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| Foto: Rogério Talarico |
Lucifer - Hangar 110 - São Paulo/SP - 29 de abril de 2026
Por: Rafael Cunha Procópio (@rafaelcprocopio)
Fotos: Rogério Talarico (@rogeriotalarico)
O mês de abril foi marcado pela forte competição do público de rock e metal, com dois grandes festivais, seus side shows e mais muitos outros shows “solos”. Certamente chegar ao final de um mês como esse é sempre um desafio considerável para qualquer banda, mas não foi (de modo algum) impeditivo para os europeus do Lucifer entregarem todo o potencial de seu arsenal sonoro no Hanger 110. Encerram o mês de abril e a sua terceira passagem pelo Brasil em altíssimo nível!
Antes do ato principal, pontualmente às 20h, os paulistas do Space Grease subiram ao palco para azeitar (com o perdão do trocadilho) os ouvidos do público que já preenchia espaço considerável da casa. Vê-los ao vivo foi como descobrir que os artesãos do feudo são também exímios bardos e dominam a arte da boa música da mesma forma que dominam a alta confecção. Afinal, eu sabia que a vocalista Ju Ramirez e o guitarrista Franco Ceravolo eram os mentores da marca Sabot, mas ainda não havia parado para ouvir a banda de que fazem parte com a devida atenção. Com um setlist bastante focado em músicas ainda não lançadas e que integrarão o seu disco cheio de estreia, a banda mistura de forma bastante equilibrada elementos de rock psicodélico, hard rock bluseiro setentista, acid rock e stoner com pitadas deliciosas de percussão latina (tocada ao vivo por Lucas Melo).
| Foto: Rogério Talarico |
Relativamente nova na cena, ao vivo, mostraram desenvoltura no palco, transmitindo ao público o magnetismo dessa fusão sonora. Representam bem a nova safra de bandas que aposta no revival dessa sonoridade setentista, na linha de nomes como Graveyard, Blues Pills, Kadavar, Three Seasons, Blood Ceremony e mesmo Lucifer, mas aqui é como se bandas da estirpe de Black Sabbath, Iron Butterfly, Jimi Hendrix Experience, Cream, Jefferson Airplane e 13th Floor Elevators tivessem viajado no tempo e caído de paraquedas em Palm Desert para uma comunhão em projeção astral com Kyuss, Fu Manchu, Monster Magnet, Queens of the Stone Age da velha guarda, além de precursores brasileiros desse stoner ácido setentista (de quando tudo era mato) do MQN, Black Drawing Chalks e Hellbenders.
A interação entre os instrumentos e o modo como todos conseguem explorar as diferentes nuances foi certamente o destaque da banda. Greystone, que abriu o set e com uma sonoridade bastante influenciada por Graveyard, por exemplo, elevava o ritmo aos poucos, fazendo com que o público fosse adentrando a bruma sonora de forma confortável. Na sequência, Wrong Way trouxe um tom mais místico e contemplativo, com destaque para a percussão. Can’t Hide foi a mais bluseira da noite, com uma pegada que me evocou bastante o som do Three Seasons, sendo a representante solitária do EP de estreia deles, de mesmo nome. Blue Bird brincou bastante com a variação de ritmos dentro do mesmo som, começando de forma mais enigmática e contida, seguida de um crescendo sonoro que, por fim, desembocou em uma explosão sonora muito guiada pelo baixo marcante de Antônio Carlos (Tonhão) e pela bateria energética de Henrique Bitencourt. Já Lose Control, primeiro single do novo disco, trouxe uma sonoridade hard/blues em que a interação entre a voz de Ju e a guitarra de Franco é o foco principal da canção, mostrando a bela sinergia do casal – sem deixar de lado os ótimos fills de bateria de Henrique, bem na leva da escola do Blues Pills. Por fim, Cheap Drugs e My Enemy quase que seguiram o caminho inverso, iniciando com o blues mais pesado, que vai pouco-a-pouco se fusionando até transformar o som mais etéreo e espacial. Tudo isso em pouco mais de 30 minutos de apresentação!
