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30 de maio de 2026

Album Reviews: Paul McCartney - The Boys of Dungeon Lane (2026)

 

Foto: Divulgação


Por: Jair Cursiol Filho


A equipe da Big Rock foi convidada pela Universal Music Brasil, gravadora de Sir Paul McCartney, para a festa de lançamento de "The Boys of Dungeon Lane" no último 28 de maio, um dia antes do lançamento mundial do disco. O evento foi feito em parceria com a 89 FM, a Rádio Rock, e aconteceu na filial brasileira do Cavern Club, que abriu em São Paulo em dezembro passado. Mas esse artigo aqui não é sobre o evento em si - afinal, é um evento para ouvir um disco - mas sobre o disco.

"The Boys of Dungeon Lane" é o 20º álbum de estúdio da carreira solo de Paul, ou 27º se contar os Wings, ou 32º se contar os de música clássica, ou 35º se contar de música eletrônica... nem a Wikipedia se entende com a contagem, quem dirá este que vos escreve. O fato é: Paul McCartney aos 83 anos é uma máquina de compor músicas. E seguir o maravilhoso "McCarney III" de 2020 não é fácil. Para isso, Paul contou com o jovem produtor Andrew Watt (35 anos), que já produziu Lady Gaga, Elton John, Rolling Stones, Ozzy Osbourne, Pearl Jam, entre outros, além de ser guitarrista da banda solo de Eddie Veder.

Audição novo álbum de Paul McCartney
Foto: Jair Cursiol Filho


Dungeon Lane é uma pequena rua em Liverpool, perto do aeroporto John Lennnon, onde Paul ia ver pássaros quando era jovem. A rua fica em Speke, bairro onde Paul e George viviam nos tempos pré-fama (o L24 da capa é o "CEP" do bairro). Inclusive, é a rua onde dois garotos roubaram o relógio de Paul quando crianças e agora foram imortalizados no nome de um disco. O título vem de parte da letra de "Days We Left Behind", primeiro single do álbum - embora Paul deixe claro em entrevista a Zane Lowe do Apple Music (veja no Youtube em https://youtu.be/v-SY9ZKM5mw?si=hS4xAqqbFfVnU17C) que o significado se expande para todos daquela região (incluindo ele e George) quando fala na música: "veja os garotos da rua Dungeon / pela margem do rio Mersey / alguns deles sentirão dor / mas outros eram destinados a mais".

É um disco que tanto Zane Lowe quanto o ator Paul Mescal (veja no YouTube em https://youtu.be/IxK5wkZ_scg?si=FB8qGNMT4HdACSYV) apontam que é o primeiro em que Paul olha para o passado de maneira tão direta. Há algo em "The Boys of Dungeon Lane" que não existia em "McCartney III" ou seus antecessores diretos, "Egypt Station" (2018) e "New" (2013). "McCartney III" é um produto direto de Paul sozinho nos primeiros meses da pandemia de COVID, tocando todos os instrumentos. Neste, temos Paul gravando com Watt esporadicamente entre 2021 e 2025, variando entre seu estúdio pessoal na Inglaterra e o estúdio de Watt em Los Angeles - na casa que já foi de Charlie Chaplin.

Agora coloque o disco no YouTube, Spotify, Apple Music, Amazon Music e venha conosco: 

Amazon Music: https://music.amazon.com.br/albums/B0GTNJJ8LY

Apple Music: https://music.apple.com/br/album/the-boys-of-dungeon-lane/1887402919

Deezer: https://link.deezer.com/s/33p0vQ7teSX486LvnRV2q

Spotify: https://open.spotify.com/album/34Sh6TOqfsrPSeXPBRGRAM?si=RDsLnDF9Rsugfm7HFbgCUQ

YouTube: https://youtu.be/bLRV8hRRUHo

Foto: Mary McCartney / MPL Communications


Este período de 5 anos de gravações permite notar a facilidade com que a voz de Paul foi de alguém ainda com potência, vista na excelente faixa de abertura "As You Lie There", até o Paul com uma voz bem mais fraca de hoje em "Down South". Como Paul contou em conversa com o Amazon Music (disponível na versão track-by-track do álbum em https://music.amazon.com.br/albums/B0H35QYXBC), esta foi feita em uma primeira seção com Watt, ainda sem pensar em um disco. Paul queria tentar algo mais falado, e se lembrou de um crush de quando era adolescente. Uma menina chamada Jasmine, para quem ele nunca falou que gostava, mas que ele via pela janela de um bloco residencial perto de sua casa de infância na rua Forthlin em Speke. É curioso que após mais de 60 anos de carreira Paul ainda ache coisas que quer fazer! E a música maravilhosamente alterna entre a parte falada e um rock com vocal rasgado que eu acho que ele não consegue mais fazer ao vivo. Mas é ótimo que tenha feito um dia. Está lá, imortalizado.

