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3 de julho de 2026

Hellfest 2026: despedidas, aniversários e o Brasil em festa em Clisson


Foto: Thayz Figueiredo 


Hellfest Festival - Clisson/França - 19 de Junho de 2026


Por: Thayz Figueiredo 

Fotos: ThayzFigueiredo / Nicko Guihal / Matthis Photography


Clisson, no interior da França, vira uma vez por ano a capital mundial do metal. Em 2026, a 19ª edição do Hellfest trouxe 183 artistas espalhados por seis palcos, e estamos la para viver isso de pertinho. 

O dia 19 de junho não por acaso, reuniu bandas em turnês de aniversário e despedida, e teve um momento histórico para o metal brasileiro.

Cheguei direto da viagem para o festival, sem parar, e tomei uma decisão logo de cara: focar 100% nos shows principais. Não sobrou tempo para explorar com calma os seis palcos do Hellfest, mas cada minuto investido valeu a pena.

Sepultura: a despedida que celebrou 40 anos e uniu gerações

Não dava para começar o dia de outro jeito. O Sepultura subiu ao palco principal por volta das 18h (um pouco antes), em plena turnê de despedida que também celebra os 40 anos de carreira da banda, e fez isso em forma plena. Liderada por Paulo Jr. no baixo e Andreas Kisser na guitarra, com Derrick Green à frente como vocalista há décadas, essa formação entregou uma máquina de metal funcionando a todo vapor.

Sim, a ausência dos irmãos Cavalera (que supostamente estavam escalados para o lineup do dia seguinte) divide opiniões entre os fãs mais puristas até hoje, sobretudo dos fãs brasileiros. Mas para quem estava ali, essa foi exatamente a banda que o público veio ver: pesada, coesa, histórica. Os europeus respeitam demais o Sepultura, independente da formação. 

Foto: Nicko Guihal

Foto: Thayz Figueiredo


O ponto alto absoluto da apresentação veio durante “Kaiowas”. O Sepultura transformou a faixa em uma verdadeira celebração da música pesada mundial, recebendo no palco Alissa White-Gluz (ex-Arch Enemy), Dirk Verbeuren (baterista do Megadeth) e as brasileiras Fernanda Lira e Tainá Bergamaschi, do Crypta. Foi um encontro de diferentes nomes e de diferentes gerações do metal mundial, que em seguida abriu espaço para as pedradas Refuse/Resist  e Arise, transformando o Mainstage 2 em uma única e gigantesca roda de mosh. 

Roots encerrando o set, foi tão poderosa quanto sempre foi, e levou os franceses a completa loucura. Foi um dos meus shows preferidos do dia.


Setlist Sepultura — Hellfest 2026:

1. Inner Self

2. All Souls Rising

3. Kairos

4. Attitude

5. The Place

6. Kaiowas (com Alissa White-Gluz, Dirk Verbeuren, Fernanda Lira e Tainá Bergamaschi)

7. Beyond The Dream

8. Refuse / Resist

9. Arise

10. Ratamahatta

11. Roots Bloody Roots


Ver o Sepultura representando o Brasil tão longe de casa, num dos maiores palcos do metal mundial, é sempre um misto de orgulho e emoção que não cabe em palavras. Uma performance que reforça a influência global da banda brasileira e mostra por que essa turnê de despedida está sendo tão especial.


Helloween: 40 anos de pumpkins unidos

Na sequência, foi a vez do Helloween, que também celebra 40 anos de carreira em uma turnê especial. Com Michael Kiske, Kai Hansen e Andi Deris dividindo os vocais, a banda entregou um daqueles shows que parecem uma grande celebração entre músicos e fãs. A química entre os três no palco é evidente, alternando momentos de descontração, bom humor e performances impecáveis, enquanto passeiam por diferentes fases da história da banda.

O gigantesco telão ajudou a criar a atmosfera, exibindo a figura encapuzada de roxo, cercada por uma galáxia de estrelas, convocando os "pumpkins" a permanecerem unidos. Mas bastaram os primeiros acordes de "Twilight of the Gods" para que todas as atenções se voltassem ao palco. A plateia cantou cada verso a plenos pulmões, acompanhando a banda com palmas e punhos erguidos. Em "Future World", a energia explodiu de vez, com uma onda de crowd surfers cruzando o público e um coro que parecia não ter fim. Nem mesmo a recém-lançada "This Is Tokyo" ficou para trás, mostrando que o Helloween continua produzindo músicas capazes de conquistar espaço ao lado de seus clássicos.

