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11 de setembro de 2026

De Papo Com: Bülent Ceylan

Foto: Stefan Heilemann


BÜLENT CEYLAN: “NÃO SOU APENAS COMEDIANTE, PARA A DORO TAMBÉM SOU UM CANTOR DE METAL”


Por: Cintia Seidel

Agradecimento: Napalm Records 


Com o segundo álbum, BLMT, artista alemão transforma sua paixão pelo metal em música, unindo peso, crítica social, humor e emoção. Em entrevista à Big Rock N' Roll, Bülent Ceylan fala sobre a parceria com Doro Pesch, suas influências, o desafio de ser levado a sério como músico e revela o desejo de tocar no Brasil.

Conhecido na Alemanha por sua carreira como comediante, Bülent Ceylan encontrou no metal uma maneira de expressar uma faceta que faz parte de sua vida há décadas. A paixão pela música pesada, que começou ainda na adolescência com o grunge e o rock, ganhou novos contornos nos últimos anos e hoje ocupa um espaço cada vez mais importante em sua trajetória artística.

Após o primeiro trabalho voltado ao metal, Ceylan chega ao segundo álbum, BLMT, um registro que carrega seu próprio nome de maneira criativa e também traduz a intenção de fazer música com identidade e propósito.

Em entrevista à Big Rock N' Roll, conduzida por Cintia Seidel, o artista falou sobre o novo álbum, a colaboração com Doro Pesch, a necessidade de provar sua seriedade como cantor, suas referências musicais e o sonho de apresentar seu trabalho para o público brasileiro.


“BLMT” é mais do que um título

O nome do novo álbum nasceu de uma tendência de retirar as vogais das palavras. Ceylan explica que “BLMT” representa seu primeiro nome, Bülent, e acabou se encaixando perfeitamente no conceito do trabalho.

Eu queria fazer um álbum com o qual realmente pudesse me identificar — não simplesmente algo que soasse bem, mas algo que tivesse uma mensagem”, explica.

Essa preocupação com autenticidade percorre todo o disco. Para Ceylan, a música precisa representar aquilo que ele é e aquilo em que acredita.

Foto: Stefan Heilemann


A parceria com Doro Pesch

Um dos momentos mais importantes de BLMT é a participação de Doro Pesch. A relação entre os dois, porém, não começou no estúdio.

Ceylan conheceu Doro através do circuito de festivais e relembra outro momento marcante de sua trajetória: em 2011, tornou-se o primeiro comediante a se apresentar no palco principal do Wacken Open Air. Naquele ano, Ozzy Osbourne era o headliner.

Foi algo especial, porque ninguém sabia como o público reagiria a um comediante. Mas eles sabiam que eu gostava de metal e de música pop e que realmente vivia isso”, conta.

Com o tempo, Doro percebeu que a relação de Ceylan com o metal ia muito além do humor. Quando ele começou a cantar, surgiu o convite para interpretar a balada “Wolfsherz” ao lado da cantora.

Para mim, foi como receber um título de nobreza. Doro é internacionalmente conhecida e, ao mesmo tempo, é uma pessoa extremamente calorosa. Quando ela diz: ‘Você não é apenas comediante; para mim, você também é cantor de metal’, isso significa muito para mim.


O desafio de ser levado a sério como músico

A mudança de perspectiva não acontece automaticamente quando um artista já possui uma carreira consolidada em outra área. Para Ceylan, esse é justamente um dos desafios de sua trajetória musical.

Em outros países talvez seja até mais fácil, porque as pessoas não me conhecem tão bem. Aqui na Alemanha, algumas pensam: ‘Ele está tirando sarro da gente ou está falando sério?’”

Segundo ele, o segundo álbum ajuda a deixar clara sua intenção.

A Doro e o Michael Rhein, do In Extremo, de certa forma abriram ainda mais essa porta para mim: ‘Levem-no a sério’.

Para Ceylan, o fato de o humor fazer parte de sua identidade não diminui a seriedade com que encara a música.

Foto: Stefan Heilemann


Um sonho chamado Brasil

Quando perguntado sobre seus objetivos como músico, Ceylan aponta para algo que já experimentou na comédia: conquistar um público cada vez maior.

Meu sonho é alcançar com a música algo parecido com o que alcancei na comédia: um público cada vez maior.

O artista também gostaria de levar sua banda para palcos maiores na Alemanha, mas existe um objetivo especial fora de seu país.

Seria incrível poder tocar algum dia no Brasil.”

A barreira da língua, segundo ele, também não precisa ser um problema. Ceylan cita o Rammstein como exemplo de que cantar em alemão pode, inclusive, despertar ainda mais a curiosidade do público internacional.

Talvez uma língua diferente torne isso ainda mais interessante para o público.

Apesar de cantar atualmente em alemão, ele não descarta experimentar outros idiomas no futuro. O inglês, especialmente, aparece como uma possibilidade.

Também consigo me imaginar fazendo uma música em inglês, como a Doro.”


Autenticidade acima de tudo

As letras de Ceylan são desenvolvidas em parceria com o compositor e letrista Martin Fliegenschmidt. As ideias, porém, partem em grande parte do próprio artista e de temas que considera importantes.

Entre eles está sua posição contra o racismo.

Precisa ser autêntico, combinar comigo e realmente ser ‘eu’. Não posso cantar sobre algo que nunca vivi ou que não sinto.

Ceylan acredita que consegue transmitir emoções em inglês, mas reconhece que outras línguas exigiriam dedicação e prática.