O disco passa para "Lost Horizon", música que Paul revela que estava pronta em fita DAT (tecnologia utilizada pela Sony entre 1987 e 2005) e que Paul simplesmente esqueceu que existia. Quem lembrou foi o já falecido engenheiro de som Eddie Klein, que trabalhou com os Beatles em Abbey Road e, posteriormente, ajudou a construir o estúdio caseiro de Paul em Sussex. A música estava completamente escrita e composta, o trabalho foi apenas regravar nos dias atuais. Aqui podemos notar a voz de Paul já mais envelhecida, mais baixa na mixagem. É um disco em geral mais falado, com menos alterações de tom.


A maravilhosa "Days We Left Behind" segue o tema de lembranças pré-fama. É um Paul introspectivo, concluindo que os dias que deixamos para trás jamais serão apagados. É o Paul McCartney de "Blackbird", de praticamente violão e voz, como só ele sabe fazer.

"Ripples in a Pond" deixa as coisas mais animadas, com uma batida mais pop atual. Sinceramente, sozinha a música é melhor que o disco mais recente do Coldplay inteiro ou qualquer coisa que o U2 fez nos dois EPs que lançou este ano. É uma música de amor para Nancy Shevell, esposa de Paul pelos últimos 15 anos. E tem até o detalhe fofo de que, de acordo com a Billboard (https://www.billboard.com/lists/paul-mccartney-every-track-the-boys-of-dungeon-lane/ripples-in-a-pond/) na festa de lançamento em LA Paul passou a música olhando para Nancy e cantando partes como "I love you more than I ever did before" ( "te amo mais do que eu jamais amei antes") para ela. Quero chegar aos 83 assim.

Coloque "Mountain Top" e eu te desafio a não te lembrar de "Penny Lane" ou "Lucy in the Sky With Diamonds" nos primeiros 30 segundos. É o Paul de "Sgt. Peeper's"  ou "Magical Mistery Tour" no seu melhor. Até o final completamente aleatório e desconexo te lembrará dessa época. Seria um clássico se feito lá atrás.

"Down South" volta a lembrar dos dias pré-fama, quando Paul e George faziam viagens de carona (algo comum na época) para o sul do Reino Unido, em especial País de Gales e a região de Exeter na Inglaterra. Aqui é só Paul e violão. Despido de qualquer truque de produção ou corais que escondam a voz. É o mais bruto que dá para ter. É Paul abraçando a idade e fazendo o melhor dela. Me faz duvidar da sanidade daqueles que criticaram apresentações ao vivo recentes do artista em TV americana por não conseguir atingir as notas de Help, que gravou em 1965 aos 22 ou 23 anos. Óbvio que não será igual. Mas há uma beleza e uma serenidade aqui que não havia lá atrás. Vamos abraçar isso ao invés de criticar algo que chegará apenas para queles que tiverem sorte de chegar a essa idade com essa vitalidade!

"We Two", sétima música, é um documento histórico de uma época que não volta mais. Foi feita por Andrew e Paul utilizando um gravador de quatro pistas Studer que Paul resgatou de Abbey Road em 1979 quando a EMI foi comprada por uma empresa chamada Thorn Electrical e o dono quis se livrar dos equipamentos do estúdio. Os Beatles usaram gravadores de quatro pistas durante vários discos do início da carreira, e precisava usar uma técnica chamada "bouncing down" para gravar mais do que quatro instrumentos. Nela você gravava quatro instrumentos nos quatro canais do Studer e juntava duas ou mais (como baixo e bateria) em uma para liberar espaço. O detalhe desta técnica é que, uma vez feito o bouncing down de baixo e bateria, não havia como voltar atrás. Não tinha como mixar de maneira diferente ou separar os dois instrumentos de volta. E assim foi gravada "We Two", nesta máquina, com esta técnica. Em mais de um evento Paul mencionou que ele e Watt tem orgulho do som da caixa nesta gravação, algo que é característico das fitas de 1 polegada utilizadas para gravar no Studer e que é muito difícil de se reproduzir digitalmente.


"Come Inside" é o terceiro single, tendo seu clipe lançado junto com o disco em 29 de maio. Se você ainda duvida que existe um rockeiro ali dentro, esta é a resposta. Paul introduz ela como: “É basicamente um rock. Não tenho muito o que dizer sobre isso. Apenas dê o play.” E é isso. Para ouvir e repetir muito.

"Never Know" é Paul tentando algo que ele chamou de "Laurel Canyon vibe dos anos 70". Ao Amazon Music ele até menciona os Eagles. Como o review da Variety (https://variety.com/2026/music/news/paul-mccartney-listening-session-album-dungeon-lane-ringo-1236724612/ ) apontou sobre a listening party de LA, nem todo mundo concordou com a vibe ser essa. Eu sinceramente não sei sobre se vibe anos 70, muito menos sobre parecer Eagles, mas é uma gema que caberia com certa facilidade na parte mais experimental da discografia dos Beatles. É aquela música que cada nova audição te apresenta algo novo, e sempre tem algum detalhe que você não tinha percebido.