Foto: Thayz Figueiredo 

Foto: Thayz Figueiredo 

Foto: Thayz Figueiredo 

Foto: Thayz Figueiredo 

Foto: Thayz Figueiredo 


O espetáculo visual acompanhou a intensidade do show. Canhões lançaram serpentinas azuis e brancas, vermelhas e brancas e multicoloridas sobre a multidão, criando uma cena ainda mais bonita sob a luz clara do verão francês. O encerramento veio com um medley de "Eagle Fly Free" e "Dr. Stein", transformando o público em uma grande festa coletiva. Por conta do tempo limitado de festival, a banda fez apenas uma breve homenagem à épica "Keeper of the Seven Keys", de 14 minutos, mas isso esteve longe de frustrar os fãs. O Helloween deixou o palco ovacionado, distribuindo baquetas e palhetas enquanto era aplaudido por um Hellfest que claramente ainda queria mais.


Setlist Helloween — Hellfest 2026:

12. March of Time

13. The King for a 1000 Years

14. Future World

15. This Is Tokyo

16. We Burn

17. Twilight of the Gods

18. Ride the Sky

19. Into the Sun

20. Drum Solo

21. Power

22. I Want Out

23. Initiation (encore)

24. Eagle Fly Free (encore)

25. Dr. Stein (encore)

26. Keeper of the Seven Keys (encore, apenas o trecho final)


Opeth: melancolia e técnica 

Como eu já tinha decidido garantir um bom lugar para o Iron Maiden mais tarde, acompanhei o Opeth de mais longe. Uma das grandes vantagens do Hellfest é que os dois palcos principais ficam lado a lado e todos os shows são transmitidos em telões espalhados pela arena. Na prática, isso significa que, mesmo sem estar na grade, você consegue assistir confortavelmente às apresentações e ainda alternar entre os dois palcos.

Os suecos entregaram exatamente aquilo que se espera do Opeth: uma combinação de passagens atmosféricas e melancólicas com explosões de peso e de técnica impressionante. Mikael Åkerfeldt comandou a apresentação com sua presença tranquila e o contraste marcante entre os vocais limpos e os guturais, enquanto a banda executava mudanças de andamento e arranjos complexos com uma naturalidade impressionante.

Foto: Thayz Figueiredo 

Foto: Thayz Figueiredo 


As reações, porém, ficaram divididas. Muitos elogiaram a performance como uma experiência hipnotizante, destacando a qualidade das composições e a excelência musical da banda. Outros, especialmente os fãs mais antigos, sentiram falta de um impacto maior, considerando a apresentação um pouco contida para os padrões do Opeth — algo que costuma acontecer em festivais, onde o tempo reduzido de palco, a passagem de som e um público mais heterogêneo nem sempre favorecem bandas com uma proposta tão dinâmica e detalhista.

Sem conhecer profundamente a discografia do Opeth, minha impressão foi bastante positiva. Talvez não tenha sido um show explosivo, mas foi uma apresentação elegante, tecnicamente impecável e perfeita para mostrar por que a banda continua sendo uma das maiores referências do metal progressivo.


Setlist Opeth — Hellfest 2026:

27. §1

28. The Grand Conjuration

29. §7

30. The Drapery Falls

31. Deliverance


Iron Maiden: 50 anos de carreira – Run For Your Lives Tour

Então chegou o momento mais esperado do dia: o Iron Maiden. Em plena turnê Run For Your Lives, a banda celebra seus 50 anos de história com um setlist dedicado exclusivamente aos nove primeiros álbuns. E, sinceramente? É difícil imaginar uma forma melhor de comemorar esse legado.

Assim que as luzes se apagaram em Clisson, a atmosfera mudou completamente. Bruce Dickinson continua sendo um fenômeno. Corre de um lado para o outro, interpreta cada música como se estivesse vivendo uma peça de teatro e canta com uma potência que desafia qualquer lógica. Mesmo com a turnê já bastante avançada, sua voz segue impecável. É impressionante como cada show do Maiden consegue causar o mesmo impacto, não importa quantas vezes você já tenha visto a banda ao vivo.

Foto: Matthis Photography

Foto: Matthis Photography

Foto: Matthis Photography

Foto: Matthis Photography

Foto: Matthis Photography


O restante da formação também esteve irretocável. Steve Harris continua sendo o coração da banda, conduzindo tudo com a mesma intensidade de sempre, enquanto Simon Dawson mostrou que assumiu a bateria com enorme segurança. Na linha de frente, Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers trocaram solos e harmonias com a naturalidade de quem faz isso há décadas.

