dar espaço para um coro do púbico, mostrou como Kollias domina a bateria, intercalando os momentos mais rápidos e sônicos do início da música com a passagem final mais “cadenciada” e focada nos pedais duplos que respira e conversa com os riffs lamacentos de guitarra. Emendaram, então, Sarcophagus, música de um dos melhores discos da banda - In Their Darkned Shrines. Apesar de Kollias não ter tocado originalmente nesse álbum, ao vivo, ele respeita as linhas de Tony Laureano, dando uma pitada própria de personalidade. Os riffs e a segunda guitarra mais melódica harmonizam maravilhosamente bem ao vivo. Finalizando a tríade, tocaram Long Shadows of Dread, do penúltimo álbum, antes de tocarem mais dois sons do disco mais recente. 

Ainda que pontuais, as interações da banda com o público foram muito legítimas. Adam, or exemplo, comentou a felicidade de poder tocar pela primeira vez no Brasil, a terra do Sepultura. Outro momento esperado de interação é o da enunciação da faixa que se tornou o primeiro single do disco The Underworld Await Us All, por Karl Sanders enquanto parte do público tenta acompanhar no mesmo ritmo. A missão é difícil e o fôlego precisa estar em dia para pronunciar o seu “curtíssimo” nome: Chapter for not being hung upside down on a stake in the Underworld and made to eat feces by the four apes. Fôlego recuperado, só restava contemplar a qualidade técnica e a velocidade impressionante com que a banda toda executou essa música e Naqada II Enter the Golden Age. Esta última funcionou melhor ao vivo do que a anterior, mostrando uma banda bem coordenada e a intercalação entre passagens velozes/pesadas e outras mais epopeicas, com melodia mais palpável. 

Foto: Rafael Procópio 


O encerramento da noite se deu com a clássica Black Seeds of Vengance, já que o Nile não retornou ao palco para tocar a faixa Annihilation of the Wicked, que constava como sendo o bis do show. Mais uma vez, o vocal de Karl Sanders foi um show a parte com uma garganta digna de um monstruoso crocodilo do Nilo. Não deixo de ficar impressionado com o quanto ele tem mantido - e até mesmo aprimorado - a sua qualidade técnica vocal, mesmo com o passar dos anos. Talvez tenha encontrado algum papiro contendo o feitiço para proteger aquele que o possui de ataques contra as cordas vocais (com isso, fica aqui o meu aceno ao ignorado Ithyphallic). A comunicação instrumental que Sanders e Kollias forjaram ao longo das décadas também ficou bastante evidente na forma como guitarra e bateria se conversaram na faixa derradeira. Em sua parte final, o público invocou a plenos pulmões o refrão da música e as sementes negras da vingança, encerrando mais uma noite de peso promovida na Burning House.


Agradecimentos especiais à Tedesco Mídia, Caveira Velha Produções, Vênus Concerts e LBN Agency pelo credenciamento e à Burning House pelo acolhimento e ótima estrutura de show.

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