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Foto: João Zitti |
Angra, Viper e Azeroth - Tokio Marine Hall - São Paulo/SP - 03 de agosto de 2025
Por Alexandre Veronesi
Fotos: João Zitti (@joaozitti.work)
O ano era 2004, e eu, no alto dos meus 15 anos de idade e sendo um 'rockeiro médio', certo dia ouvi, em uma famosa Rádio Rock da região de São Paulo, uma música que prontamente me causou grande encanto e fascinação. A despeito do meu parco conhecimento à época, notei que era uma 'power ballad' ao estilo Heavy Metal, e o cantor tinha algumas similaridades com Bruce Dickinson, muito embora não fosse o ícone britânico, claramente. Então, logo após a rodagem, o locutor da rádio anunciou que a canção apresentada era "Wishing Well", oriunda do novo álbum da banda ANGRA, então recém-lançado, "Temple Of Shadows". Não muito tempo depois, por ter comentado sobre o episódio, ganhei o disco de presente de uma antiga namorada, e sinceramente, me lembro como se fosse ontem que, assim que cheguei da escola, pus a bolachinha no aparelho de som e apertei o play, tudo, absolutamente TUDO mudou: aquilo era diferente de qualquer coisa que eu já havia escutado. Intrincado, poderoso, cheio de camadas. Sim, eu já conhecia e gostava de Iron Maiden, Metallica, Ozzy Osbourne, Black Sabbath, e talvez um pouquinho de Judas Priest e Sepultura, mas este foi o meu batismo de fogo particular, a verdadeira entrada de cabeça no universo do som pesado.
Mais de 20 anos após os acontecimentos relatados acima, estive no Tokio Marine Hall (tradicional casa de eventos localizada na Zona Sul da capital paulista), realizando a cobertura do último show do ANGRA antes do previamente anunciado hiato, no qual foi executado o "Temple Of Shadows" em sua totalidade, possivelmente pela derradeira vez por Rafael Bittencourt e sua trupe - para deixar claro, não estou insinuando que a banda não retornará da pausa, e sim, que acho bastante improvável algum dia voltarem a apresentar a íntegra do álbum em questão.
A primeira atração a subir ao palco do Tokio Marine na noite foi o AZEROTH. Na ativa desde 1995, o sexteto argentino, composto hoje por Ignacio Rodríguez (vocal), Pablo Gamarra (guitarra), David Zambrana (guitarra), Fernando Ricciardulli (baixo), Daniel Esquivel (bateria) e Leonardo Miceli (teclado), traz aquela sonoridade Power Metal clássica oriunda da escola europeia, e mesmo sem apresentar grandes inovações, vem investindo em sua internacionalização - inclusive regravando trabalhos no idioma inglês - e mostrou-se altamente competente e enérgico. O coeso repertório, de aproximadamente 35 minutos, foi calcado nos dois últimos registros, "Beyond Chaos" (2019) e "Trails Of Destiny" (2025), com exceção de "La salida", música extraída do 'debut album', "Azeroth", lançado no ano de 2000. Esbanjando técnica, boa presença de palco e um vocal limpo com altíssimo alcance, os 'hermanos' agradaram em cheio à grande parte do público, que neste momento ainda adentrava a casa aos poucos.
Setlist:
01 - Left Behind
02 - Ancient Trail
03 - Falling Mask
04 - La salida
05 - Beyond Chaos
06 - Trails Of Destiny
Na sequência, veio o VIPER. O grupo, que dispensa maiores introduções, e utilizou-se da ocasião especial para gravar um vindouro material ao vivo, iniciou sua apresentação com a recente e sólida "Under The Sun", sucedida por 2 memoráveis clássicos de seu catálogo, "To Live Again" e "A Cry From The Edge", ambas do "Theatre Of Fate" (1989), que bastaram para aquecer a até então morna audiência. Atravessando fase completamente excepcional, especialmente quando falamos do quesito 'ao vivo', Leandro Caçoilo (vocal), Felipe Machado (guitarra), Kiko Shred (guitarra), Dani Matos (baixo) e Guilherme Martin (bateria) entregaram aqui uma performance de altíssimo nível, além daquele clima descontraído de sempre, mostrando que a banda segue 'azeitada' e com muito sangue nos olhos, o que ficou nítido em canções como "Dead Light", "Soldiers Of Sunrise" (porrada há muito ausente dos shows), "Coma Rage" (entrando no lugar de "Coming From The Inside", que constava no setlist impresso), "Timeless" (segunda e última representante do mais recente disco na noite) e "Prelude To Oblivion".
Foto: João Zitti |
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"The Spreading Soul" foi responsável por uma enorme comoção, carregando um belíssimo dueto entre Dani e Leandro, enquanto o telão central ostentava orgulhosamente uma foto de Andre Matos e Pit Passarell, os 2 grandes guerreiros caídos do VIPER. Já adentrando a reta final, "Living For The Night" fez a majoritária parte dos presentes cantar a plenos pulmões, e ir à loucura quando Rafael Bittencourt foi convidado ao palco para fazer parte da execução deste que é, incontestavelmente, um dos maiores hinos do Heavy Metal brasileiro. Como é de praxe, o quinteto finalizou a sua atuação com a elétrica e indispensável "Rebel Maniac", totalizando assim, aproximadamente, 60 magníficos minutos de show.
