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| Foto: João Zitti |
C6 no Rock – Parque Ibirapuera - São Paulo/SP - 23 de agosto de 2026
Por: Mayara Abreu (@mayabreuq)
Fotos: João Zitti (@joaozitti.work)
Festival dedicou o domingo, 23, a discos e artistas que ajudaram a construir uma das fases mais importantes da música brasileira
O Parque Ibirapuera parecia ter voltado algumas décadas no tempo no último domingo (23). Não por causa de uma cenografia exagerada ou de algum conceito mirabolante, mas por algo bem mais simples: milhares de pessoas reunidas para ouvir música.
O C6 no Rock encerrou sua primeira edição no domingo com uma programação dedicada a alguns dos grandes nomes do rock brasileiro dos anos 80. Ira!, Blitz, Legião Urbana, Marina Lima e Cazuza ocuparam o palco ao longo do dia em apresentações que tinham uma proposta bastante clara: revisitar discos e obras importantes sem transformar essas músicas em peças de museu.
Em uma época em que grandes eventos muitas vezes parecem disputar atenção com seus próprios palcos, ativações e cenários "instagramáveis", o C6 no Rock escolheu deixar a música ocupar o centro.
Ira! — Vivendo e Não Aprendendo
O domingo começou com o Ira! revisitando Vivendo e Não Aprendendo, álbum lançado em 1986 e responsável por consolidar ainda mais a banda na cena do rock brasileiro.
Nasi e Edgard Scandurra entraram no palco acompanhados pela formação atual para tocar um disco que, quatro décadas depois, continua soando extremamente jovem. Talvez essa seja uma das maiores ironias de um álbum chamado Vivendo e Não Aprendendo: suas músicas envelheceram, mas continuam falando diretamente com quem está descobrindo a banda agora.
“Envelheço na Cidade” foi um dos primeiros grandes momentos de coro coletivo. A música ganhou outra dimensão ao ser cantada por uma multidão que, em muitos casos, provavelmente não viveu os anos 80, mas conhece perfeitamente aqueles versos.
“Dias de Luta” manteve a intensidade, enquanto “Flores em Você” trouxe um dos momentos mais marcantes do repertório.
Como o disco tem menos de uma hora, o Ira! ainda conseguiu aproveitar os minutos finais para passear por outros clássicos da carreira. “Eu Quero Sempre Mais”, “Tarde Vazia” e “Núcleo Base” apareceram para alegria de um público que claramente não queria que o show acabasse.
Scandurra, como esperado, foi um dos grandes destaques. A guitarra continua sendo uma parte fundamental da identidade do Ira!, e ouvir aquelas músicas ao vivo, com a banda diante de um público tão diverso, mostrou que Vivendo e Não Aprendendo está longe de ser apenas uma lembrança de 1986.
| Foto: João Zitti |
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Blitz — As Aventuras da Blitz
Se o Ira! abriu o domingo com guitarras e uma certa melancolia juvenil, a Blitz mudou completamente o clima.
As Aventuras da Blitz, lançado em 1982, é um daqueles discos que ajudam a explicar como o rock brasileiro conseguiu se tornar um fenômeno tão popular naquela década. A banda misturava rock, pop, humor, teatro e uma linguagem que parecia conversar diretamente com quem estava do outro lado do rádio. E Evandro Mesquita continua entendendo muito bem como fazer isso funcionar.
A apresentação teve toda a teatralidade característica da Blitz, sem parecer uma reprodução congelada do passado. “Você Não Soube Me Amar” obviamente provocou um dos maiores coros do dia, mas a força do show esteve justamente em perceber que aquelas músicas ainda têm capacidade de colocar o público para dançar.
A participação de Fernanda Abreu foi outro momento especial. O reencontro com uma figura tão importante para a história da banda deu ainda mais significado à apresentação e reforçou a sensação de que o C6 no Rock não estava apenas comemorando discos, mas também encontros que fazem parte da história da música brasileira.
| Foto: João Zitti |
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| Foto: João Zitti |
Depois veio um dos momentos mais delicados do domingo
Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá subiram ao palco para revisitar Dois, clássico álbum da Legião Urbana lançado em 1986, acompanhados por André Frateschi nos vocais.
A ausência de Renato Russo é, obviamente, impossível de ignorar quando se fala em Legião Urbana. Mas a proposta aqui não pareceu ser substituir o vocalista ou tentar reproduzir exatamente aquilo que aconteceu há 40 anos. Foi uma maneira de manter aquelas músicas circulando, permitindo que uma nova voz ocupasse espaços que continuam sendo familiares para milhões de pessoas.
