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| Foto: Divulgação |
Marilyn Manson encerra uma das suas principais narrativas musicais com “One Assassination Under God - Chapter 2”
Por: João Zitti
O público do metal presenciou nessa última sexta-feira, 14 de agosto, o nascimento de “One Assassination Under God - Chapter 2”, o mais recente disco de Marilyn Manson, sendo essa a segunda (e última) parte da narrativa musical e visual iniciada pelo músico em 2024. A saga de One Assassination Under God marcou o retorno do anticristo do rock aos estúdios e aos palcos após uma série de polêmicas e acusações públicas contra o artista iniciadas em 2021. As acusações passaram por uma série de reviravoltas desde então e ainda acompanham a reascensão de Manson, que também ocupa o posto de headliner de alguns festivais ao redor do mundo.
O primeiro capítulo dessa história, ainda que tenha canções mais animadas como “Sacrilegious”, possui uma atmosfera bem mais pesada e sombria de um modo geral, algo que vai desde a faixa de abertura (e quase autobiográfica) “One Assassination Under God” até outras canções como “As Sick As The Secrets Within” e “Death Is Not A Costume”. Esse disco, inclusive, se encerra com “Sacrifice Of The Mass”, música essa que é praticamente uma marcha fúnebre extremamente melancólica tanto sonoramente quanto em suas letras, com seu protagonista aceitando a morte. Ainda que com esse encerramento, o segundo capítulo se conecta muito bem com a narrativa desse disco, o que acaba proporcionando uma experiência fluida ao escutar ambas as partes juntas - resultando em aproximadamente 1h25 distribuídas ao longo de 18 faixas.
A segunda parte mantém muitos dos elementos presentes na sua antecessora, especialmente sua atmosfera mais densa. Porém, ela se destaca muito ao apresentar maiores experimentações sonoras (inclusive, transitando entre gêneros em uma canção específica, que abordaremos mais para frente) e, também, ao trazer um maior protagonismo aos instrumentos de maneira individual. O destaque na parte instrumental, inclusive, vai para Gil Sharone: as baterias normalmente são algo que não possuem um grande destaque quando pensamos na discografia de Manson (especialmente por conta da incrível variedade de guitarristas que já passaram pela banda, como o John 5 e o próprio Tyler Bates), mas nesse álbum em específico Gil consegue trazer uma presença e importância enorme do instrumento para as faixas, de forma que algumas delas são impossíveis de se imaginar sem o seu trabalho, trazendo tanto potência quanto, curiosamente, ritmo. Dito isso, vamos para o disco!
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| Foto: Gretchen Lanham |
O segundo capítulo de “One Assassination Under God” se inicia com “Unalive”, que também é o terceiro single do álbum. Ao fazer uma ponte com o disco anterior, ele acaba trazendo toda a atmosfera mais sombria de seu antecessor, mas já mostrando as diferenças que o público poderá ver no novo trabalho. Uma delas é a utilização mais pontual de efeitos de distorção sonora por parte de Manson, um recurso estético que anteriormente era utilizado de forma bem mais ampla, mas aqui se torna mais controlado. Com um excelente trabalho de guitarra (tanto em timbre quanto nos ataques que Tyler Bates cria durante os refrões e em uma das transições para a sequência final, que inclusive remete um pouco a um breakdown), Manson fala sobre ciclos de violência e autodestruição, acompanhado por simbologias que remetem ao tom mais blasfemo tão presente na obra do músico. O videoclipe, inclusive, reforça isso, mostrando um Marilyn muitas vezes deitado dentro de círculos de velas e caracterizado como uma figura mais demoníaca, repleta de adornos de crucifixos. Vale ressaltar a grande excelência técnica e imagética desse vídeo, que traz referências tanto a trabalhos anteriores do artista, como “The Nobodies”, quanto a outras obras, como o filme “Longlegs”.
Em seguida, vamos para “Don’t Answer The Door”, uma faixa que possui já um ritmo bem mais lento em comparação à anterior e com uma maior presença dos efeitos vocais comentados anteriormente. Resgatando um dos temas tão presentes em sua discografia, Manson fala sobre o contraste e a luta entre a escuridão e a luz, juntamente dos esforços e desafios de impedir que as forças externas se adentrem e tomem controle. Aqui, em alguns momentos, ocorrem algumas brincadeiras de duplo protagonismo em relação ao narrador da canção, algo que funciona bem - mas que mais para frente do álbum funcionará bem melhor e de uma maneira muito mais impactante.
