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| Foto: João Zitti |
Vader - Burning House - São Paulo/SP - 15 de maio de 2026
Por: Rafael Cunha Procópio (@rafaelcprocopio)
Fotos: João Zitti (@joaozitti.work)
Há muito, tenho dito que, em dias caóticos, só o Death Metal salva. Ainda bem que os fãs do metal da morte tinham compromisso marcado na Burning House com o gênero no último 15 de maio, apesar da chuvosa São Paulo com trânsito atravancado e linhas de metrô e trem quase em modo operação parcial de tão lentos. Eu mesmo fui pego no olho do furacão e já estava nervoso por ter chegado atrasado e achando que teria perdido o primeiro show da noite. Para a minha “sorte”, o cronograma foi ajustado para acomodar o cenário apocalíptico que certamente pegou muitos fãs no contrapé.
Previsto para começar às 19h30, o Antrvm subiu ao palco às 20h, com a casa ainda relativamente vazia – mas que foi acumulando público ao longo do set. A banda focou o material do segundo (e mais recente) EP da banda (Sombria). Com um som mais moderno, a abertura com The Way of the Saw deixou claro que os paulistas apresentariam uma mistura equilibrada de death metal com o som característico da New Wave of American Heavy Metal. Senti a influência do Lamb Of God de forma tão presente quanto de trabalhos mais recentes e técnicos do Suffocation e Decapitated. Essa aposta em um som death mais grooveado, mas que não perde a mirada nas baterias rápidas e riffs de guitarra massacrantes ficou especialmente claro nas duas músicas seguintes. Deliverance é cheia de quebras de bateria, por vezes lembrando o Sepultura do Chaos A.D. e Roots, e tem um breakdown notável no meio. Por sua vez, Sombria foi apresentada por Victor como “homenagem” ao “mercado de trabalho fodendo a gente até o talo”. Nela – assim como em (dis)Function, que a seguiu –, o vocal deixou ainda mais clara a influência de LoG, notado também na forma como a cozinha precisa de Bruno e Kevin pavimentaram o caminho para as guitarras irmãs, aqui mais compassadas e dando um ar mais soturno em alguns momentos, de Victor Henrique e Daniel.
Passando à reta final do show, tocaram dois sons do EP de estreia Defiler, que notei serem ainda mais groovados, com algumas passagens que quase caem na característica sonoridade Deathcore de bandas do gênero como The Black Dahlia Murder e Suicide Silence em aliança profana com o já mencionado Lamb Of God. A Pound of Flesh apresenta esses breakdowns em sequência que certamente agradará aos fãs do subgênero – mas que, a mim, particularmente, não geraram tanto impacto. Encerraram com Not Dead Enough, que voltou um pouco mais ao eixo tradicional do Death Metal, com bateria e baixo mais ágeis, além das guitarras mais cortantes. Tudo considerado, o Antrvm fez um excelente show, que destoou um pouco da sonoridade mais “tradicional” das demais bandas da noite. Mas eis aqui a beleza do Death Metal: a forma como o gênero pode ser absorvido e aproximado sob as mais variadas perspectivas e, quando bem tocado – como foi o caso aqui –, gerando resultados tão potentes e interessantes quanto as suas formas mais tradicionais. E ainda bem que continuam existindo bandas dispostas a estressar as barreiras do gênero enquanto o “mais do mesmo” mecânico tem dominado cada vez mais a cena.
