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| Foto: Divulgação |
Flea revisita suas origens em Honora e entrega o disco mais íntimo da carreira.
Por: Mayara Abreu
Agradecimento: ForMusic
Durante mais de quatro décadas, o mundo conheceu Michael “Flea” Balzary como um furacão de palco. Baixo pendurado na altura do joelho, torso nu, energia que parece não caber no próprio corpo. No Red Hot Chili Peppers, ele transformou o instrumento em arma rítmica, fundindo funk, punk e psicodelia como poucos.
Mas antes do Flea que domina estádios, existia o garoto Mickey, e ele segurava um trompete.
É exatamente esse reencontro que move Honora, seu primeiro álbum solo. Não é um disco “surpresa”, nem um capricho tardio. É um retorno. Um acerto de contas com a própria história.
Criado em uma casa onde o jazz era quase religião, muito por influência do padrasto, o baixista Walter Urban Jr., Flea cresceu cercado por sessões improvisadas, bebop pulsando na sala e músicos que pareciam conversar em outra língua. O jazz foi seu primeiro idioma musical.
A escolha pelo baixo veio depois. Quase como rebeldia e fuga.
Mas o trompete nunca foi embora de verdade. Ficou guardado nos bastidores de turnês mundiais, nos quartos de hotel, nos intervalos entre discos. Em Honora, ele finalmente assume o protagonismo.
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| Foto: Gus Van Sant |
Honora não soa como um “rockstar brincando de jazz”. Pelo contrário. É um trabalho cuidadoso, sofisticado e surpreendentemente contido. Flea toca com vulnerabilidade, o que é algo raro para quem sempre foi sinônimo de explosão.
Há ecos claros da cena contemporânea de Los Angeles, aquela que aproximou o jazz do groove, da psicodelia e da espiritualidade urbana. Em alguns momentos, dá para sentir a liberdade harmônica. Em outros, o balanço sinuoso que poderia conversar com Thundercat.
Mas o disco não se limita a essa estética.
A vivência de Flea atravessa tudo. O funk visceral dos Peppers. A experimentação eletrônica que explorou no Atoms for Peace, projeto liderado por Thom Yorke. A pulsação rítmica que sempre definiu sua assinatura musical. Tudo aparece, mas diluído, transformado e amadurecido.
O álbum leva o nome da bisavó de Flea, Honora. E essa escolha diz muito. O disco carrega um senso de linhagem, de memória, de pertencimento. Não é sobre provar nada. É sobre reconhecer de onde se veio.
Aos 60 e poucos anos, depois de uma carreira consolidada, Flea parece menos interessado em impacto e mais interessado em verdade, talvez esse seja o gesto mais punk de todos.
O que mais impressiona em Honora não é a técnica, embora ela esteja lá, mas sim, o silêncio, os espaços e a respiração entre as notas. Flea toca para sentir.
Para quem espera solos incendiários ou momentos grandiosos, o disco pode soar contido demais. Mas essa contenção é justamente sua força, como o som de alguém que já viveu tudo e agora escolhe desacelerar. Honora não é um desvio na trajetória de Flea. É um círculo que se fecha, é o retrato mais honesto que ele já nos entregou.
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| Foto: Gus Van Sant |
Selo: Nonesuch Records
Lançamento: 27/03/2026
Tracklist:
Golden Wingship
A Plea
Traffic Lights (feat. Thom Yorke)
Frailed
Morning Cry
Maggot Brain
Wichita Lineman (feat. Nick Cave)
Thinkin Bout You
Willow Weep for Me
Free As I Want to Be




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