Destaques

Translate

25 de setembro de 2026

HELLSINKI METAL FESTIVAL 2026 — DOIS DIAS SOB O CÉU DO NORTE

Foto: Sigryd Bagon



Por Giovanna Marques

Fotos gentilmente cedidas por Sigryd Bagon / A Ilha do Metal 


No dia 7 de agosto de 2026 aconteceu o primeiro dia da quarta edição do Hellsinki Metal Festival (HMF), o festival de Metal realizado na tradicional arena de hóquei no gelo de Helsinki (Para ler a cobertura do Hellsinki Metal Festival 2025 clique aqui), e mais uma vez a equipe do Big esteve presente nesse festival que, aos poucos, está se tornando uma lenda viva dos festivais nórdicos.

Existem festivais que tentam agradar a todos. E existem festivais que entendem que um público de Metal não precisa exatamente ser agradado, precisa somente ser alimentado.

O Hellsinki Metal Festival pertence claramente à segunda categoria.

Em sua quarta edição, o HMF montou uma programação focada no Metal Extremo, mas teve espaço para todo mundo (dentro do Metal, claro). Vimos veteranos do Heavy Metal clássico, instituições do Death Metal, cultuados nomes do Black Metal, monstros do Metal Progressivo e novas forças da música pesada finlandesa, todos misturados em um delicioso caldeirão. O resultado foi um fim de semana que pareceu menos um festival convencional e mais uma viagem guiada por várias décadas de música extrema.

Foto: Sigryd Bagon


Seguindo o formato dos anos anteriores, o festival contou com três palcos e, como já mencionei diversas vezes antes, muitos shows e eventos acontecem ao mesmo tempo, sendo impossível cobrir todos os shows. Por causa desse fator concomitante, a programação produziu alguns confrontos maravilhosamente cruéis: Paradise Lost contra Horna, por exemplo, além das inevitáveis escolhas entre os grandes espetáculos ao ar livre e o material mais sombrio acontecendo dentro do Ice Hall, como uma exposição dedicada, a Dark Art Gallery, que apresenta artes visuais underground e inspiradas no Metal, além de fotografia, instalações e trabalhos artesanais.

Na nossa terceira participação no festival, decidi focar dessa vez inteiramente nas bandas, já que anteriormente mostrei um pouco das variadas atrações que acontecem no festival.


SEXTA-FEIRA, 7 DE AGOSTO — OS DEUSES ANTIGOS DESPERTAM

Sol brilhando na capital finlandesa, muita animação e, como de costume, inúmeros transeuntes ao redor do Jäähalli (arena de hóquei da capital finlandesa), vestindo preto e merch de bandas de todos os backgrounds de Metal.

O primeiro dia foi uma demonstração daquilo que o Hellsinki Metal Festival faz melhor. O palco principal carregava o peso dos nomes internacionais já estabelecidos na cena, enquanto o segundo e o terceiro palcos mantinham um fluxo constante de bandas finlandesas e nomes do underground extremo.

A programação começou com os finlandeses do Horizon Ignited abrindo as atividades do Palco 02. A banda de Death Metal Melódico também flerta com o Metalcore e tem como principais temas de suas músicas a morte, depressão, apocalipse e mitologia nórdica. Um show com muita energia pra deixar o público preparado para o que ainda estava por vir.

Foto: Sigryd Bagon

Foto: Sigryd Bagon


Em seguida, fomos para o Palco Principal 01 para a primeira atração internacional dessa edição: os suecos do Unleashed. Sem muitas firulas, o show foi direto e reto: quarenta e cinco minutos de Death Metal sueco à moda antiga. A banda mostrou que, mesmo sem a vontade ou necessidade de cada vez aumentar a densidade técnica e virtuosismo, continua sendo lenda e considerada uma dos “BIG Four” da Suécia.

Foto: Sigryd Bagon


Continuando no Palco 02, chegou a vez do Omnium Gatherum representar uma das tradições mais fortes do Death Metal Melódico finlandês. Com um show com muita melodia, agressividade e solos do queridíssimo do Metal finlandês, Markus Vanhala, a banda mostrou o porquê possui um nome de tanto peso na cena. A banda mantém sua posição na importância na cena desde praticamente sua formação em 1996 e teve seu décimo álbum de estúdio lançado em 2025, intitulado May the Bridges We Burn Light the Way.

Seguindo alguns passos para o Palco 01, era nítida a excitação do público para ver a lenda viva do Death Metal mundial: Carcass.

