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26 de janeiro de 2026

Moloch triunfa: caos e técnica traçam o ar na estreia do Imperial Triumphant e volta do Cynic ao Brasil

Foto: Rafael Procópio 


Imperial Triumphant e Cynic - Burning House - São Paulo/SP - 16 de janeiro de 2026


Por: Rafael Cunha Procópio

Fotos: Rafael Cunha Procópio (@rafaelcprocopio)


Por aqui, iniciamos 2026 com um dos shows que já prometem ser um dos melhores do ano para os amantes do metal experimental. Com produção da Caveira Velha, a abertura da noite ficou a cargo dos novaiorquinos do Imperial Triumphant. Pessoalmente, a banda foi uma das melhores descobertas da última década, especialmente nos últimos três discos, em que a aprofundaram as experimentações jazzísticas e avant-garde, fugindo cada vez mais do black/death tradicional que marcou as primeiras incursões sonoras do grupo em sua primeira década de existência.

Com a apresentação quase chegando à marca de 1 hora, o trio deu maior destaque ao material do seu disco mais recente, Goldstar, lançado ano passado. A vinheta de abertura Goldstar, com voz e piano suaves entremeados com estática radiofônica, deu o clima inicial de estranhamento e arrastou o público para a Metrópolis futurista de 1930. Dali em diante, o caos reinou por completo. A intensidade – e altura – com que tocaram as faixas recentes Lexington Delirium e Gomorrah Nouveaux foi impressionante.

O baterista Kenny Grohowski e o baixista Steve Blanco apresentaram um domínio irretocável dos seus instrumentos, flertando com a experimentação marcante do jazz sem abrir mão do característico peso das vertentes mais extremas do death e – principalmente – black metal. As quebras de notas foram executadas com exímia precisão por essa cozinha dos infernos. O líder Zachary Ezrin apresentava igual controle sobre as seis cordas e o vocal gutural que flui através da despersonificada máscara dourada. Voltando ao primeiro disco completo, tocaram Devs est Machina, com distorção sonora e bela cacofonia a milhão.

Foto: Rafael Procópio 

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Foto: Rafael Procópio 


Toda a decadência disfarçada de opulência que permeia a imagética do Imperial Triumphant poderia muito bem ser resumida por Transmission to Mercury. Enquanto ressoam os sutis acordes introdutórios de trombone e piano, Zachary estoura uma garrafa espumante e serve a alguns fãs que arregimentavam as primeiras fileiras – coube a mim o gole final. O brinde precedeu o assalto sonoro seguinte da música, em que o trombone fica frenético e conversa desesperadamente com o baixo distorcido e a bateria impiedosamente malhadas por Steve e Kenny. Os gritos de sofrimento nos momentos finais se encaixaram perfeitamente com a música seguinte, Chernobyl Blues, mais cadenciada e carregada. Fantasmagórica como a cidade ucraniana soviética, trouxe o peso e desespero de um reator nuclear derretido à Burning House paulistana.

Encaminhando-se para a reta final, tocaram a pesada dupla Hotel Sphinx e Industry of Misery, com acordes dissonantes de guitarra e linhas de baixo perturbadoras. A segunda metade de Hotel Sphinx foi um completo deleite sonoro, demonstrando a conexão quase magnética e inumana que exala do trio, além dos sintetizadores que remetem à trilha sonora desconcertante que tinge as ações dos droogs consumadas sob o efeito de vellocet no clássico Laranja Mecânica de Kubrick. Já Industry of Misery segue pelo caminho inverso. Começando a todo vapor, é coroada com uma releitura sinistra de I want you (She’s so Heavy) dos Beatles, em que a banda se entrega completamente ao hipnotismo sonoro antes de entregar o ato final, Swarming Opulence, ao público brasileiro.