O primeiro Eddie da noite apareceu logo no início, protagonizando uma divertida cena de combate no palco. Bruce também arrancou aplausos ao conversar diversas vezes em francês com o público, especialmente antes de "Phantom of the Opera", demonstrando mais uma vez o carinho que sempre teve pelos fãs locais.

"The Number of the Beast", acompanhada por labaredas de fogo, foi simplesmente avassaladora. Já "Infinite Dreams", que voltou ao repertório nesta etapa da turnê no lugar de "The Clairvoyant" e não era tocada ao vivo desde 1988, proporcionou um dos momentos mais especiais da noite, com a introdução delicada de Adrian Smith preparando o terreno para "Powerslave" e para o primeiro "Scream for me, Hellfest!" de Bruce.

Os grandes momentos se sucederam sem dar tempo para respirar. "Rime of the Ancient Mariner" impressionou tanto pelo espetáculo visual quanto pela execução impecável, enquanto o palco se transformava a cada música com cenários gigantes, animações e trocas constantes de ambientação. Conforme a noite avançava, labaredas passaram a sair das enormes estruturas metálicas espalhadas pelo festival, criando a sensação de que o Hellfest inteiro fazia parte do show.

Ainda houve espaço para uma nota longuíssima de Bruce em "Seventh Son of a Seventh Son", o retorno triunfal de Eddie durante "The Trooper",  com direito ao vocalista empunhando uma bandeira francesa, e uma sequência final impossível de não cantar junto. O encore com "Aces High", "Fear of the Dark" e "Wasted Years" encerrou mais de duas horas de espetáculo da forma que só o Iron Maiden consegue fazer: deixando a sensação de que o tempo passou rápido demais.

Há bandas que fazem grandes shows, mas o Iron Maiden cria experiências. E, cinquenta anos depois, continua mostrando por que permanece no topo do heavy metal mundial.


Setlist Iron Maiden — Hellfest 2026:

1. Doctor Doctor (cover de UFO)

2. The Ides of March

3. Murders in the Rue Morgue

4. Wrathchild

5. Killers

6. Phantom of the Opera

7. The Number of the Beast

8. Infinite Dreams

9. Powerslave

10. 2 Minutes to Midnight

11. Rime of the Ancient Mariner

12. Run to the Hills

13. Seventh Son of a Seventh Son

14. The Trooper

15. Hallowed Be Thy Name

16. Iron Maiden

17. Churchill's Speech (encore)

18. Aces High (encore)

19. Fear of the Dark (encore)

20. Wasted Years (encore)


Sabaton: a surpresa boa da noite (e uma pausa para comer)

Depois de horas na grade e praticamente o dia inteiro sem comer, chegou um momento inevitável: eu precisava abandonar meu posto para almoçar - ou jantar, já nem sabia mais (mas já era perto de meia noite, risos). Assisti às primeiras músicas do Sabaton bem na frente do palco e depois acompanhei o restante da apresentação de mais longe, enquanto finalmente fazia uma pausa para recarregar as energias.

E confesso uma coisa: mesmo nunca fui grande fã da banda, mas saí do show gostando muito mais do Sabaton do que entrei. Talvez eu tenha mudado um pouco de ideia. (risos)

Responsável por encerrar os mainstages naquela sexta-feira, o grupo sueco entregou exatamente o tipo de espetáculo que combina perfeitamente com um festival do tamanho do Hellfest. O palco parecia uma produção cinematográfica, com enormes telões, explosões, fumaça, figurinos militares, máscaras de gás, canhões e uma sucessão de efeitos visuais que transformavam cada música em um pequeno capítulo de guerra.

Um dos momentos mais marcantes veio com "I, Emperor", quando um ator caracterizado como Napoleão surgiu no palco entoando trechos de "La Marseillaise". Em um festival francês, era impossível a plateia não responder imediatamente. O público cantou junto, levantou bandeiras e transformou aquele trecho em um dos momentos mais curiosos e divertidos da noite.

No fim das contas, além de matar a fome, ainda terminei o dia com uma boa surpresa. O Sabaton talvez não entre para a lista das minhas bandas favoritas, mas ao vivo entrega um espetáculo grandioso, divertido e impossível de ignorar.