Se o Unleashed representou o Death Metal em sua forma clássica, o Carcass trouxe consigo a história da evolução do gênero. O Carcass ajudou a estabelecer o vocabulário grotesco do Metal Extremo, apenas para passar as décadas seguintes demonstrando que aqueles mesmos músicos também eram capazes de escrever Metal Melódico extremamente afiado.

Para quem não está familiarizado com a história da banda, Jeff Walker e Bill Steer fizeram história no Metal ao serem os primeiros a utilizarem termos técnicos da medicina em letras extremamente asquerosas. A irmã de Jeff Walker na época estudava enfermagem e possuía um dicionário médico que descrevia anomalias e detalhados sistemas de putrefação da carne humana, por exemplo. Ao invés de utilizar termos já conhecidos no mundo fictício do terror, os caras fizeram história adotando termos técnicos e reais da anatomia humana de uma forma extremamente repulsiva para o mundo do Metal. O mais legal de tudo, na minha humilde opinião de vegetariana há mais de 23 anos, é saber que o jeito em que a banda descreve a podridão da carne é uma sátira ao consumo de carne de animais pelos humanos, já que, na vida real, ambos eram vegetarianos e veganos fofíssimos e preocupados com adoção de gatinhos. Pure Legends!

A banda mostrou que, mesmo depois de 30 anos de carreira, continua entregando Metal Extremo de primeiríssima qualidade e técnica. Simplesmente imperdível.

Seguindo rumo ao Palco 02, chegou a vez de assistir o nome crescente do Metalcore finlandês: Ikinä.

Trazer o Ikinä pro HMF faz parte de uma daquelas decisões tomadas pela produção que a maioria dos atendentes vê como duvidosas e que, no final, funciona muito bem. Essas decisões normalmente envolvem trazer sangue novo na cena para um festival majoritariamente composto por bandas já bem estabelecidas na cena. E, no final, foi uma das decisões de programação mais interessantes do festival: colocar uma banda capaz de mudar completamente a paleta emocional diretamente ao lado de Death e Black Metal.

O Ikinä fez história com o single Jumalatar, lançado em março de 2025, que reuniu 18 vocalistas femininas da cena do Metal finlandês, e assistir duas vocalistas gritando a plenos pulmões enquanto uma delas exibe uma barriga enorme de gestação foi, sem dúvida, muito energizante e empoderador. A banda também trouxe o coral de mulheres intitulado The Choir of Hecate para as primeiras algumas canções e o coro era simplesmente de arrepiar durante os refrões.

Foto: Sigryd Bagon

Foto: Sigryd Bagon

Foto: Sigryd Bagon


Em seguida, foi novamente hora de dar alguns passos para voltarmos ao Palco Principal 01 para a apresentação do supergrupo Bloodbath. Formado por Martin Axenrot (ex-Opeth), Anders Nyström (ex-Katatonia) e Nick Holmes (Paradise Lost) nos vocais, o grupo já passou por inúmeras mudanças de line-up. Ainda assim, permanece aquela sensação de que Bloodbath funciona como uma segunda banda, um tipo de válvula de escape, e um espaço em que seus integrantes podem simplesmente se divertir e colocar sua criatividade em prática, sem a pressão de seguir um schedule rigoroso de gravadoras e turnês, mas sem abrir mão da qualidade musical.

A apresentação foi seca e pesada, entregando o típico Death Metal sueco old school, sem qualquer decoração desnecessária. Uma das grandes surpresas foi ver Nick Holmes soltando seus guturais e assumindo uma postura completamente diferente daquela que costuma apresentar no Paradise Lost.

Foto: Sigryd Bagon

Foto: Sigryd Bagon


Andando novamente alguns poucos passos para chegar no Palco 02, dessa vez foi difícil chegar bem perto da banda. Já existia um grande número de pessoas esperando a próxima atração: Blackbraid.

O projeto norte-americano de Black Metal indígena acrescentou outro tom de escuridão em que eu particularmente não havia presenciado antes. Um som extremamente delicioso com elementos sonoros indígenas no norte dos EUA. A banda estava simplesmente impecável no palco, da afinação à presença de palco, passando pelos efeitos visuais e de vestimenta. Sua presença também mostrou como o HMF está cada vez mais alcançando além do circuito tradicional do Metal europeu. Sua abordagem atmosférica encaixou-se naturalmente ao lado das bandas extremas nórdicas sem simplesmente soar como mais uma cópia do Black Metal escandinavo, principalmente pelas letras muito mais “cabeças”, incluindo o genocídio de povos indígenas.

