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| Foto: João Zitti |
Old Man’s Child - Burning House - São Paulo/SP - 26 de setembro de 2026
Por: Rafael Cunha Procópio (@rafaelcprocopio)
Fotos: João Zitti (@joaozitti.work)
O black metal é daqueles gêneros que comportam uma miríade de filosofias, sentimentos e visões artísticas e permite, quando bem explorado, a criação de um sem-número de ramificações sonoras próprias. A estreia dos noruegueses do Old Man’s Child no Brasil e contraposição da sonoridade da banda liderada por Galder ao black metal mais tradicional dos pernambucanos do Evoked se mostrou uma ótima oportunidade para comparar como esses contrastes profanos do metal negro funcionam ao vivo e na prática.
Às 19h30, o Evoked subiu ao palco para executar o disco de estreia Warfare of the Gods na íntegra. Focado na sonoridade mais tradicional do black metal, com teclados e elementos sinfônicos mais pontuais ao longo das faixas, o som da banda é uma mistura perfeita entre o lado mais agressivo e obscuro do Mystifier e a faceta mais ritualística e performática do Miasthenia. Particularmente, já tinha visto o Diego “Sorcerer” Do’Urden algumas vezes com o Mystifier e foi possível notar que, aqui, na banda que encabeça, ele consegue explorar melhor suas linhas vocais e trabalhar os riffs incessantes de guitarra. A performance é um verdadeiro ritual negro, em que Diego evocava o público a comungar do profano black metal legitimamente brasileiro. Após a breve introdução, tocaram Sword of Abyssal Shadows, que mostrou a potência e a exímia técnica da baixista Bruna. Apesar da boa técnica de Beto Santos, que massacrou o kit de bateria sem piedade pela quase 1h do set, em algumas passagens, como em Possessed Berserk Lords of the Shadow Void, a bateria me pareceu um pouco dessincronizada da dupla de cordas – sem grandes prejuízos, todavia.
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| Foto: João Zitti |
De The Biding of the Evil One em diante, a bateria de Beto Santos entrou em completa sincronia com o resto da banda. Nessa faixa, as mudanças vocais de Diego devem ser igualmente destacadas como ponto positivo. Outros destaques pessoais meus foram a pesada e rápida Diabolic Catacomb Imprisonment; a Warfare of the Gods com teclados e guitarras estilo Emperor e cheia de guturais cavernosos; e Older Than Time Star, que me lembrou o black metal característico e inovador do Vazio. Vale notar, por fim, que a ritualística do Evoked trouxe um peso adicional à performance, permitindo ao público interagir com mais vontade com a banda durante todo o set. A maioria das músicas eram anunciadas com pompa satânica por Do’Urden e ecoadas com igual ânimo por saudações infernais no meio do público.
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Os fãs de Old Man’s Child não precisaram esperar muito para finalmente presenciar a estreia da banda em terras brasileiras. Pelos próximos 75 minutos, o público presente foi presenteado com um setlist bastante equilibrado que percorreu toda a discografia da banda com exceção do – até o momento – último lançamento Slaves of the World (na minha opinião, uma pena, por ser o melhor disco deles dentre os lançados no século XXI). Mesmo sendo usualmente comparado com o do Dimmu Borgir, ao longo dos anos o som do Old Man’s Child mostrou, a meu ver, ter mais personalidade. Sem medo de pinçar influências de outros estilos do metal, o black metal sinfônico forjado por Galder possui alma mais pulsante que o som de seus pares.
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| Foto: João Zitti |
A abertura com Towards Eternity mostrou que o vocal de Galder, que aqui tem a veia mais death metal, combina muito bem com as bases sinfônicas e a bateria de Tjodalv intercalando os blast beats tradicionais do black metal norueguês com pitadas de compassos thrash metal – sonoridade que o relógio atômico Gene Hoglan fez questão de imprimir em estúdio ao gravar o Ill-Natured Spiritual Invasion. Com isso não quero dar a entender que o som típico do estilo característico do Old Man’s Child tenha se perdido na apresentação. Muito pelo contrário, emendaram as músicas King of the Dark Ages e Doommaker, respectivamente dos dois primeiros álbuns completos, que são mais caracteristicamente black metal. Na primeira, a aura mais soturna prevaleceu, sendo que o destaque ficou para a dupla dos graves: o baixo de Elvorn, muito presente em King, dialogava perfeitamente bem com as pancadas precisas de Tjodalv. Já Doommaker foi acelerando o ritmo do show desde os primeiros segundos, com as guitarras de Cyrus e Galder em perfeita sintonia, o que permitiu mais um show à parte de marretadas de Tjodalv no monstruoso kit de bateria. As passagens com vocais mais graves de Galder fizeram um excelente contraponto com o vocal mais rasgado predominante da faixa.