“Eduardo e Mônica” provocou uma reação imediata da plateia. “Quase Sem Querer” trouxe um momento mais introspectivo, enquanto “Tempo Perdido” transformou o Ibirapuera em um gigantesco coro.
Não importa quantos anos tenham passado ou quantas vezes tenham sido tocadas. Quando milhares de pessoas cantam “somos tão jovens”, a frase ganha um significado curioso quando vem de diferentes gerações reunidas no mesmo lugar.
| Foto: João Zitti |
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| Foto: João Zitti |
Marina Lima ficou responsável por uma das apresentações mais diferentes do domingo
Ao lado de Lobão e Liminha, a cantora revisitou Fullgás, lançado em 1984, em um show que se aproximou mais de uma experiência audiovisual.
O álbum já nasceu transitando por diferentes referências, misturando MPB, pop, rock, new wave e elementos eletrônicos. No palco, essa variedade ganhou ainda mais espaço com projeções e uma construção visual que dialogava diretamente com as músicas.
“Fullgás” continua sendo o grande cartão de visitas do disco, mas “Me Chama” foi um dos momentos mais aguardados da apresentação, especialmente com a participação de Lobão na bateria.
A presença de Liminha também ajudou a transformar o show em uma espécie de reencontro com a própria história daquele álbum.
Mas havia ainda uma camada mais emocional na apresentação. Fullgás é profundamente ligado a Antônio Cícero, irmão de Marina e um dos principais parceiros de sua trajetória. A homenagem ganhou um peso ainda maior diante da morte do poeta em 2024.
No bis, Marina ainda surpreendeu ao apresentar uma nova versão de “Fullgás”, com uma introdução de “Billie Jean”, de Michael Jackson. Uma escolha inesperada, mas que combinou com a proposta de não tratar aqueles clássicos como algo intocável.
| Foto: João Zitti |
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O encerramento do festival ficou por conta de Cazuza
Em Todo Amor Que Houver Nessa Vida, o C6 no Rock deixou de lado a ideia de reproduzir um único álbum e construiu uma homenagem que percorreu diferentes fases da carreira do cantor, desde o Barão Vermelho até sua trajetória solo.
Arnaldo Antunes, Frejat, Johnny Hooker, Léo Jaime, Leoni, Lobão e Maria Gadú dividiram o palco em diferentes momentos.
Frejat, naturalmente, carregava um peso simbólico especial. Afinal, sua presença fazia a ponte direta com a história do Barão Vermelho e com uma das fases mais importantes da carreira de Cazuza.
“O Tempo Não Para” e “Blues da Piedade” estiveram entre os momentos mais fortes da apresentação. Mas foi “Brasil”, com Frejat, que encerrou a noite de maneira mais emblemática.
Era difícil imaginar uma música melhor para fechar um festival que passou dois dias revisitando a história do rock brasileiro.
| Foto: João Zitti |
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Quando a música é suficiente
O C6 no Rock poderia facilmente ter seguido o caminho tradicional dos grandes festivais: muitos palcos, muitas atrações, experiências para todos os lados e uma programação pensada para agradar o maior número possível de pessoas.
Durante o domingo, não parecia haver tanta preocupação em registrar cada segundo para as redes sociais ou disputar espaço com o palco para conseguir a foto perfeita. A atenção estava, na maior parte do tempo, onde deveria estar: nos artistas.
Até a Feira de Vinil ajudou a reforçar essa proposta. Os discos apresentados durante o festival estavam ali, fisicamente, disponíveis para o público. Alguns ainda tiveram a oportunidade de sair do evento com seus LPs autografados pelos próprios artistas.
Foi bonito perceber diferentes gerações dividindo o mesmo espaço. Pais apresentando músicas aos filhos, fãs antigos reencontrando discos que fizeram parte de suas vidas e pessoas mais jovens descobrindo ao vivo trabalhos que, até então, existiam apenas nos fones de ouvido ou na coleção dos pais.
No fim, talvez seja isso que o C6 no Rock tenha conseguido fazer de melhor: provar que nostalgia não precisa significar viver preso ao passado. Esses discos continuam vivos porque ainda existe gente disposta a ouvi-los, cantá-los e, principalmente, apresentá-los para quem ainda vai descobri-los.
Por dois dias, o Ibirapuera foi menos um festival preocupado em mostrar tudo o que consegue oferecer e mais um lugar para simplesmente ouvir música.
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