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| Foto: Giovanna Marques |
Por Giovanna Marques
Fotos: Giovanna Marques (@giovanna.marques.media)
Existem bandas que vivem da nostalgia. Outras, poucas, conseguem transformar décadas de carreira em combustível para continuar criando. O Deep Purple pertence definitivamente ao segundo grupo.
Na noite de 12 de junho, a Nokia Arena, em Tampere, na Finlândia, recebeu uma das maiores instituições da história do rock mundial, e o que se viu foi muito mais do que uma celebração de clássicos: foi a demonstração de que, mesmo após quase seis décadas de estrada, o Purple ainda tem muito a contribuir.
Quando as luzes se apagam e as imagens começam a tomar conta dos gigantescos telões da arena, o tradicional som ambiente que antecede o espetáculo desaparece. O clima de expectativa toma conta do público. Era a hora de receber as lendas.
Sem rodeios, a banda abre a noite com a eterna "Highway Star", e a reação da plateia é imediata. A energia explode logo nos primeiros acordes. Entretanto, a primeira impressão não foi totalmente positiva.
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| Foto: Giovanna Marques |
Ficou evidente que Ian Gillan já não possui o alcance vocal que eternizou sua voz nos anos 70. Aos 80 anos, seria irreal esperar que o cantor reproduzisse os agudos de clássicos gravados há mais de cinquenta anos. Ainda assim, foi difícil assistir à música inteira com agudos esganiçados e fora do tom, além de o som estar totalmente abafado, o que acabou prejudicando a execução da música de abertura
Felizmente, a situação mudou rapidamente.
Já em "A Bit On the Side", do álbum =1 (2024), tanto a mixagem quanto a própria performance vocal pareciam muito mais equilibradas. Ficou claro que as composições mais recentes foram concebidas respeitando a atual extensão vocal de Gillan, permitindo que sua interpretação brilhasse pela emoção e pela experiência, e não pela necessidade de competir com o próprio passado.
Essa impressão ficou ainda mais evidente nas excelentes "Arrogant Boy" e "Diablo", do recém-lançado Splat! (2026). Nessas músicas, ouvimos novamente a voz marcante e tao adorada de Gillan em toda sua beleza, agora explorando nuances diferentes daquelas que fizeram dele uma referência absoluta do hard rock.
A atual turnê europeia obviamente existe para divulgar Splat!, mas talvez seu maior mérito esteja justamente na maneira como o repertório foi construído. Em vez de depender exclusivamente dos sucessos dos anos 70, o Deep Purple intercala com naturalidade músicas inéditas e faixas recentes com clássicos imortais, demonstrando uma confiança rara em sua produção contemporânea.
É uma atitude admirável. Poucas bandas com quase 60 anos de carreira conseguem subir ao palco acreditando tanto nas músicas que acabaram de lançar quanto naquelas que mudaram a história do rock.
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Musicalmente, o grupo permanece impressionantemente sólido: Ian Paice continua sendo o motor da banda. Seu groove permanece inconfundível e sua precisão impressiona até mesmo quem acompanha sua carreira há décadas. Roger Glover segue formando, ao lado do baterista, um dos encaixes mais consistentes da história do hard rock, sustentando cada música com elegância e firmeza.
Já Don Airey transforma seu tradicional solo de teclado em um verdadeiro espetáculo à parte: Virtuosismo, irreverência e uma comunicação constante com o público fazem de sua participação um dos pontos altos da apresentação.
Entretanto, para mim, o grande destaque da noite foi Simon McBride.
Vinte e três anos depois da última vez em que vi o Deep Purple ao vivo — durante a turnê de Bananas, em São Paulo — foi impossível não prestar atenção naquele que assumiu uma das posições mais difíceis do rock: substituir dois gigantes como Steve Morse e Ritchie Blackmore.
McBride não tenta imitá-los.
E talvez seja justamente esse o segredo de seu sucesso.
Sua abordagem respeita completamente a identidade das músicas, mas acrescenta uma personalidade própria. Seu timbre mais pesado, agressivo e carregado de blues contemporâneo injeta uma energia renovada em clássicos como "Highway Star", "Space Truckin'" e "Smoke on the Water", sem jamais descaracterizar as composições originais. É uma substituição que hoje parece absolutamente natural.
Outro grande acerto da noite foi o setlist. Construído de maneira extremamente inteligente, o repertório alterna momentos históricos como "Lazy", "When a Blind Man Cries", "Space Truckin'", "Smoke on the Water", "Hush" e "Black Night" com faixas recentes e até mesmo o resgate de "Rapture of the Deep", ausente dos palcos havia muitos anos e recebida com entusiasmo pelos fãs mais dedicados.
Essa combinação impede que o espetáculo se transforme em uma simples coleção de sucessos. O show ganha dinâmica, surpreende e mostra uma banda confortável tanto com seu passado quanto com seu presente.
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| Foto: Giovanna Marques |
No fim das contas, foi exatamente essa a maior sensação deixada pelo concerto em Tampere.
O Deep Purple já não precisa provar absolutamente nada para ninguém.
Ian Gillan demonstra naturalmente as limitações impostas pela idade. Em alguns momentos, faz pequenas pausas durante a apresentação, e os discretos tremores nas mãos acabam despertando reflexões inevitáveis sobre quanto tempo essa formação ainda permanecerá na estrada. Mas nada disso diminui a grandeza do espetáculo.
Pelo contrário.
Cada música executada transmite a sensação de que estamos diante de artistas que continuam fazendo aquilo que amam, sem recorrer apenas ao peso da própria história.
Envelhecer no rock não significa apenas sobreviver ao tempo. Significa continuar criando, continuar emocionando e continuar encontrando motivos para subir ao palco noite após noite.
Foi exatamente isso que o Deep Purple entregou em Tampere.
Que venham muitas outras turnês!
SetList:
• Highway Star
• A Bit on the Side
• Hard Lovin' Man
• Into the Fire
• Arrogant Boy
• Lazy Sod
• Lazy
• When a Blind Man Cries
• Diablo
• Rapture of the Deep
• Space Truckin'
• Smoke on the Water
Encore
• Guinnesis
• Hush
• Black Night
Agradecemos imensamente à ProPromotion pelo credenciamento e parabenizamos toda a equipe pela excelente organização e pelo enorme sucesso do evento.






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