Antes de tocarem mais uma do álbum de estreia (a autointitulada Born of the Flickering), a pesada e quase dançante Hominis Nocturna deu o ar da graça. A sobreposição dos teclados às linhas de guitarra, que foram as verdadeiras donas da música, reforça a tensão sonora da banda ao vivo. Essa contraposição do sinfônico somado às passagens pontuais – mais muito bem colocadas – de groove na bateria ao peso das guitarras e dos blast beats é o que há de mais belo e deliciosamente peculiar na sonoridade do Old Man’s Child. Sim! A mais escura vertente do metal extremo comporta momentos de beleza fúnebre e mais cadenciados, como a introdução de Born of the Flickering deixou claro antes de Galder soltar seus guturais mais característicos do black metal norueguês.
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A tensão entre peso e leveza, entre o horror e o belo, dialoga bem com a própria postura da banda no palco: a sonoridade do black metal é assunto sério, mas não impediu os membros da banda de demonstrarem a satisfação de poderem estrear o seu show no Brasil. Galder, como mentor e mão maestra das composições do Old Man’s Child, estava visivelmente extasiado por poder executar as suas músicas pela primeira vez aos fãs brasileiros. Com um sorriso largo, interagiu várias vezes com o público, chegando a mencionar a intenção de voltarem em breve ao país.
Seguindo com faixas mais recentes, emendaram a ótima e mais moderna The Soul Receiver – cujos teclados e guitarras quase nos fazem pensar como seria o som do Depeche Mode se, surgindo na Noruega no boom da segunda onda do black metal, flertassem com o estilo – e Twilight Damnation mostrando o perfeito equilíbrio entre a sonoridade tradicional do black metal norueguês presente nas guitarras e a variação entre cadência e agilidade da vertente sinfônica nas bases de Elvorn e, principalmente, Tjodalv.
A trinca seguinte de God of Impiety, Soul Possessed e The Dream Ghost mostrou toda a potência ao vivo da banda. O trabalho de bateria em God era hipnótico e só me fez pensar o quão brutal a música poderia ficar se os teclados com os toques sinfônicos fossem tocados ao vivo. Além disso, o vocal de Galder somado aos riffs potentes adicionou um balanço muito interessante à música. Essa dinâmica entre bateria e guitarras, em que os instrumentos dialogam em uníssono ao mesmo tempo que, logo na sequência, reforçam uma tensão sonora em direções opostas, ficou ainda mais clara em Soul Possessed, onde as guitarras têm uma melodia mais marcante ao passo que a bateria parece ser mais mecânica, quase um tambor de guerra, mas sem perder a alma.
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The Dream Ghost foi um novo show à parte, com Galder movimentando-se ainda mais pelo palco e mostrando que a velocidade e o peso são uma constante na sonoridade do Old Man’s Child e que as passagens mais cadenciadas funcionam como meios de reforçar o alto contraste desse peso. O show foi encerrado com Unholy Vivid Innocence, uma explosão sinfônica combinada com blast beats, e a excelente e operística The Millennium King.
Esse foi daqueles shows que certamente valeram a pena conferir, mostrando na prática como um bom show de black metal sinfônico deve ser realizado. Em meio à falsa pompa e aos excessos sonoros e visuais tão comuns do gênero, em sua estreia por aqui, os noruegueses focaram naquilo que importa: a música e a conexão com o público presente.
Agradecimentos especiais, mais uma vez, à Caveira Velha Produções e ao Alan Magno pelo credenciamento e parceria e à Burning House pelo acolhimento e ótima estrutura de show.
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