Rádio Big Rock

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6 de agosto de 2018

Wacken Open Air - Resumo do último dia de festival

Foto: ICS Festival / Wacken Open Air

O último dia de Wacken Open Air começou com correria na área de imprensa: as equipes com fotógrafos só podem tirar fotos de três bandas por dia, somente nas três primeiras músicas, então a correria para se registrar é enorme. O restante de nós vai para a multidão, viver o Wacken no verão seco e quente no norte alemão. 

Um festival como o Wacken Open Que te dá oportunidades de vivenciar desde as bandas mais mainstream do mundo metal nos maiores palcos, até fazer descobertas nos palcos menores, não maiores do que um Roça’n’Roll em Minas Gerais ou o Bar Opinião em Porto Alegre. 
Uma dessas surpresas para mim nem foi o grupo japonês Lovebites, a primeira banda do palco W.E.T. às 11:25 da manhã. O que me levou ao show foi o fato de que a banda é a única de todo o line-up do festival a ser composta somente por mulheres. Nightwish, Arch Enemy, Epica e Leave’s Eyes estão entre as bandas que colocam uma mulher no papel central, enquanto o Ghost tem duas mulheres como instrumentistas. Em um momento da história da humanidade onde se fala cada vez mais de igualdade entre gêneros, opções sexuais e povos, a presença do Lovebites se torna muito importante. 

Foto: ICS Festival / Wacken Open Air


Cheguei um pouco receoso ao show, visto que tanto J-Pop quanto K-Pop são lotados de grupos formados por mulheres bonitas, mas sem muito conteúdo. Temia que o grupo fosse algo nesse sentido. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar a tenda Bullhead City Circus cheia para receber as cinco artistas vestidas de branco e salto alto fazendo a melhor versão japonesa do Power metal característico da Alemanha e da Finlândia.  Promovendo seu segundo EP, Battle Against Damnation, lançado em junho após o disco de estreia Awakening from Abyss, de 2017, fizeram um belo show, ainda que curto, como é normal nesse palco à essa hora. Destaque para a baixista e líder Miho, que cantou e pulou o show todo.

Saí do palco W.E.T. querendo comida e água (o calor era tanto que cerveja não resolvia) e dei de cara com a Metal Yoga rolando na tenda Welcome to the Jungle. Sim, a coisa é tão maluca quanto parece: a galera no chão fazendo ioga ao som de metal instrumental e a professora de yoga dando as instruções no melhor gutural death metal possível - só não me juntei para a sessão, pois ainda tinha uma outra curiosidade do Wacken 2018, o Full Metal Gaming, na ESL Arena.

Foto: ICS Festival / Wacken Open Air

A ESL (sigla originalmente para Electronic Sports League) é a maior organizadora e produtora de torneios de eSports, basicamente competições de jogos de video-game e computador em nível profissional. Pela primeira vez houve uma tenda da ESL no Wacken. Lá era possível participar de torneios de jogos como League of Legends, PLayerunknown’s Battlegrounds, Street Fighter e o jogo de realidade virtual Tower Tag. Tudo isso ainda com o nono palco do festival (embora com muito menos apresentações do que os outros).

Hidratado e com um lanche de bratwurst no estômago, parti para o Wintersun, do multi-instrumentista finlandês Jari Mäenpää (ex-Ensiferum). Apesar do forte componente sinfônico em seu death metal (em alguns refrões, a banda quase soa como Blind Guardian com guturais), não há tecladista, com a parte sinfônica sendo feita em playback. Isso acaba aumentando o componente metal da banda para apresentações ao vivo. Com Jari fazendo apenas o papel de vocalista no palco, a felicidade de estar de volta ao WOA após 12 anos era palpável nele, que chegou a filmar pedaços do show utilizando o seu próprio celular. E quando uma banda está empolgada no palco, empolga também quem assiste.