Com uma rápida troca de palco, às 21h, o sistema de som do Hangar 110 deu o tom do ritual de anjos caídos que se seguiria ao tocar a clássica introdução dos shows do Lucifer, em que Johanna Platow (ou eu sempre achei que fosse ela, apesar de não ter evidências concretas) anuncia o poder e a energia feroz e fantástica de demônios, a possibilidade de controlá-la com círculos mágicos e o encontro desses seres. Johanna é uma Suma Sacerdotisa que foi iniciada nas missas satânicas do conciliábulo de Jinx Dawson, que, assim como a sua Anciã estadunidense, tem pleno controle sobre o palco, o público e o andamento do ritual musical. Dessa vez, com uma banda totalmente reformada, ela me pareceu ainda mais à vontade e teatral no palco. Sabendo que a performance teatral tem quase igual importância que a entrega vocal, a sacerdotisa alemã esbanjou magnetismo e carisma, interagindo com o público com muita desenvoltura.
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| Foto: Rogério Talarico |
A sua voz – sou suspeito para falar – continua impecável como sempre. E com essa nova formação, que trouxe um peso adicional às músicas do repertório, o atropelo sonoro do show foi o equivalente às mitológicas caçadas selvagens nórdicas. A abertura com Anubis, primeiro single lançado pela banda, mostrou que dão orgulho à prolífica safra de bandas inspiradas pelos pais do doom Black Sabbath e pelos demais que os seguiram de perto, como Pentagram, Witchfinder General, Saint Vitus e Candlemass, e que o doom metal não só pode, como deve, ser tocado alto, bem e com muito peso e energia. A dupla germano-sueca de guitarras formada por Coralie Baier e Max Eriksson tem uma química invejável ao vivo e as palhetadas iniciais reforçou o clima denso do macabro ritual que tomaria conta do espaço pela próxima hora. A forma como os seus riffs e solos conversaram desde a primeira nota deixa qualquer um boquiaberto, além de deixarem espaço para o show à parte que Claudia González Díaz deu com seu baixo Rickenbacker deliciosamente distorcido, os vocais de apoio potentes e a hipnotizante dança constante. Todo o peso instrumental é “contraposto” com a melódica voz de Johanna que só pode ter sido confeccionada com o mesmo veludo negro de sua capa sacerdotal.
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Seguindo com Ghosts, o destaque foi a bateria de Kevin Kuhn, que teve a árdua tarefa de substituir o ex Nicke Andersson, mas entregou uma apresentação energética e precisa nessa música que tem uma pegada mais rápida, com seguidas trocas de solos de guitarras. Com Kevin, senti que a veia metal do som do Lucifer ficou mais presente do que com o antigo portador das baquetas. Talvez a sua tatuagem do Obssessed by Cruelty explique alguma coisa. Crucifix (I Burn for You), música de comprometimento ao obscuro, mesmo à beira da fogueira, foi reforçada o coro do público, mostrando que o comprometimento entre banda e plateia é sim uma via de mão dupla e que toda performance incendiária precisa de retroalimentação desse fogo. Partindo para a um pouco mais cadenciada Riding Reaper, os riffs de abertura são explosivos e Claudia deu mais um show com passes de dança (lembrando uma versão atualizada de Glenn Hughes) e vocais de apoio afinados. O baixo explosivo ao vivo calhou muito bem nessa música de amor à Morte Ceifadora. O peso do doom dominou de vez em Wild Hearses, o clima fúnebre aqui é reforçado pelos solos “iommicos”, que combinam de forma sobrenatural com a linha de bateria, no geral mais contida. Fosse Johanna a morte que guia o carro fúnebre e canta docemente sobre a jornada final, iríamos contentes.