Logo depois, os cariocas do LAC – que eu conheci quando ainda usavam o nome completo Lacerated and Carbonized – apresentaram o seu Death Metal mais tradicional ao público. O som da banda lembra o do Krisiun em vários momentos, principalmente pela metranca arrebatadora de Kai e pelo vocal cavernoso de Jonathan. A semelhança entre as bandas é ainda mais assustadora no material mais antigo do LAC, que dominou o setlist da noite. A trinca inicial de Third World Slavery, Bangu 3 e NarcoHell não deixou pedra sobre pedra, mostrando que o som da banda é pesado e preciso, fazendo valer o chamado inicial de Jonathan de que os presentes não se acanhassem e se aproximassem do palco. Na sequência, tocaram Dead and Forgotten, um som – com muitas aspas – mais “cadenciado” e variações rítmicas mais presentes. Na única faixa do sub representado disco mais recente Limbo, a troca de acordes entre o baixista Arthur e Leandro mereceu especial destaque, criando um clima mais denso antes de voltarem à sonoridade mais direta dos seus primórdios. Notei as influências quase-Punk e de Grindcore na execução de Decree of Violence, que fez lembrar a progressão orgânica do Siegrid Ingrid para o Nervochaos.
Curiosamente, os dois sons mais antigos (Seeds of Hate e Mundane Curse), do EP-demo Chainsaw Deflesher de estreia, sintetizaram de forma concisa e precisa o som da banda: Death Metal sem firula, com gutural cavernoso e instrumentos tinindo. Trilha sonora perfeita para um massacre sonoro anunciado, mas que não tem medo de deixar espaço para os instrumentos “respirarem”. Afinal, as toneladas de decibéis não afogaram em nada a clareza de cada instrumento e dos vocais. Exemplo vivo disso foi a execução da faixa BloodDawn, que tem passagens com destaque maior para o baixo de Arthur, abrindo caminho para uma sequência de riffs motosserra brasileira de Leandro, acompanhados de pedais duplos de Kai. Já a clássica Hell de Janeiro foi a música da noite com a maior veia Thrash Metal, lembrando bastante o Claustrofobia. Meu destaque particular nela é a forma como guitarra e bateria se conversam emulando um clima de paranoia e alta endorfina. Essa dinâmica também apareceu na penúltima música da noite, System Torn Apart, mas aqui a bateria de Kai mais focada nos pratos e sem aquela velocidade à milhão lançou as bases para Leandro poder explorar riffs com nuances bem diferentes daqueles “tradicionalmente” Death Metal.
Finalmente, às 22h, os poloneses do Vader estavam a postos para começar o seu setlist arrebatador que dominaria o ambiente pelos próximos 70 minutos. O pandemônio se iniciou com Sothis, do marcante segundo álbum De Profundis, para já deixar claro ao público que a parede de blast beats de Michał acompanharia de perto a enxurrada de riffs trocados entre Spider e Peter, tanto assim que estava sendo visto de perto (pela lateral) pelo monstro brasileiro da bateria Max Kolesne. Mesmo este sendo o último show da turnê latino-americana e com todo o cansaço que se acumula nessas situações, senti a banda mais solta e disposta do que da última vez que os vi em 2018. O ritmo ensandecido seguiu com a execução de uma seleção fina de sons forjados durante a primeira passagem de Mauser pela banda. Primeira das duas representantes do competente Black to the Blind, Fractal Light mostrou tanto a potência do baterista (membro mais novo da banda) quanto apresenta a sonoridade mais Thrash Metal do Vader, com alavancadas que remetem ao som do Slayer (mais sobre isso, daqui a pouco).
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| Foto: João Zitti |
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| Foto: João Zitti |
O show pegou tração de vez com a execução seguida de Wings e The One Made of Dreams, daquela que considero a magnum opus dos poloneses: o monstruoso Litany, mostrando que o mais infernal Death Metal é o que corre nas veias de Piotr e companhia, acompanhando de riffs mutiladores e blast beats prontos para estourar ouvidos despreparados. Os solos de guitarra são pontuais, mas matadores, e, se dão alguma esperança de calmaria, é apenas para melhor pontuar a destruição sonora da banda. O vocal de Peter pareceu até ter um brilho a mais nelas. Essa energia foi mantida ao emendarem a faixa que auto-entitula o EP Reign Forever World, cuja bateria massacrante ocupa todo mínimo “vácuo” sonoro deixado pelas guitarras um pouco mais sincopadas. Não esqueçamos Hal, onipresente com seu baixo no lado direito do palco e que oferta toda a base para que as guitarras soem ainda mais velozes e pesadas. A sua importância ficou ainda mais evidente em The Book, com suas guitarras e bateria mais marcadas na precisão do que na velocidade. Ali, o baixo de Hal e a bateria de Michał fizeram aquela dupla perfeita na cozinha que dá a tranquilidade necessária para Spider destilar a sequência de solos e alavancadas em sua guitarra.