O Alestorm é uma banda que, se você olhar pelas capas dos discos, irá achar que se trata da versão Piratas do Caribe do Rhapsody of Fire. Não poderiam estar mais errados: ninguém que leva um patinho de banheira gigante para o palco da Meca do Metal mundial se leva a sério. Se tem alguma dúvida, apenas escute “Mexico” ou “Fucked with an Anchor”.
Junto com o Alestorm no palco Faster, começava no palco Louder o Knorkator, que eu duvido que você leitor já tenha ouvido falar (a não ser que more na Alemanha). Eles misturam heavy metal (muitas vezes puxando para o industrial), mas com muito falsetto e com muito humor negro. O show é um caos. O vocalista principal Stumpen (nome verdadeiro Gero Ivers) é um yin-yang humano: vestido com uma cueca brilhante azul, daquelas que erguem o “documento” masculino, ele tem a metade esquerda do corpo tatuada de preto, com alguns símbolos deixados em branco. Na metade direita do corpo, as partes que ficam sem tatuagem no lado esquerdo são tatuadas. O tecladista Alf Ator (Alexander Thomas), que também faz vocais mais graves quando necessário, é a segunda parte maluca da banda. O caos se segue com teclados tocados com os pés, vocalista entregando o microfone para a platéia (para desespero dos seguranças), vocalista pedindo para o público carregar um fã nas cadeiras de roda (prontamente atendido, também para desespero dos seguranças). Eles se perdem tanto nas brincadeiras e imprevisibilidade que faltou tempo para uma música no bis e tiveram que decidir na hora qual fazer. E a música de quando a banda agradece o público é o tema de “Jeannie é um Gênio”. Divertidíssimo (se você tem um mínimo de conhecimento de alemão).


Foto: ICS Festival / Wacken Open Air


Na última parte da jornada que foi a minha quinta-feira, no ônibus entre Itzehoe e Wacken, conheci dois mexicanos e um deles me falou que ia participar em uma encenação no show do Cemican. O nome não me era estranho, mas nunca ouvi parado para prestar atenção na banda, que faz uma mistura de heavy metal com instrumentos tradicionais astecas e cantadas majoritariamente em náuatle (você sabia que “chocolate” vem do náutle “chocolatl”, às vezes escrito “xocolatl”?) e algumas vezes em espanhol. Tocar no palco Wackinger é um desafio pois quem para por ali é por que se interessou pelo som. O Cemican conseguiu atrair bastante atenção com o visual indígena e som único. Uma grande descoberta.
Mais difícil que tocar no palco Wackinger é tocar no palco do Biergarten (ou Beergarden, em inglês, “jardim da cerveja” em tradução direta), já que todo mundo está ali pra beber e não escutar música. O Blechblos’n tocou lá todos os dias do festival, tocando músicas típicas da região da Baviera e fazendo versões bávaras de clássicos de pop e rock, incluindo “It’s raining men”, com o vocalista vestido de mulher. Vi, peguei uma cerveja de trigo e voltei para o metal.
Ou melhor, para o glam, com o Steel Panther, que apesar de ter o primeiro disco lançado em  2009, emula com perfeição e exageros o glam rock dos anos 1980. Com as calças coladas coloridas, perucas e bandanas, as letras são de humor e o instrumental é extremamente competente. Confesso não ter gostado de algumas brincadeiras feitas no palco com mulheres da platéia que foram convidadas para subir. Quase terminando, ainda fizeram um cover de “You really got me” do The Kinks - embora mais puxado para a versão do Van Halen nos anos 1980. E dedicaram “Death to all but metal” (“Morte para todos que não são metal”, em tradução livre) para Justin Bieber.