Setlist:
01 - Under The Sun
02 - To Live Again
03 - A Cry From The Edge
04 - Dead Light
05 - Soldiers Of Sunrise
06 - Coma Rage
07 - The Spreading Soul
08 - Timeless
09 - Prelude To Oblivion
10 - Living For The Night
11 - Rebel Maniac
Foto: João Zitti |
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Por volta das 20h45, os avisos de segurança do Tokio Marine Hall que ecoavam nos PA's serviram como o prenúncio da atração principal. Após uma climática introdução, entraram em cena Fabio Lione (vocal), Rafael Bittencourt (guitarra), Marcelo Barbosa (guitarra), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria), dando o pontapé inicial por meio de "Nothing To Say", uma escolha simplesmente perfeita para a abertura. "Millennium Sun", canção extraída do icônico "Rebirth" (2001), encaixou-se perfeitamente aos poderosos vocais de Lione, logo dando lugar à "Tide Of Changes", completa com suas 2 partes, uma das melhores músicas do último (e ótimo) registro, "Cycles Of Pain" (2023), na qual as marcantes linhas de baixo de Andreoli se fazem os principais destaques.
"Deus Le Volt", a faixa de abertura do já citado "Temple Of Shadows", preparou o público para o iminente mote central da apresentação. Para aqueles que, assim como este que vos fala, tem o álbum referido como um de seus prediletos, o que se sucedeu foi um verdadeiro nirvana: "Spread Your Fire", "Angels And Demons", "Waiting Silence", Wishing Well" e "The Temple Of Hate"... que sequência matadora! Após a execução da complexa e maravilhosa "The Shadow Hunter", tivemos a participação da talentosíssima Vanessa Moreno em "No Pain For The Dead", reproduzindo a voz feminina originalmente gravada por Sabine Edelsbacher (Edenbridge) com desenvoltura ímpar. "Winds Of Destination" então veio avassaladora, dando lugar à "Sprouts Of Time" - a minha particularmente 'menos favorita' do trabalho, digamos assim - "Morning Star", e finalmente, "Late Redemption", linda e melancólica, com Bittencourt fazendo as vezes de Milton Nascimento nos trechos cantados em português. Em meio a isso tudo, ainda rolaram divertidas intervenções do frontman italiano, que deu uma palhinha de "Bohemian Rhapsody" (Queen) junto com a plateia, além de um emocionante discurso de Rafael a respeito da trajetória e futuro do ANGRA, feito de maneira forte e altamente positiva - até porque, a 'vibe' entre os integrantes é excelente, com certeza existe muito companheirismo e amizade ali. Outro ponto legal a se destacar é que, no momento do anúncio dos integrantes, houveram também as devidas dedicatórias e agradecimentos à toda a equipe que trabalha com a banda, dos roadies ao empresário, que naturalmente são peças fundamentais da engrenagem.
Foto: João Zitti |
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Com os caminhos já levando aos momentos finais do set, Vanessa Moreno retornou para dividir os microfones magistralmente com Fabio Lione em "Rebirth", e na sequência, o quinteto cometeu "Angels Cry", prestigiando os admiradores 'das antigas', que eram numerosos no local. É claro que a memória do lendário Ozzy Osbourne também se faria valer, e assim a banda tocou "No More Tears", que muito embora não combine em nada com a voz do 'mago', valeu como uma bonita homenagem. Por fim, como sempre precedida pela intro "Unfinished Allegro", recebemos "Carry On", o hino máximo do ANGRA, que após os solos teve "Nova Era" emendada, extraindo dessa forma as últimas gotas de energia de cada um dos presentes.
Terminada a apresentação, a banda permaneceu ainda por bastante tempo no palco, arremessando palhetas, baquetas etc. e interagindo com os fãs, em uma clara demonstração de emoção e respeito para com aquele momento, pois todos sabiam que seria o último por um tempo indeterminado. Tinha de ser especial, e assim o foi.
Setlist:
01 - Nothing To Say
02 - Millennium Sun
03 - Tide Of Changes - Part I
04 - Tide Of Changes - Part II
05 - Spread Your Fire
06 - Angels And Demons
07 - Waiting Silence
08 - Wishing Well
09 - The Temple Of Hate
10 - The Shadow Hunter
11 - No Pain For The Dead
12 - Winds Of Destination
13 - Sprouts Of Time
14 - Morning Star
15 - Late Redemption
16 - Rebirth
17 - Angels Cry
18 - No More Tears [Ozzy Osbourne]
19 - Carry On
20 - Nova Era
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Apesar do significativo atraso ocorrido no início, a produção trabalhou o cronograma com exemplar fluência, fazendo com que o evento acabasse em um bom horário - pouco após às 23h - o que possibilitou ao público retornar com tranquilidade, mesmo em se tratando de um domingo.
Agradecimentos à Top Link Music pelo credenciamento e a MM Assessoria de Imprensa e Tokio Marine Hall atenção.
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