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| Foto: Gretchen Lanham |
A terceira faixa do álbum, “Front Toward Enemy”, já é uma relativa conhecida do público, tendo sido o segundo single lançado e com um videoclipe que contou com a presença de um mini-Manson. A faixa, de um modo geral, é praticamente uma irmã-gêmea de “Raise The Red Flag”, tanto por suas temáticas mais combativas quanto por sua sonoridade agressiva. Diferentemente da canção do disco anterior, “Front Toward Enemy” acaba por assumir uma postura bem mais de luta direta, algo que foi muito bem amplificado pelos timbres mais distorcidos das guitarras e pelos vocais gritados de Manson no refrão, se destacando um pouco mais em relação a sua “irmã”. Aqui, inclusive, temos um dos claros exemplos do trabalho exercido por Gil Sharone, com uma bateria extremamente bem marcada ao longo de toda a canção (especialmente no momento que antecede o último refrão, fazendo uma ótima crescente de tensão) e, também, nos refrões, com batidas fortes que criam a imagem sonora quase que de disparos, algo que funciona perfeitamente pra proposta da música.
Seguimos então com “All The Vilest Things”, faixa essa que aparenta se relacionar de uma maneira bem mais clara com as experiências do cantor com as acusações públicas sofridas. Inclusive, esse segundo capítulo possui muito mais faixas cujas letras acabam por remeter de uma maneira mais direta às vivências e pontos de vista do artista em relação a esse período do que o trabalho anterior, trabalhando isso de algumas maneiras diferentes no decorrer desse disco. Ao longo de toda sua letra, Manson aborda aquilo que apresenta como os ataques sofridos ao longo dos anos, juntamente da ideia de que a pessoa pode morrer, mas a ideia (ou a figura, no caso) não, como pode ser visto em "May be time for the man to die, But you can't rob this blood bank blind". Esse conceito, inclusive, vai ser aprofundado novamente mais para frente, juntamente da ideia de dupla narração que comentei anteriormente. Sonoramente, ela acaba por trabalhar muitos elementos que remetem a “Sacrifice Of The Mass”, especialmente o contraste bastante marcado entre as partes acústicas e as linhas de guitarra - algo que a faixa foi muito bem sucedida em fazer. O único ponto que destoa, porém, são os sintetizadores utilizados no início da canção, algo que acabou destoando um pouco do resto da música e, consequentemente, enfraquecendo-a um pouco.
A metade do álbum é então marcada por “None of the Suns”, faixa essa que é definitivamente a mais destoante do disco, mas de uma maneira extremamente positiva. Com uma forte utilização de elementos eletrônicos e quase de “discoteca”, Manson cria aqui o que parece ser sua própria pista de dança, trazendo uma canção extremamente dançante e rítmica. Sonoramente, a utilização de sintetizadores (criticados na faixa anterior) encaixa de forma perfeita nessa diegese, encontrando propósito juntamente das linhas de baixo extremamente marcadas e das linhas de guitarra mais reverberadas. E claro, mais uma vez a bateria assume uma posição de destaque, reforçando o aspecto mais “dançante” da faixa ao adotar batidas rítmicas e bem menos secas. A mistura de vocais exercida por Manson aqui lidera muito bem a canção, especialmente em seus refrões, onde o cantor assume uma voz quase que 100% limpa (algo surpreendente, considerando toda a sua discografia). Com quase cinco minutos de duração, Marilyn consegue criar uma verdadeira discoteca gótica que surpreende e se mostra, com folga, como uma das melhores faixas não só desse disco, mas de ambas as partes de “One Assassination Under God”.
A sexta faixa do álbum, “Lucifer’s Teardrop”, traz o tom novamente para uma atmosfera mais sombria, porém com uma virada significativa: a adoção de mais elementos de rock e industrial, especialmente por conta da utilização dos sintetizadores (novamente, de maneira bem-sucedida) e de vocais com uma maior distorção no trecho de "We are the holy ghosted, The doomed, the damned and the unsaved". Abordando uma temática de anjo caído e quebrado (como o título dá a entender), a música é muito guiada pelo riff de notas dissonantes das guitarras, entregando uma canção que, no conjunto da obra, acaba por funcionar bem.