Durante toda a performance, com seu cabelo esvoaçante, Johanna tocava mãos, fazia breves intervenções ao microfone de forma jocosa e mostrava que nessa nova encarnação luciferiana o clima é leve e a sinergia musical flui naturalmente. Lucifer, aqui, a música, então caiu como uma luva para representar esse modo de viver deliciosamente. Logo depois, At the Mortuary abriu a trinca de músicas do disco mais recente da banda (Lucifer V), além de render o batizado profano de alguns anjos caídos selecionados com um frasco de água (espero eu que não benta) das mãos de Johanna. A tríade de músicas novas foca na relação com os mortos. At the Mortuary tem aquela levada típica do Lucifer de misturar passagens mais arrastadas, com aquela bateria bem-marcada e ritmada, intercaladas com riffs e linhas de baixo marcantes. Aqui, o vocal de Platow refletiu bem o misto de assombro e romantismo ao descobrir o amor por um morto no necrotério. O ritmo mais contemplativo e cadenciado que encerra a faixa teve continuidade em Slowdance in a Crypt, talvez a interpretação mais romântica e bela de necrofilia, com entrega vocal completamente emocional e que remonta aos clássicos do romantismo dos séculos XVIII e XIX. Por fim, a pegada mais rock setentista, com pitadas de hard, de The Dead Don’t Speak elevou o clima do ambiente, preparando o público para a música mais hard/blues, California Son, com seus riffs que remontam aos do final da década de 1970 dos conterrâneos Scorpions.
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| Foto: Rogério Talarico |
Após uma breve pausa, enquanto a banda recuperava o fôlego, Kevin Kuhn retornou ao palco um pouco antes e tocou trechos de clássicos do rock e metal, testando o conhecimento da plateia dos clássicos Run to the Hills, Crazy Train, We Will Rock You, We’re Not Gonna Take It e Living After Midnight. Ops, na verdade não! Aqui, KK já aproveitou para puxar o início de Bring Me His Head, que Johanna dedicou a “todos os exes ruins” e foi muitíssimo bem recebida pelo público, que a acompanhou em uníssono. Talvez a principal surpresa da noite veio na sequência, com o inusitado e excelente cover de Goin’ Blind do Kiss e – já soando repetitivo – que bela voz a da Johanna! O encerramento ficou por conta da sabbatheira Fallen Angel, que consolidou todos os elementos fortes do show: vocais potentes, riffs de guitarra hipnotizantes, linhas de baixo marcantes e bateria energética; deixando aquele gosto de que o círculo mágico musical ainda não deveria ser quebrado e o ritual poderia durar muito mais.
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| Foto: Rogério Talarico |
Pela energia geral no Hangar 110, apostaria que o retorno do Lucifer ao Brasil não deve demorar muito. Esse foi o terceiro pouso da banda no país em três anos em meio e o que passou por mais cidades brasileiras. Dos cinco shows que já tocaram em São Paulo, estive em quatro (só não fui ao do Bangers Open Air) e um fato é inegável: o Lucifer é uma das melhores bandas da atualidade, traz todo o peso e a melodia das raízes obscuras e ritualísticas do heavy metal, sem soar piegas ou mero mimetismo de bandas tradicionais do gênero. Ao contrário do que comumente acontece com inúmeras bandas de revival de estilos consolidados, que apenas repetem maneirismos e sons, o Lucifer certamente tem personalidade e som próprios. Temos aqui uma pupila com personalidade e grande potencial. E, por isso mesmo, os seus shows sejam tanto uma ótima porta de entrada para a banda quanto um portal alquímico para presenciar, hoje, a energia clássica do heavy/doom que nossos antepassados puderam presenciar outrora nos primórdios do gênero que tanto amamos.
Agradecimentos especiais à Tedesco Mídia e Xaninho Discos pelo credenciamento e ao Hangar 110 pelo acolhimento e ótima estrutura de show.











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