A canção do Vile Luxury fechou com chave de ouro o delírio sonoro do trio, trilha sonora digna da expressionista violência gótico-distópica imaginada por Thea von Harbou e Fritz Lang nos anos 1920. Se pelos meandros sociais pode-se questionar que o coração seja, de fato, o mediador entre a cabeça e as mãos, na última sexta, o Imperial Triumphant demonstrou ao público brasileiro que a afirmação é certamente verdadeira quando o assunto é música. Carregando a tocha avant-garde no metal extremo que foi há tantas décadas acendida por Tom G. Warrior e Martin E. Ain com o Celtic Frost, o som do Imperial Triumphant pode não ser “para todos”, mas certamente agradará àqueles e àquelas que se propuserem a encarar com coração aberto as fronteiras (muitas vezes) autoimpostas do metal. Certamente a banda conquistou novos fãs nessa primeira passagem pelo país, ainda que uma boa parcela do público parecesse estar ali especialmente para apreciar o som mais contemplativo dos conterrâneos estadunidenses do Cynic.

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 


Trinta minutos depois, Paul Masvidal subiu ao palco com a sua banda, dando início ao segundo show do Cynic em São Paulo – tendo estreado no país em 2023. Dessa vez, o setlist focou apenas nos dois primeiros álbuns da banda (Focus e Traced in Air). A abertura com Sentiment deu o tom etéreo introdutório para a apresentação, preparando o público para a viagem progressiva que os fãs presenciaram pelos próximos 70 minutos. O Cynic é daquelas bandas que fogem às amarras constritas e pré-definidas da miríade de subgêneros do metal.

Ao intercalar músicas que foram originalmente apresentadas ao público com mais de uma década e meia de diferença temporal, Masvidal e banda conseguiram equilibrar o peso de riffs de guitarra, linhas de baixo fretless e guturais rasgados característicos do death metal que remonta às origens do Cynic com as passagens mais progressivas e experimentais que flertam com o jazz, elementos que individualizaram a banda desde a sua origem, mas que acabaram prevalecendo em trabalhos subsequentes. A sequência de Integral Birth, Veil of Maya, Evolutionary Sleeper e The Unknown Guest mostrou que a banda é bastante afiada na execução de músicas com tantas variações de tempos quanto as viagens astrais do seu líder. Meu destaque individual vai para o baterista Jacob When, uma máquina precisa que assumiu as linhas do saudoso, também ex-Death, Sean Reinert à altura.

Foto: Rafael Procópio 

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Merece igual reconhecimento Derek Rydquist, responsável pelos guturais. Particularmente, achei que ele se encaixou melhor na performance das músicas do Cynic do que o outro vocalista ao vivo recorrente da banda, Max Phelps – que volta ao Brasil nos próximos dias com o Death To All. A contraposição do seu vocal mais grave com a voz clara (mas com distorção sintetizada e robótica) de Paul Masvidal reforçou esse conflito sempre presente entre claro e escuro, veloz e cadenciado, peso e respiro entre notas da música do Cynic. Adam’s Murmur seguir Celestial Voyage coroou essa dinâmica. O público brasileiro também fez bonito nos coros acompanhando várias canções.

As exceções aos discos Focus e Traced in Air ficaram a cargo da dobradinha acústica, conduzida sozinha por Masvidal de Wheels within wheels e do inusitado cover de Last Flowers do Radiohead. Os demais membros voltaram ao palco para a sequência matadora final de faixas do álbum de estreia, tocando a experimental e bela Textures, a “Death’s Human meets jazz” I’m but a Wave to..., a pesadíssima Uroboric Forms (que rendeu até um moshpit no meio da pista) e How Could I.

Foto: Rafael Procópio 

Foto: Rafael Procópio 


Com um show tecnicamente impecável e bastante emocional, ficou muito perceptível nos rostos do público, entre sorrisos largos, olhos vermelhos e um pequeno aglomerado de pessoas papeando com um Masvidal sentado no palco após o fim do set e bastante confortável com essa interação intimista, que o Cynic contemplou mais uma vez os seus fãs brasileiros.


Agradecimentos especiais à Caveira Velha Produções pelo credenciamento e à Burning House pelo acolhimento e ótima estrutura de show.

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