E aí você para para analisar que Paul e Ringo fizeram 13 discos juntos como Beatles e uns 50 discos solo (de novo, nem a Wikipedia sabe direito), e nunca haviam feito um dueto em 65 anos de carreira. "Home to Us" resolve esse problema. E é o mais perto que teremos de uma reunião dos Beatles. Ringo havia feito uma jam no estúdio de Watt, ainda sem uma música. E Paul foi lá e escreveu a música por cima, com o tema de que Liverpool nos anos 1940 e 1950 não era o melhor lugar do mundo, mas era a casa deles, era tudo o que tinham e era bom assim. É engraçado que Paul e Ringo inclusive não entenderam o que o outro queria sobre essa música, mesmo depois de tanto tempo. Paul enviou a letra e uma gravação guia para Ringo, que entendeu errado e devolveu apenas uma gravação cantando o coro. Paul então achou que Ringo não tinha gostado da música. Precisou uma ligação telefônica para os dois octogenários (Ringo tem 85!) se entenderem e o resultado foi esse dueto que não tem nenhum remorso de ser uma excelente música dos anos 1960 gravada no século errado. Obrigado Paul e Ringo!

"Life can be Hard" foi criada durante o COVID enquanto Paul e Nancy estavam passando parte do lockdown com uma sobrinha de Nancy que tinha um bebê. Paul compôs a música lá e deixava o bebê bater nas cordas do violão todos os dias. Acabou virando a música da família. E, apesar do título dizer que a vida pode ser difícil, a letra na verdade é repleta de esperança. Imagine ser esse bebê e crescer sabendo que um dos maiores compositores da humanidade fez uma música para você?

"First Start of the Night" é Paul começando reclamando de um dia chuvoso na Costa Rica e depois olhando o positivo da primeira estrela da noite. É talvez a música mais esquecível do disco.

A vantagem é que depois dela vem "Salesman Saint", que é a primeira música que fala diretamente sobre seus pais, James "Jim" e Mary Patricia McCartney. Paul já havia homenageado sua mãe em "Let it Be" e seu pai no disco "Kisses on the Bottom". Mas é a primeira vez que a homenagem é tão direta. Seu pai foi um músico nos anos 1930 e também um vendedor (o "salesman" do título), além de bombeiro nos anos 1940, enquanto a mãe era uma enfermeira, que durante a segunda guerra eram chamada de santas (a "saint" do título). A letra foca nas dificuldades de Jim e Mary criando crianças enquanto lidavam com os desastres da guerra enquanto Liverpool era bombardeada: Jim apagando incêndios e Mary cuidando dos feridos. Há até um pedaço onde tempos de 3/4 e 4/4 ocorrem ao mesmo tempo, onde Paul quis evocar música africana.

O disco fecha com "Momma gets by", cujo título pode fazer inferir que é de novo sobre a mãe Mary. Mas neste caso, McCartney explica que é mais como a famosa "Lady Madona", uma história que ele criou da cabeça. Escrita do ponto de vista do filho de um caso com problemas, mas ela o ama do mesmo jeito, com todos os problemas. É triste, melancólica, mas de alguma maneira, otimista.

Para os completistas, como eu, existe uma faixa adicional na versão vendida no iTunes: a versão demo de "First Star of the Night".

Ao fim, é um disco gostoso de ouvir, extremamente sólido, com algumas gemas que teriam mais reconhecimento se lançadas outrora. É um disco melhor que os já citados "Egypt Station" e "New", ficando provavelmente no mesmo nível de "McCartney III" - ainda que os pontos fortes de um sejam diferentes dos pontos fortes de outro. Aqui é Paul abraçando a idade, olhando para trás com positividade, sem nunca deixar de olhar para o futuro. Duvida? Ele já tem músicas compostas e até temas salvos no celular para caso seja convidado para fazer a trilha sonora de algum filme! Alguém pelo amor de tudo o que é sagrado ache um diretor de cinema para fazer isso acontecer!

O mundo precisa de mais obras assim, dele, de Ringo (que lançou recentemente o ótimo "Long Long Road"), dos Rolling Stones (que lançarão o disco "Foreign Tongues" em julho), e de outros artistas com 70+ ou 80+, com alma, ao invés do material pasteurizado que tem assolado o YouTube, o Spotify e mídias sociais.




Paul McCartney - The Boys of Dungeon Lane

Data de lançamento: 29/05/2026

Gravadora: Capitol Records / Universal Music

Nota: 8.5/10



Tracklist:

1. As You Lie There
2. Lost Horizon
3. Days We Left Behind
4. Ripples in a Pond
5. Mountain Top
6. Down South
7. We Two
8. Come Inside
9. Never Know
10. Home to Us (with Ringo Starr)
11. Life Can Be Hard
12. First Star of the Night
13. Salesman Saint
14. Momma Gets By

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