Em seguida, vamos para a que é a faixa mais fraca de todo o disco: “The Arsonist”. Ainda que sua temática seja promissora, trazendo um protagonista que se assemelha a um dos cavaleiros do Apocalipse trazendo destruição, a sua letra infelizmente acaba não sendo tão inspirada. A sonoridade, então, não consegue entregar a potência e força que essa figura teria: as guitarras, em alguns momentos, lembram trechos de “Deep Six” (no quesito de timbre), até que então voltam para o que seria a sonoridade “padrão” dos dois discos; os vocais seguem o mesmo movimento, alternando entre algo mais “clean” para uma distorção completa e com um grande exagero de efeitos, como acontece no trecho de "I'm the poison you can never take" - algo que funcionou muito bem na faixa anterior, mas que aqui acabou falhando. Isso tudo, consequentemente, acabou resultando em uma indecisão sonora, se tornando a faixa mais esquecível do disco.
A penúltima faixa do álbum, “Exit Wound”, é ironicamente o primeiro single lançado para anunciar o disco, com um videoclipe que misturou tanto filmagens conceituais quanto gravações de performance (tanto da música em si quanto de outros registros de shows do cantor). Desde o início, a canção busca criar um clima de mistério, tensão, incertezas, flertando até mesmo com uma atmosfera mais noir, utilizando-se tanto de linhas oscilantes de violino quanto de momentos mais protagonizados pelo baixo. Os refrões, então, invertem a lógica até então construída, com elementos mais agressivos e muito inspirados no industrial, com destaque para as linhas de guitarra, que em muito se assemelham a alguns dos trabalhos do Rammstein. Aliadas com a temática da canção, que mais uma vez traz um tema recorrente da discografia de Manson ao abordar a espetacularização extrema da mídia (algo que acompanhou o cantor ao longo de boa parte de sua carreira), o artista proporciona ao público um dos pontos altos do trabalho - e uma das canções que, provavelmente, serão mais apresentadas desse álbum na turnê.
O disco é, então, encerrado com “Enantiomorph”. Com seis minutos de duração no total, é possível de se dizer que é provavelmente uma das faixas mais pessoais (senão a mais pessoal) da carreira do cantor. Isso se deve, claro, ao fato de referenciar de maneira mais direta (ainda que não literal) as polêmicas e acusações que o envolveram, mas especialmente por um outro fator que foi comentado anteriormente: a junção de dois narradores, dando a entender que seriam o próprio Manson e o homem por trás dessa figura, Brian Warner. A faixa se inicia com o que aparenta ser uma gravação de voz de um dos dois (talvez Brian) falando sobre seu ponto de vista acerca da situação, comentando que havia feito de tudo para que se salvassem e que ele não era um livro que poderia ser queimado, mas sim algo que já havia sido memorizado (referenciando novamente a pessoa poderia morrer, mas a ideia não). O restante da letra, então, segue trabalhando essa temática, juntamente com discussões sobre as diferenças (ou semelhanças) de personalidade e identidade entre eles. Enquanto o encerramento da primeira parte se dava em um tom mais mórbido, de realmente uma morte do protagonista, aqui se tem um tom maior de resistência, de continuidade, o que é reforçado ao longo de todo o refrão ao dizer que “The sky can't fall forever whatever they put us through, they can't keep on killin' me or break my love, break my love for you”. A sonoridade da faixa acompanha essa intencionalidade mais melancólica, se assemelhando em alguns momentos a “Sacrifice Of The Mass”, mas tomando algumas liberdades para criar um encerramento que não parece total, mas sim somente daquele capítulo específico, sendo então a décima oitava e última canção da história de “One Assassination Under God”.
Com “One Assassination Under God - Chapter 2”, Marilyn Manson entrega seu melhor trabalho desde “The Golden Age Of Grotesque” e encerra uma das principais eras musicais de sua carreira, reafirmando seu lugar como uma das figuras mais marcantes do rock contemporâneo — para o bem e para o mal.
Marilyn Manson – 'One Assassination Under God - Chapter 2'
Lançamento: 14/08/2026
Gravadora / Selo: Nuclear Blast
Tracklist:
1. Unalive
2. Don’t Answer The Door
3. Front Toward Enemy
4. All The Vilest Things
5. None of the Suns
6. Lucifer’s Teardrop
7. The Arsonist
8. Exit Wound
9. Enantiomorph



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