Em qualquer língua vale a mesma coisa: praticar, praticar, praticar.”


Da paixão pelo grunge ao metal

A relação de Ceylan com a música pesada começou antes mesmo de ele se definir como um metalhead. O ponto de partida foi o grunge, especialmente o Pearl Jam e o álbum Ten, lançado em 1991.

Comecei com grunge: Pearl Jam, Eddie Vedder e o álbum Ten. Isso foi em 1991/92.”

Na adolescência, vieram Rage Against the Machine, Nirvana e outras referências do rock, até que seus gostos caminharam para sons ainda mais pesados.

O Type O Negative também teve um papel importante, inclusive na construção de seu visual.

Peter Steele era enorme, musculoso e, claro, tinha uma aparência impressionante. Quando eu era jovem, achava aquele visual e aquela música muito legais. Com meus cabelos longos e pretos, eu também vivia um pouco aquilo.”

Essa identidade acabou sendo incorporada também à sua carreira na comédia.

Como comediante, também me apresentei como o ‘comediante do metal’, justamente para ser diferente.

Foto: Divulgação 


O metal ajudou a construir o comediante

Para Ceylan, sua paixão pelo metal nunca esteve separada do restante de sua trajetória artística. Pelo contrário: a música pesada acabou contribuindo para a construção de sua própria identidade como comediante.

O metal inclusive me ajudou na minha carreira na comédia.”

Durante muito tempo, entretanto, ele não encontrou o caminho para transformar aquela paixão em uma carreira musical.

Eu sempre quis fazer música metal, mas durante muito tempo não encontrei o caminho certo para ter uma banda e conhecer as pessoas certas.”

Nos últimos anos, isso mudou.

Agora eu realmente vivo isso. As pessoas dizem que, quando canto as músicas no palco e me entrego, dá para perceber que estou realmente me divertindo.


Um álbum que vai do peso à emoção

Ceylan afirma gostar de todas as faixas de BLMT, mas escolhe “Ein Hoch auf die beschissenen Zeiten” como uma espécie de hino pessoal.

A música é uma balada cujo título traz uma ironia: como brindar aos tempos ruins?

Para o artista, justamente os momentos difíceis podem revelar o que realmente importa.

É justamente nos momentos ruins que você descobre quem são seus amigos. Quem liga quando você está mal? Quem está ao seu lado?

Por isso, ele acredita que até os períodos difíceis podem ensinar algo.

Depois da tempestade e da chuva, aprendemos novamente a valorizar o sol.

Outra faixa mencionada por Ceylan é “Leck mich Tag”, que aborda, com humor, a pressão que as pessoas exercem umas sobre as outras.

Você tem que fazer assim, vestir-se assim, por que essa tatuagem, por que esse cabelo, por que você fala desse jeito? Muitas vezes as pessoas acham que sabem quem você é só porque olham para você. Isso não é verdade.”

A mensagem, portanto, é simples: sentir-se bem sendo quem você é.

As pessoas sempre vão ter algo a dizer.”

Foto: Stefan Heilemann


Diversidade também faz parte do metal

A participação de Doro Pesch em uma balada chegou a provocar uma reação curiosa de parte do público, que considerou a música suave demais para o metal.

Ceylan, no entanto, enxerga justamente aí uma das maiores forças do álbum.

Eu considero justamente a diversidade do álbum algo importante. Há coisas pesadas, mas também celebração, profundidade e emoção. Tudo isso sou eu.

Para ele, a identificação do público é o maior indicador de que a música cumpriu seu papel.

Quando alguém diz ‘foi exatamente assim que eu senti’, então meu objetivo foi alcançado.”


No palco, não existe botão de voltar

A preparação para a turnê traz um desafio diferente daquele que Ceylan enfrenta na comédia.

Na comédia, posso improvisar se esquecer uma frase. Na música é diferente: a guitarra começa, a bateria entra — e não existe botão de voltar.

A performance ao vivo, segundo ele, exige outra forma de concentração.

No palco, é preciso animar as pessoas, se divertir e viver aquilo. Claro que sempre ficamos nervosos e torcemos para a voz aguentar. Mas vou dar tudo de mim.”

Para preservar a voz, Ceylan conta com aquecimento, exercícios e acompanhamento profissional.

Tenho um vocal coach, com quem treino regularmente. Tento ser disciplinado.”

Durante a turnê, ele também reduz o consumo de álcool para preservar a voz e a energia.

Se preciso estar a todo vapor no dia seguinte, viro um verdadeiro ‘roqueiro do chá de camomila’.”


“Sepultura, claro!”

Ao falar sobre o Brasil, Ceylan não hesita quando o assunto são bandas brasileiras de metal.

Sepultura, claro! Eles são incríveis.”

O músico destaca tanto a formação clássica quanto a atual, com Derrick Green, ressaltando a força e a postura crítica da banda.

Eles também são políticos e críticos socialmente. Quando você olha com atenção para as letras, é realmente impressionante.”

A admiração pelo Sepultura reforça a conexão entre o artista alemão e uma das bandas mais importantes da história do metal brasileiro.

E, enquanto Ceylan continua ampliando sua trajetória musical na Alemanha, fica a expectativa para que o desejo de tocar no Brasil deixe de ser apenas um sonho.

A conversa termina com uma promessa de reencontro em Essen, onde Cintia pretende acompanhar um dos shows do artista. Bülent também deixou a porta aberta para um encontro pessoal e uma foto nos bastidores.

A entrevista pode ter terminado, mas a história de Bülent Ceylan no metal está apenas ganhando novos capítulos.

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