Passando, então à sonoridade mais “moderna”, o Vader tocou uma trinca de sons do EP The Art of War – foram elas: What Color is Your Blood?; This is the War e Lead Us!!!. Confesso que fiquei surpreso e feliz com essa seleção de músicas, pois esse foi o trabalho que me introduziu ao som da banda duas décadas atrás. What Color, em especial, me pareceu ter arrebatado os fãs ali presentes – talvez porque, assim, como eu, não esperavam ouvi-la nessa turnê. A execução das outras duas foi igualmente energética e Peter inclusive parecia ainda mais confortável em cantar com um vocal mais rouco e menos gutural do que o seu padrão. O fato de essas três faixas serem (muito) relativamente mais melódicas, na medida em que o Death/Thrash polonês permite, ajudaram nessa performance vocal mais inovadora de Peter, juntamente com os solos mais soltos dele e de Spider. No meio dessa tríade bélica de peso, ainda houve espaço para tocarem o seu single mais novo (Unbending), que, apesar de bem executada, não me empolgou tanto. A pitada final de peso que faltou nela foi devidamente compensada com a igualmente belicosa quase-Black Metal Cold Demons, um panzer maligno em que, mais uma vez, Michał deu um show à parte, fazendo de sua bateria uma verdadeira banda marcial que orquestra a infernal batalha liderada pelas guitarras de Peter e Spider.
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Seguindo para a parte final do show, tocaram um medley de Dark Age, do disco de estreia, e Carnal, pontuando muito bem que o característico Death Metal do Vader tem raízes arraigadas no Thrash Metal e que bandas como Slayer e Megadeth exerceram influência primordial sobre a sonoridade da banda que mescla perfeitamente a velocidade do Thrash com o peso do Death Metal. Dando espaço para o material mais “recente”, tocaram Triumph Of Death, do meu disco favorito deles da última década (Tibi et Igni), com uma levada quase Death’n’Roll, bateria sincopada e riffs com um quê daquela tradicional motosserra sueca, ideal para extrair o resto de energia do público presente, antes de passarem à sinistra Helleluyah (God is Dead), mais tradicionalmente Death. Se o público achava que caberia a ela encerrar a noite em alta nota, estava redondamente enganado, pois, após uma breve ausência do palco, a banda retornou para prestar a muito devida homenagem ao Slayer, com um medley insano e peso redobrado de Hell Awaits e Raining Blood.
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| Foto: João Zitti |
Ao som da marcha imperial de John Williams, àqueles que prestigiaram mais essa noite de ode ao metal da morte proporcionada pela Caveira Velha, só restou voltar para casa com os ossos moídos e a alma leve. Cada banda apresentou a sua própria versão do estilo, de forma que todos os presentes certamente encontraram ao menos uma ou duas – e, com sorte, como no meu caso, três – abordagens do subgênero que lhes agradassem num nível mais pessoal. A curadoria das bandas realmente fez um trabalho primoroso na escolha de três gerações de Death Metal com sonoridades próprias marcantes, sem cair no “mais do mesmo”, que muitas vezes insiste em dar as caras nos shows em território brasileiro.
Agradecimentos especiais, mais uma vez, à Caveira Velha Produções e ao Alan Magno pelo credenciamento e parceria e à Burning House pelo acolhimento e ótima estrutura de show.








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