Setlist Sabaton — Hellfest 2026:

21. Ghost Division

22. Yamato

23. The Red Baron

24. The Last Stand

25. Great War

26. Stormtroopers

27. Christmas Truce

28. Soldier of Heaven

29. Night Witches

30. I, Emperor (com personagem de Napoleão e trecho de “La Marseillaise”)

31. The Attack of the Dead Men

32. Bismarck

33. Hordes of Khan

34. Templars

35. Primo Victoria

36. Swedish Pagans

37. To Hell and Back

Foto: Thayz Figueiredo 

Mastodon no Valley Stage: um pedaço carregado de emoção

Como gosto bastante do Mastodon, fiz questão de dar uma escapada até o Valley Stage, onde a banda se apresentava ao mesmo tempo que o Sabaton. Acabei voltando para o palco principal porque o show do Sabaton estava mais envolvente naquele momento, mas os minutos que passei diante do Mastodon já foram suficientes para perceber que aquela era uma apresentação especial.

O clima era diferente do restante do festival. Mais introspectivo, pesado na medida certa e emocional. O setlist percorreu diferentes fases da carreira da banda, misturando clássicos como "Megalodon" e "Crystal Skull" com músicas mais recentes, como "The Motherload" e "Steambreather", além de apresentar faixas do próximo álbum de estúdio.

O momento mais marcante veio quando Troy Sanders dedicou o inédito "Your Ghost Again" a Brent Hinds, guitarrista que deixou a banda no início deste ano. A homenagem emocionou o público e deu um peso ainda maior à apresentação. 


Setlist Mastodon (Valley Stage) — Hellfest 2026:

38. Tread Lightly

39. The Motherload

40. Your Ghost Again (dedicada a Brent Hinds)

41. Crystal Skull

42. Black Tongue

43. Megalodon

44. More Than I Could Chew

45. Crack the Skye

46. Steambreather

47. Blood and Thunder

Foto: Thayz Figueiredo 


The Gathering no Temple Stage: nostalgia e nova dimensão sonora

Também consegui assistir apenas a um trecho do show do The Gathering, no Temple Stage, mas foi o suficiente para entender por que tanta gente fazia questão de estar ali. A banda holandesa reuniu sua formação clássica com Anneke van Giersbergen para celebrar os 30 anos de Mandylion, álbum que marcou não apenas a história do grupo, mas também toda uma geração do metal atmosférico.

O repertório foi uma verdadeira viagem aos anos 1990, com músicas como "In Motion #1", "Leaves", "Strange Machines", "Probably Built in the Fifties" e a belíssima "Sand and Mercury". Tudo conduzido pela voz de Anneke, que continua impressionando pela potência, sensibilidade e pela facilidade com que emociona o público.

Em meio a tantos riffs pesados, pirotecnia e rodas de mosh espalhadas pelo Hellfest, o The Gathering ofereceu algo completamente diferente. Seu doom melódico, misturado a elementos de shoegaze e rock progressivo, criou uma atmosfera contemplativa e quase hipnótica, funcionando como um respiro no meio da intensidade do festival.

Mesmo tendo assistido apenas a parte da apresentação, foi um daqueles shows que deixam vontade de ver completo na próxima oportunidade.


Setlist The Gathering (Temple Stage) — Hellfest 2026: 

1. Mandylion(Snippet)

2. Eléanor

3. Fear the Sea

4. In Motion #1

5. Probably Built in the Fifties

6. Sand and Mercury

7. On Most Surfaces (Inuït)

8. Leaves

9. Strange Machines

10. Saturnine

Foto: Thayz Figueiredo 


O que fica do Dia 19 de junho:

Cheguei da viagem direto para o Hellfest, então o primeiro dia acabou sendo uma verdadeira maratona. No fim das contas, não consegui ficar até o fim do show do The Gathering, porque já estava bem cansada, mas, sinceramente, nem precisava. As horas que passei em Clisson já fizeram a viagem valer a pena.

O dia foi uma mistura perfeita de nostalgia e celebração. Teve o peso da turnê de despedida do Sepultura, os 40 anos do Helloween, os 50 anos do Iron Maiden e ainda tempo para esbarrar em apresentações memoráveis de Mastodon e The Gathering. E, de quebra, uma surpresa: descobrir que talvez eu até goste do Sabaton (ao vivo, com certeza gosto).

Mas, se existe uma imagem que resume esse dia para mim, é "Kaiowas". O Sepultura representando o Brasil em um dos maiores festivais de metal do planeta, foi daqueles momentos que dão orgulho de acompanhar a cena brasileira.

Se esse dia já entregou tudo isso, eu mal podia imaginar o que ainda estava por vir.

O dia 20 vem aí, e já posso adiantar que o nível continuou altíssimo. 


Agradecimento a produção do Hellfest pelo credenciamento e atenção

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