Foto: ICS Festival / Wacken Open Air


A dificuldade de chegar perto do show do Nightwish no dia anterior me deixou preocupado para a noite do sábado em Wacken - o dia mais lotado do festival. Aproveitei o intervalo antes do Arch Enemy para me posicionar estrategicamente entre os palcos Faster e Harder, de onde conseguiria ver bem tanto a banda da cantora Alissa White-Gluz quanto as lendas do metal alemão Helloween.
Voltando ao Wacken depois de gravar lá um disco ao vivo em 2016, o show da banda sueca de melodic-death metal teve muitas músicas presentes daquele disco, com a adição de três músicas do novo disco “Will to Power” de 2017. Ficou de fora o single “Reason to Believe”, primeira música da história da banda a ter vocais limpos além dos característicos guturais - uma característica que a atual vocalista Alissa já havia demonstrado quando era frontwoman do The Agonist e em suas participações em discos e shows do Kamelot. A canadense do cabelo azul tem o controle total do público, agora acostumada com a difícil missão de substituir Angela Gossow, que parou de cantar em 2014 para ficar com a família, mas que trabalha como manager da banda.

Aí veio o Helloween. Se a gente comparar shows no Wacken com partidas de futebol, é mais ou menos assim: tocar no palco Wasteland é ser o Panamá na Copa do Mundo, ninguém vai prestar muita atenção, mas você está feliz por estar lá; tocar no Wackinger, do outro lado, é começar perdendo de 1 a 0. Com sorte, você empata e até vira, e chama atenção de quem não estava interessado. No W.E.T. e no Headbanger você está um pouco isolado dentro de um circo, mas está no 0 a 0, com boas chances de vitória. Tocar no Faster ou no Louder é começar ganhando de 1 a 0, mas de olho na outra partida. E no Harder (ou no Faster depois que o Louder acaba) é praticamente começar ganhando de 3 a 0. 
Aí o Helloween começou com o jogo já ganho: 5 a 0, tendo só o segundo tempo´pra jogar e o outro time com 3 jogadores expulsos. Explico: o Helloween está na sua turnê Pumpkins United (“abóboras unidas”), que reúne a formação atual com o ex-vocalista Michael Kiske e o ex-guitarrista e ex-vocalista Kai Hansen, todos cantando músicas de suas fases na banda, às vezes participando em músicas de outro vocalista e sendo a única banda do festival a fazer um show de 2 horas e meia. Não tinha como dar errado!
A única coisa que quem estava próximo ao palco notou foi a gripe do vocalista Michael Kiske (confirmada pelo mesmo em alemão), que tossia longe do microfone ou saía do palco várias vezes durante solos de guitarra. Por isso deixou a maior parte da conversa para o atual vocalista Andi Deris e jogou muitos refrões agudos para o público, que não se importou de cantar - eu mesmo saí muito rouco. O final com balões alaranjados e com o símbolo da banda durante a última música, “I Want Out”, fez todo mundo pular e voltar a ser criança (incluindo este que os fala).

Foto: Jair Cursiol Filho

Infelizmente por questões de tempo, não consegui acompanhar mais do que as duas primeiras músicas do Dimmu Borgir e nem o In Extremo, que fechou a noite dos três palcos principais do último dia de Wacken Open Air em 2018.

Conclusão: Meu primeiro Wacken Open Air foi sensacional e é uma aventura que eu indico a todos os nossos leitores - vale à pena. Se prepare para muito sol (ou muita lama se chover), mas muito metal. E bota muito nisso. Sempre tem pelo menos três bandas tocando ao mesmo tempo. Das 11 da manhã até as 3 da manhã, são 15 horas ininterruptas do melhor que o metal mundial tem a oferecer.

Nota: Peço desculpas ao amigo leitor se a sua banda favorita acabou ficando de fora, são mais de 150 bandas em 4 dias de festival - quase 40 por dia!


Ouça a playlist com as melhores músicas que o Big Rock viu e ouviu no Wacken:
https://open.spotify.com/user/jcursiolf/playlist/0EJSZgVh9f8NWoy01NKpYn?si=1s4OXSqxSOOfFW7H88ktLQ


Por: Jair Cursiol Filho

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