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| Foto: Divulgação/ @seisumseisum |
Entre as ruínas da antiga Tecelagem Parayba, em São José dos Campos (SP), a Manger Cadavre? encontrou o cenário para o videoclipe de “Obsolescência Programada”, faixa do álbum “Como Nascem os Monstros”. Com imagens captadas por handycams antigas e uma estética deliberadamente inspirada na linguagem audiovisual dos anos 1990, o vídeo transforma o espaço abandonado da antiga fábrica em uma extensão visual dos temas abordados pela música.
Assista aqui:
Produzido por Gustavo Rodrigues, o clipe é dividido em duas etapas. Na primeira, um explorador percorre as ruínas da Tecelagem Parayba, em uma espécie de investigação sobre o processo que levou um dos maiores complexos industriais de São José dos Campos à obsolescência. A escolha do local estabelece uma relação direta com a própria temática da música: estruturas que um dia foram símbolo de produção e trabalho agora permanecem como vestígios de um modelo econômico ultrapassado.
Na segunda parte, ocorre uma espécie de passagem atmosférica, transportando o personagem das ruínas para o encontro com a banda. Gravadas no Hocus Pocus Estúdio, também em São José, as cenas utilizam chroma key para construir uma ambientação propositalmente artificial e perturbadora. A forte saturação das cores cria uma atmosfera tóxica, quase radioativa ou subterrânea, que dialoga com a sonoridade pesada e a textura áspera das guitarras da Manger Cadavre?.
A opção por uma estética considerada tecnicamente “ultrapassada” também faz parte do conceito do videoclipe. Para a banda, recuperar recursos e linguagens dos anos 1990 é uma forma de questionar a padronização estética provocada pelas novas tecnologias.
“A gente está vivendo uma época em que cartazes de shows estão sendo feitos com IA com uma estética padrão, clipes e filmes estão deixando de produzir efeitos materiais para usar o CGI de forma plástica, sem emoção. Fotos estão sendo tratadas com IA, fazendo correções de ‘imperfeições’ no rosto das pessoas. E a gente não curte nada disso. Retroceder para uma estética em que a tecnologia estava começando a existir nos clipes, mas em que a escolha do editor era essencial, é uma crítica à superficialidade da perfeição produzida pela inteligência que aniquila a originalidade”, comenta a banda.
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| Foto: Divulgação |
O trabalhador como produto descartável
Em “Obsolescência Programada”, a banda parte de um conceito associado à indústria e ao consumo para ampliar a discussão sobre trabalho e exploração que tem os países de terceiro mundo como colônias. A letra critica um modelo econômico baseado na produção descartável para nós, enquanto o melhor é exportado, no consumo compulsório e na exploração da mão de obra barata. Nesse contexto, a obsolescência deixa de atingir apenas objetos: o próprio trabalhador passa a ser tratado como uma peça substituível.
A música também aborda o medo do desemprego e a insegurança provocada pela possibilidade constante de substituição. A crítica ganha novas camadas diante das transformações recentes nas relações de trabalho, marcadas pela precarização e pela perda de direitos.
“Em época de pejotização, em que boa parte dos trabalhadores não possui direitos e garantias sociais, a insegurança é algo constante no dia a dia. A letra dessa faixa possui algumas camadas, que somam essas três linhas de interpretação”, explica Nata, vocalista da Manger Cadavre?.
A composição surgiu durante a primeira turnê europeia da banda. Nata conta que escreveu a letra enquanto estava no telhado de um prédio em Berlim, em uma experiência que acabou se transformando em uma reflexão sobre desigualdade econômica, consumo e dependência. Enquanto o instrumental estava pronto, contando com inspiração de bandas como Bolt Thrower, Carcass e o death metal dos anos 90 nas cordas e a energia do hardcore crust na bateria, a inspiração para a letra só chegou naquele momento:
“Eu tinha acabado de preparar um almoço para cinco pessoas, com ingredientes que no Brasil não teria gastado menos de R$ 200 e, lá, gastei cerca de 8 euros, o equivalente a R$ 60 na época. Quando li na embalagem da passata, que no Brasil é vendida como um molho de tomate especial e lá é simplesmente molho, que os tomates haviam sido cultivados no Brasil, aquilo me chamou atenção”, relata.
O episódio aconteceu durante um período de alta do café e de forte exportação de commodities brasileiras. Ao mesmo tempo em que se deparava com preços e condições de consumo muito diferentes das encontradas no Brasil, a vocalista também observava a qualidade e a tecnologia presentes em produtos cotidianos na Europa.
“Era a mesma época da alta do café, pois estávamos exportando tudo e tínhamos que consumir a pior qualidade do que sobrava e pagávamos caríssimo por ele. Ao mesmo tempo, eu ainda estava impactada ao ver a tecnologia e a qualidade das coisas comuns do dia a dia, que lá são absurdamente melhores que as nossas. O sentimento era de choque de realidade: nunca deixamos de ser colônia”, conclui Nata.
Lançado pela Manger Cadavre?, “Como Nascem os Monstros” é um trabalho temático que investiga diferentes manifestações do medo, atravessando questões individuais e coletivas. Em “Obsolescência Programada”, esse medo aparece associado à precarização da vida, ao desemprego e à sensação de que, dentro de um sistema baseado no descarte, pessoas também podem se tornar obsoletas.
Agradecimento: Agência 1 A 1


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