Foto: Sigryd Bagon

Foto: Sigryd Bagon


Voltando ao palco principal, era hora de uma das atrações mais aguardadas dessa edição: Black Label Society (BLS).

Particularmente, eu não estava tão empolgada para vê-los, já que vi Zakk Wylde tocando ao vivo em diversas ocasiões, inclusive com o BLS abrindo para Ozzy no Parque Antártica, em São Paulo, em 2008.

Mas a minha surpresa no HMF foi boa, e muito. Da última vez que vi Wylde ao vivo, ele parecia somente um fantasma do que havia sido: extremamente magro e sem a típica energia de foguete no palco, Wylde entregou absolutamente o mínimo no show do Pantera em Helsinki ano passado. No HMF, Wylde parecia ter rejuvenescido 10 anos, e com uma cara muito mais saudável, ele demonstrava a típica energia empolgante no palco.

Apesar da grande animação do público para as próprias músicas do BLS, o público foi realmente à loucura com as primeiras notas de No More Tears. Homenagem mais do que merecida, a versão de Wylde levantou até quem estava descansando para cantar junto e você pode conferir o vídeo nas redes sociais do Big Rock and Roll. O contraste do Black Label Society com as bandas que se apresentaram até então foi bem-vindo.

Depois de horas de Death Metal e música extrema, o peso carregado de blues e claras influências de NOLA, o Black Label Society ofereceu um tipo diferente de brutalidade: timbres gigantescos de guitarra, atitude, solos e aqueles riffs que não precisam de explicação do porquê ficam em sua mente durante dias após serem ouvidos ao vivo.

Foto: Sigryd Bagon


Após tamanho desgaste energético, era hora de uma pausa para descanso e para repor as calorias. O HMF possui uma área de alimentação muito boa, com diversas opções para todos os gostos. Eu particularmente adoro o fato de que quase todos os estandes de comida existem opções vegetarianas e resolvi escolher a minha cozinha favorita, que é a tailandesa, e maravilhosamente eles tinham o curry vegano com tofu e molho de coco, que é algo de outro mundo.

Energia reposta e baterias literalmente carregadas, era hora de correr para o palco coberto 03 e ver a interessantíssima banda chilena Mawiza.

Fundada inicialmente em 2014 sob o nome de Nunca Seremos Dichosos, a banda é originária de Wallmapu, território ancestral da nação Mapuche na América Latina, e, como a banda propriamente proclama, “Somos guiados pela preservação de nossas raízes, nossa relação com a natureza e a conservação da biodiversidade”.

A banda canta na língua Mapuzungun e, ano passado, a mesma lançou seu álbum intitulado ÜL, uma verdadeira obra de arte latina. O show foi incrível como esperado, cheio de elementos e rituais indígenas, um dos pontos altos do festival.

Foto: Sigryd Bagon


E, seguindo para o Palco Principal 01 para o headliner da noite: os alemães do Accept.

A banda, para quem não conhece, é uma lenda do Heavy Metal mundial, formada em 1976. A banda já passou por inúmeras mudanças de line-up desde então, com o único membro presente desde o início sendo o guitarrista Wolf Hoffmann.

O Accept foi peça fundamental na origem e posteriormente desenvolvimento dos gêneros de Speed Metal e Thrash Metal e, obviamente, fizeram parte fundamental na fundação do Heavy Metal alemão e responsável também por exportar o mesmo para o resto do mundo.

Durante essa turnê, a banda simplesmente estava celebrando seu aniversário de 50 anos, e o show do HMF funcionou exatamente como uma apresentação de aniversário de meio século deveria funcionar: menos uma tentativa de provar relevância e mais um lembrete de por que aquelas músicas se tornaram imortais.

E existe um prazer particular em observar uma plateia de Heavy Metal reconhecer coletivamente os primeiros segundos de uma música que é mais antiga do que muita gente presente e foi uma incrível experiência ver que esse foi o caso do Accept.

A apresentação foi uma sucessão de hits clássicos: Princess of the Dawn, Restless and Wild, Fast as a Shark, Balls to the Wall, I'm a Rebel, entre outros. Foi um momento intenso olhar ao redor e ver o local praticamente lotado e o coro cantando junto, daquelas sensações que só um festival de Metal pode proporcionar.

Foto: Sigryd Bagon


A sensação depois do show que fica é aquele vazio de ”queremos só mais 5 min”! Mas a empolgação não se acabou, pois ainda tínhamos o segundo dia de muito headbanging pela frente!


Agradecimento à produção e assessoria do Hellsinki Metal Festival pelo credenciamento e atenção. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário